Economia Com mais vagas que trabalhadores, EUA não freiam inflação e têm risco de recessão

Com mais vagas que trabalhadores, EUA não freiam inflação e têm risco de recessão

PIB do país recuou 1,6% no primeiro trimestre, em meio a ciclo de aumentos da taxa de juros e pleno emprego

  • Economia | Camila Nascimento, do R7*

Inflação dos EUA subiu 7,1% no primeiro trimestre
 em relação ao mesmo período de 2021

Inflação dos EUA subiu 7,1% no primeiro trimestre em relação ao mesmo período de 2021

Jeenah Moon/File Photo/ Reuters - 26/12/ 2020

Nos Estados Unidos, há mais vagas abertas do que pessoas à procura de trabalho. O pleno emprego tem agravado a inflação no país, que acumula alta de 7,1% no primeiro trimestre de 2022 em relação ao mesmo período em 2021, conforme dados divulgados pelo Departamento de Comércio. A alta dos juros para frear a disparada dos preços também atingiu níveis históricos na comparação anual (5,2%), o que contribuiu para aumentar o temor de recessão na economia americana.

O pleno emprego agravou a aceleração dos preços no pós-pandemia ao abrir margem para a negociação de salários, o que aumenta ainda mais o consumo, em um cenário com problemas de oferta. A cadeia de produção ainda se recupera das rupturas causadas pela Covid-19, enquanto sofre com novos problemas gerados pela guerra entre Rússia e Ucrânia.

Segundo o sócio e economista-chefe da Reach Capital, Igor Barenboim, o país vive uma espiral de preços e salários. “O Estados Unidos têm duas vagas de emprego para cada pessoa que procura ocupação. Então, os salários aumentam, hoje eles estão crescendo cerca de 6%. Se o salário aumenta, o custo de produção cresce e é repassado ao consumidor, fazendo os preços subirem”, explica.

Com a negociação dos salários acima da inflação, as pessoas ganham mais, o consumo cresce e também pressiona os preços. De acordo com o professor da Mackenzie e economista-chefe da G11 Finance, Hugo Garbe, “quando há pleno emprego, sem uma produção para acompanhar essa demanda, existem também características de inflação, ainda mais em um momento em que os suprimentos no mundo ainda não voltaram ao normal, o que provoca incremento dos custos”.

Mesmo com o consumo acelerado e a maioria das pessoas empregadas, o PIB (Produto Interno Bruto) do país encolheu 1,6% no primeiro trimestre, segundo estimativa do Departamento de Comércio americano, divulgado nesta quarta-feira (29). O dado foi revisado para baixo pela terceira vez.

Com a retração de 1,6% no trimestre, o PIB do país já está oficialmente em recessão. Isso era praticamente inevitável. Quando tem a combinação de pleno emprego e alta liquidez, gerada pelos auxílios durante a pandemia no mercado internacional, é difícil não haver inflação. O pleno emprego atrapalha a inflação, porque você tem muita gente empregada e consumindo. A recessão vem do aumento das taxas de juros para controlar a inflação, que busca frear o consumo. O americano não está acostumado a pagar juros e diminui as compras”, explica Garbe.

Causas da inflação

Garbe ressalta ainda que o pleno emprego, apesar de pressionar os preços, “não é a causa raiz da inflação, mas contribui para um incremento de 5% a 10% do índice”. “Houve um excesso de liquidez durante a pandemia, quando o governo Biden injetou cerca de U$S 1 trilhão em auxílio. Esse dinheiro, essencialmente, não foi recebido pelas pessoas mais humildes e foi usado na compra de itens supérfluos. Houve impressão de papel-moeda e não houve produção. Então, você tem uma avalanche de demanda com uma oferta menor”, afirma.

Alta dos juros demorou para chegar

Segundo Igor Barenboim, a expectativa do Banco Central americano era que a inflação cedesse sem que fossem necessários incrementos na taxa de juros, o que não aconteceu. "A aposta era que as pessoas iam parar de consumir bens e a oferta ia voltar a se normalizar, mas muitas pessoas continuaram a consumir. Depois teve a guerra, e isso pressionou os preços de forma mais permanente. O Fed (Federal Reserve) chegou atrasado. A gente tem um choque de oferta muito grande que tem efeitos secundários. Não adianta tentar baixar, por exemplo, o combustível com os juros, o ideal é fazer com que os combustíveis não afetem os outros preços da economia, os salários, serviços”, explica.

A taxa de juros no país chegou a 1,75%, após um aumento de 0,75 ponto percentual, a maior alta desde 1994. O Fed subiu os juros em abril para 0,5%, o primeiro aumento desde 2018. O Banco Central americano anunciou que deve continuar o ciclo de aumentos, a próxima elevação deve ser de 0,5 ou 0,75 ponto percentual.

“O Fed demorou para aumentar os juros, ele não acreditou muito no processo inflacionário. Agora, não só a inflação está vindo com tudo, como existe um medo da recessão americana. Esse processo inflacionário tem uma culpa do Fed, que não aumentou a taxa de juros no momento ideal. Os Estados Unidos são conhecidos como um grande país consumidor. A elevação dos juros ajuda a desacelerar a inflação e controlar o consumo, porque a compra de bens fica mais cara. A partir do momento que você vai financiar um imóvel, um veículo, por exemplo, tudo fica mais caro no final”, analisa Garbe.

*Estágiaria do R7, sob supervisão de Ana Vinhas

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