Economia Banco Central justifica estouro da meta de inflação pela 2ª vez seguida

Banco Central justifica estouro da meta de inflação pela 2ª vez seguida

Preços foram pressionados pela inércia do ano anterior, por commodities e por gargalos em cadeias produtivas, diz documento 

  • Economia | Do R7

Carta foi enviada ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad

Carta foi enviada ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad

Adriano Machado/Reuters - 22.3.2022

O BC (Banco Central) divulgou uma carta aberta nesta terça-feira (10), enviada pelo presidente da instituição, Roberto Campos Neto, ao presidente do CMN (Conselho Monetário Nacional), o ministro Fernando Haddad, para justificar o estouro da meta da inflação em 2022, pelo segundo ano consecutivo.

No documento, o BC afirma que os preços no país foram pressionados pela inércia do ano anterior, pela alta das commodities e pelos gargalos em cadeias produtivas globais. Também destacou que o cenário é de convergência da inflação para as metas e que as projeções do BC são de que o índice siga em queda ao longo de 2023, terminando o ano em um patamar inferior ao de 2022.

Influenciada pelo aumento no valor dos alimentos, das roupas e dos itens de saúde e cuidados pessoais, a inflação oficial de preços do Brasil encerrou 2022 com alta de 5,79%, de acordo com dados divulgados nesta terça-feira (10) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

A meta estabelecida pelo CVM (Conselho Monetário Nacional) para a inflação do ano passado era de 3,5%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual (de 2% a 5%).

Segundo o documento, os principais fatores que levaram a inflação em 2022 a ultrapassar o limite superior de tolerância foram: a inércia da inflação do ano anterior; a elevação dos preços de commodities, em especial do petróleo; os desequilíbrios entre demanda e oferta de insumos e gargalos nas cadeias produtivas globais; os choques em preços de alimentação, resultantes de questões climáticas; e a retomada na demanda de serviços e no emprego, impulsionada pelo acentuado declínio da quantidade de casos de Covid-19 e pelo consequente aumento da mobilidade.

No entanto, foram listados fatores que agiram no sentido contrário e diminuíram o desvio da inflação em relação à meta — como a redução na tributação sobre combustíveis, energia elétrica e telecomunicações; o comportamento da bandeira de energia elétrica, que passou de escassez hídrica para bandeira verde; e a apreciação cambial.

O BC avalia também a importância da política monetária com a alta da taxa básica de juros, que atingiu 13,75% no ano passado e poderá ser mantida por mais tempo neste ano.

As projeções condicionais do BC são que a inflação acumulada em quatro trimestres prossiga com a trajetória de queda ao longo de 2023 e termine o ano em um patamar inferior ao de 2022. No Relatório de Inflação de dezembro de 2022, as projeções condicionais apontam para inflação de 5% em 2023 (queda de cerca de 0,8 p.p. em relação à inflação observada em 2022).

"O Comitê reforça que irá preseverar até que se consolide não apenas o processo de desinflação como também a ancoragem das expectativas em torno de suas metas. O Comitê enfatiza que os passos futuros da política monetária poderão ser ajustados e não hesitará em retomar o ciclo de ajuste caso o processo de desinflação não transcorra como esperado", afirma o documento.

Justificativa

Esse é o segundo ano de descumprimento da meta de inflação e, portanto, o segundo seguido em que Campos Neto divulga uma carta aberta. No ano passado, na carta enviada ao então ministro da Economia, Paulo Guedes, Campos Neto disse que a inflação seguiria alta em 2022, mas não iria estourar o teto da meta. 

Em carta ao novo ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), o BC deve citar a guerra na Ucrânia e a reabertura econômica pós-Covid como as principais justificativas para não ter cumprido a meta de inflação pelo segundo ano seguido em 2022. O banco também deve reforçar a manutenção da taxa básica de juros, a Selic, como arma para ganhar a batalha contra a alta de preços.

Toda vez que a inflação fica fora do limite de tolerância da meta, o Banco Central tem de explicar por que falhou na sua principal missão: a estabilidade dos preços. Desde a criação do sistema de metas, em 1999, o BC a descumpriu seis vezes. Com a segunda carta seguida, o atual presidente do banco, Roberto Campos Neto, se iguala a Henrique Meirelles no número de explicações oficiais à Fazenda.

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