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Bolso no vermelho: Brasil entra no novo ano com 80,6 milhões de inadimplentes

Especialistas explicam por que o endividamento persiste e apontam caminhos para reorganizar o orçamento

Economia|Mariana Saraiva, do R7, em Brasília

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Mais de 80 milhões de brasileiros estão com o nome negativado, refletindo um recorde de inadimplência no país.
  • A faixa etária mais afetada pelo endividamento é de 41 a 60 anos, com um aumento significativo nos últimos anos.
  • Especialistas apontam que o endividamento é resultado de questões estruturais, como a inflação e a falta de educação financeira.
  • Para melhorar a situação, é essencial mapear dívidas, priorizar pagamentos e criar hábitos de poupança mesmo em pequenas quantias.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

8 em cada 10 famílias brasileiras tinham dívidas em 2025 José Cruz/Agência Brasil

Virar o calendário nem sempre significa virar a página das contas. Para milhões de brasileiros, o novo ano começa com o bolso no vermelho, herança de gastos mal planejados, inflação persistente e renda apertada. O cenário é confirmado pelos números mais recentes da Serasa, que apontam um novo recorde de inadimplência no país.

Em novembro, o Brasil alcançou a marca de 80,6 milhões de pessoas com o nome negativado, o maior número da série histórica após 11 meses consecutivos de alta. O dado revela que o aperto financeiro segue firme, mesmo com sinais de aquecimento no mercado de trabalho.


A faixa etária mais afetada é a de 41 a 60 anos, que representa 35,4% dos inadimplentes. Em seguida, aparecem pessoas entre 26 e 40 anos (33,4%), os maiores de 60 anos (19,7%) e, por fim, os jovens de 18 a 25 anos (11,2%).

Durante mais uma edição do Feirão Serasa Limpa Nome, o valor médio dos acordos fechados foi de R$ 689, com R$ 17,8 bilhões em descontos concedidos apenas em novembro. Ainda assim, o volume de dívidas segue alto: são 698 milhões de ofertas de negociação ativas, que somam mais de R$ 1 trilhão.


Para o economista Riezo Almeida, o endividamento das famílias brasileiras tem raízes estruturais. “A inflação acumulada reduz o poder de compra, os salários seguem baixos e o mercado de trabalho ainda é instável. Isso faz com que muitas famílias recorram ao crédito para cobrir despesas básicas ou enfrentar emergências, como a perda de renda”, explica.

Segundo dados do Banco Central, o cenário atual é mais grave do que o observado há cinco anos. Em dezembro de 2020, 66,3% das famílias estavam endividadas. Em 2025, esse número saltou para 79,5%, com aumento também no volume de contas em atraso.


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Cartão, cheque especial e o efeito ‘bola de neve’

Mesmo com o mercado de trabalho mais aquecido, Riezo alerta que muitas famílias seguem presas a um ciclo difícil de romper.“Existe uma bola de neve histórica. A renda ajuda, mas não é suficiente para colocar o orçamento no azul”, afirma.

Segundo a Peic (Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), o peso das dívidas no orçamento familiar segue esta ordem:


  1. Cartão de crédito – impulsionado pela falta de educação financeira;
  2. Cheque especial – reflexo de má gestão do fluxo de caixa;
  3. Crédito consignado – descontado antes mesmo do salário cair na conta;
  4. Financiamentos– geralmente de longo prazo, como imóveis e veículos.

Riezo também explica a diferença entre endividamento e inadimplência. “Ter dívida não é, por si só, um problema. Quem paga em dia está endividado, mas saudável financeiramente. A inadimplência começa quando a renda já não cobre os compromissos e as contas se acumulam.”

Segundo a CNC (Confederação Nacional do Comércio), em 2025:

  • 79,5% das famílias tinham dívidas;
  • 30,5% estavam com contas em atraso;
  • 13,2% declaravam incapacidade de pagamento.

Educação financeira: o ponto de virada

Para o economista, o grande erro está no aumento do padrão de vida sem planejamento. “Quando a renda sobe, os gastos sobem juntos. Assim, não sobra nada para poupar. Isso acontece em todas as classes sociais.”

Ele destaca que programas como o Desenrola Brasil ajudaram a reduzir o estoque de dívidas, mas não resolvem o problema estrutural. “Só educação financeira somada ao aumento real da renda resolve, de forma definitiva, o fluxo de caixa das famílias.”

A projeção para o próximo ano ainda exige cautela. Com juros elevados, o crédito deve continuar caro. “O que pode mudar é o perfil da dívida. A tendência é migrar de dívidas de sobrevivência, como cartão e cheque especial, para contas essenciais, como água e energia”, explica Riezo.

Organização é a chave

A economista Petra Duque reforça que o primeiro passo para sair do endividamento é conhecer a própria realidade financeira. “É fundamental saber quanto da renda está comprometida, quais são os juros pagos e se existe alguma reserva financeira.”

Segundo ela, mapear todas as dívidas, priorizar aquelas com juros mais altos e estabelecer um orçamento rígido são medidas essenciais.“Aumentar a renda sem controle financeiro não resolve. É preciso disciplina e metas claras.”

Petra também destaca a importância de criar o hábito de poupar, mesmo que aos poucos. “Automatizar a poupança, tratar esse valor como uma conta fixa e construir uma reserva de emergência faz toda a diferença. Assim, em momentos difíceis, a família não precisa recorrer ao crédito caro.”

Ela resume com um velho ditado que segue atual: “A gente não é rico pelo que ganha, mas pelo que consegue poupar. Quem poupa mais do que gasta constrói segurança financeira, e isso muda tudo.”

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