Economia Comitê do Banco Central deve ignorar pressão do governo e manter juros em 13,75%

Comitê do Banco Central deve ignorar pressão do governo e manter juros em 13,75%

Selic está no maior nível dos últimos seis anos; desde a última reunião, inflação teve desempenho melhor do que o esperado

  • Economia | Do R7

Resumindo a Notícia

  • A reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) do BC (Banco Central) começou na terça (2)
  • No encontro, que termina nesta quarta (3), por volta das 18h, é decidida a taxa básica de juros
  • A taxa Selic está em 13,75% há seis reuniões, e deve ser mantida pelo comitê nesse patamar
  • Apesar de críticas do governo, o BC mantém a taxa elevada para tentar baixar a inflação
Entrada do prédio do Banco Central do Brasil

Entrada do prédio do Banco Central do Brasil

Marcello Casal Jr / Agência Brasil

A terceira reunião do ano do Copom (Comitê de Política Monetária), que começou na terça-feira (2) e se encerra no fim da tarde desta quarta (3), deve ter como resultado a manutenção da taxa básica de juros em 13,75%, segundo avaliação de diferentes especialistas do mercado.

Apesar da pressão do governo federal e do setor produtivo para uma diminuição, é esperado que o comitê do BC (Banco Central) segure, por mais algum tempo, a Selic no maior nível dos últimos seis anos. 

Analistas do mercado financeiro acreditam que a taxa básica de juros da economia brasileira só vai começar a cair no segundo semestre. O primeiro corte deve acontecer em 20 de setembro, quando a Selic cairá 0,25 ponto percentual, passando dos atuais 13,75% para 13,5% ao ano. 

Mas já há especialistas que apostam em uma antecipação desse prazo para o fim do primeiro semestre. Um deles é Lucas Seixas, cofundador e CEO da InvestAI: "Se virmos bons números na inflação de abril e maio, com núcleos em queda e inflação comportada, podemos considerar que talvez em junho esse ciclo de queda tenha início". 

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Ele afirma que, neste momento, a manutenção da Selic em 13,75% tem diferentes razões. "É uma forma de ancorar melhor as expectativas de inflação de 2024 e 2025 em torno da meta, mostrando que o Banco Central seguirá vigilante a qualquer indício de não conseguir atingir o intervalo da meta nos próximos anos. Além disso, também é uma forma de o BC mostrar que não se deixará levar por pressões políticas, reafirmando sua independência." 

Sérgio Goldenstein, estrategista-chefe da Warren Rena, complementa a lista de motivos que justificam a postura mais conservadora do Copom: além da permanência da desancoragem das expectativas de inflação, ele cita o desvio em relação à meta da projeção no cenário de referência e a necessidade de consolidação do processo de desinflação.

Ainda não há, portanto, a projeção de um cenário em que o BC consiga cumprir a meta de inflação, que é de 3,25% em 2023 e de 3% em 2024-2025. A situação é de estabilidade da taxa Selic, mesmo com a prévia da inflação, medida pelo IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15) de abril, ter mostrado crescimento de 0,57%, abaixo do esperado, que era de 0,61%, dando continuidade à desaceleração iniciada em fevereiro.

Para Ricardo Jorge, especialista em renda fixa e sócio da Quantzed, apesar de a inflação estar começando a perder força, para o Copom iniciar um ciclo de afrouxamento monetário é preciso que os dados sejam mais consistentes. "Os números trazem ânimo para o mercado, mas, de fato, ainda são insuficientes para que se possa esperar algum afrouxamento monetário. O BC vai continuar observando os próximos dados de inflação para, aí sim, mais à frente, tendo uma consistência maior na desaceleração dos preços, começar o processo de corte de juros”, analisa.

"O Copom terá dificuldades para reduzir a taxa de juros neste ano, porque as expectativas inflacionárias seguem acima da meta para os próximos dois anos, como mostram tanto o [relatório] Focus quanto os modelos do Banco Central", explica Pedro Oliveira, tesoureiro do Paraná Banco Investimentos.

Essa é a mesma visão do superintendente da assessoria econômica da ABBC (Associação Brasileira de Bancos), Everton Gonçalves. Ele diz que as expectativas para a inflação em 2024 superam a meta de 3,0% — estão em 4,18%. "Mesmo com algum alívio, os componentes mais sensíveis ao ciclo econômico e à política monetária na inflação corrente mantêm-se bem acima do intervalo compatível com as metas inflacionárias vigentes", diz.

Oliveira avalia que, para atingir o centro da meta, o Copom tem de manter a Selic em 13,75% pelo menos até o fim de 2023. "Se o BC fizer isso, a inflação de 2024 deve ser impactada positivamente, convergindo para a meta de 3%. Porém, se o ciclo de queda da Selic começar ainda neste ano, a inflação de 2024 deve superar 4%", afirma.

A economia mundial também pode ter influência na decisão do Copom. Para Marianna Costa, economista-chefe do TC, a tendência de piora do setor bancário internacional, devido às condições do mercado externo, sugere algum arrefecimento da dinâmica de preços na margem e menor atividade econômica, "mas não forte o suficiente para alterar as expectativas de inflação em um prazo mais longo do que 12 meses". Entretanto, afirma, a avaliação do mercado é que a inflação permaneça desancorada da meta perseguida pelo BC.

Comunicado e ata

Marianna diz que, como a manutenção da taxa é consenso entre os especialistas, "a expectativa maior é em relação ao comunicado e à ata da reunião, no sentido de buscar entender como está o balanço de riscos observado pelo colegiado para definir a trajetória da Selic".

"Há uma percepção subjacente de que a atividade econômica em ritmo menor, o aperto de crédito em ritmo maior e uma dinâmica de preços atual melhor possam corroborar que o ciclo de queda de juros tenha espaço para começar um pouco antes do último trimestre do ano, talvez já no início do terceiro trimestre. São essas as pistas que se buscam, tanto no comunicado quanto na ata", justifica a economista. 

"Nós, do TC, entendemos que o ciclo de queda de juros começa em setembro, mas temos uma inclinação grande a acreditar que há espaço para que aconteça antes dessa data", revela.

Sobre os documentos elaborados na reunião do comitê, Gonçalves, da ABBC, resume o que os bancos esperam: "Além das atualizações dos fatores de risco apresentados em março, é fundamental que a mensagem do Copom mantenha o grau de liberdade para a retomada do ciclo de ajuste, não só no caso de a desinflação não transcorrer como o esperado, mas, eventualmente, se as condições conjunturais modificarem o balanço de riscos e permitirem a reversão da trajetória da política monetária ou da redução do aperto contracionista". 

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Quanto às expectativas do mercado sobre o comunicado e a ata do Copom, diz Sérgio Goldenstein, da Warren Rena: "Algum abrandamento pode ocorrer na descrição do balanço de riscos e na possível supressão da menção referente à possibilidade de voltar a elevar os juros".

Para ele, essas mudanças seriam decorrentes de melhorias na economia, como a estabilização, nas últimas semanas, das expectativas de inflação entre 2024 e 2026, "da eliminação do 'risco de cauda' de uma trajetória explosiva da relação dívida/PIB, devido ao novo arcabouço fiscal, e da melhora, ainda que lenta, dos indicadores recentes de inflação", analisa.

O especialista afirma que, na última ata, de março, o Copom deu grande peso à piora das expectativas de inflação. "Apesar de a estabilidade recente das expectativas não deixar de ser uma notícia positiva, permanecerem com um desvio elevado em relação à meta de inflação gera desconforto e afeta as projeções do BC". 

Já no balanço de riscos, a avaliação de Goldenstein é de que será um pouco mais favorável, tendo em vista dois pontos principais: a apresentação do novo arcabouço fiscal e a trajetória recente do real no mercado cambial.

"Não descartamos um discreto abrandamento do discurso, podendo reconhecer a interrupção do seu processo de deterioração, a redução dos riscos fiscais, ainda que continuem relevantes, e a trajetória mais benigna da taxa de câmbio. O tom em geral do comitê deverá continuar duro, mesmo que admita algumas indicações positivas, tendo em vista o firme propósito de promover a reancoragem das expectativas", finalizou o estrategista da Warren Rena.

Entenda a Selic

A taxa básica de juros é a taxa mais baixa da economia e funciona como piso para os demais juros cobrados no mercado. A Selic é usada nos empréstimos entre bancos e nas aplicações que as instituições financeiras fazem em títulos públicos federais.

Em linhas gerais, é a taxa Selic que os bancos pagam para pegar dinheiro no mercado e repassá-lo a empresas ou consumidores em forma de empréstimos ou financiamentos. Por esse motivo, os juros que os bancos cobram dos consumidores são sempre superiores à Selic.

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A taxa básica também serve como principal instrumento do BC para manter a inflação sob controle, perto da meta estabelecida pelo governo. Isso acontece porque os juros mais altos encarecem o crédito, reduzem a disposição para consumir e estimulam alternativas de investimento.

Quando o Copom aumenta a Selic, o objetivo é conter a demanda aquecida, e isso se reflete nos preços, porque os juros mais altos encarecem o crédito e estimulam a poupança. Já quando o Copom reduz os juros básicos, a tendência é que o crédito fique mais barato, com incentivo à produção e ao consumo.

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