Especialista critica “politização” do pré-sal pelo governo
Diretor do CBIE, Adriano Pires diz que “ufanismo” governamental prejudicou o leilão de Libra
Economia|Rodolfo Borges, do R7

Após o governo celebrar, ao longo da semana, os frutos da exploração do pré-sal no Campo de Libra para a Educação e a Saúde no Brasil, a presidente da Petrobras destacou na última sexta-feira (25) que o campo localizado na Bacia de Campos não entrará em produção antes de 2020. Segundo Graça Foster, aliás, o pico de produção em Libra só deve ser atingido quatro anos depois. Ou seja, qualquer ganho para o País, inclusive com royalties, só chega daqui a sete anos.
Mais realista, a declaração da presidente da Petrobras contrasta com a forma como o governo federal vem tratando as reservas de petróleo brasileiras desde o anúncio do descobrimento do pré-sal. Para o diretor fundador do CBIE (Centro Brasileiro de Infra Estrutura), Adriano Pires, o governo “politizou a questão do petróleo”, fazendo um “discurso de campanha eleitoreira” que atrapalhou o leilão do maior campo do pré-sal.
Na entrevista abaixo, o especialista comenta a dificuldade de fazer prognósticos sobre os ganhos que a descoberta de petróleo abaixo da camada de sal deve trazer ao Brasil e diz que o leilão de Libra teve um lado bom e um lado ruim. Veja a seguir:
R7: Quando, de fato, o brasileiro pode contar com os rendimentos esperados do pré-sal?
Adriano Pires: Não existe a palavra “certeza” em petróleo. Então, existe a probabilidade, se tudo der certo, vamos tirar o primeiro barril de Libra em 2019 ou 2020. Mas isso depende de como vai estar o preço do petróleo no mercado internacional, de como a gente vai conseguir retirar pontos de estrangulamento da infraestrutura, com a questão de logística, de terminais, de oleodutos, construir navios e plataformas.
R7: Mas o governo já está celebrando os frutos do pré-sal há alguns anos.
Pires: O governo politiza a questão do petróleo. Dilma faz discursos de campanha eleitoreira, para fazer a reeleição dela. Ela pretende fazer um megaevento para a assinatura do contrato. Celebrar é justo, mas um megaevento é demais. Ninguém sabe qual vai ser o preço do barril em 2020. O mundo também pode passar por alguma revolução energética que afete a área do petróleo. Esse ufanismo e essa demagogia são ruins para todo mundo.
R7: O preço dos combustíveis no Brasil pode cair depois de iniciada a extração de óleo do pré-sal?
Pires: Não. Estamos produzindo petróleo, mas temos um déficit de refinarias muito grande. O governo só garante que duas refinarias vão ficar prontas até 2020: Comperj 1, com capacidade para 167 mil barris, e Abreu e Lima, em Pernambuco, com capacidade para 230 mil barris. A perspectiva é a gente ser exportador de óleo e importador de combustível. E a Petrobras vai ter de elevar o preço da gasolina. Senão, como vai conseguir investir?
R7: A presidente da Petrobras garantiu que não será preciso reajustar combustíveis para pagar os R$ 15 bilhões de bônus pelo leilão de Libra. De onde virá o dinheiro?
Pires: Sabe aquela música do João Bosco, O Bêbado e o Equilibrista? A Petrobras está tentando se equilibrar. Aumentar o preço para pagar o bônus não dá mais. Para novembro, não dá. Portanto, a Petrobras vai ter de pegar emprestado com alguém. O governo tem tido uns ataques de criatividade, tira dinheiro do Tesouro, bota do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Não sei qual é a mágica, mas o aumento da gasolina já devia ter feito há mais tempo. Se fizer agora, não gera o suficiente.
R7: Quando o aumento deveria ter ocorrido?
Pires: Deveria ter sido feito há um ano, há seis meses. É preciso uma política que tenha lógica econômica. A partir de janeiro ou fevereiro, já fica complicado de anunciar um aumento. Então, o deadline para fazer o aumento necessário agora deve ser dezembro, no máximo janeiro.
R7: Como o senhor avalia o resultado do leilão do Campo de Libra?
Pires: Ele teve coisas boas e ruins. A parte boa foi a entrada da Shell e da Total, duas empresas privadas. Por serem privadas e de capital aberto, elas deram consistência ao consórcio e vão pode fazer aquele papel de fiscalizar a questão de custos, porque a estatal não olha muito para isso.
R7: Qual foi o lado negativo?
Pires: O lado negativo é que o governo ofereceu em leilão um ativo muito precioso, e ele não conseguiu atrair concorrentes. Consequentemente, o ágio foi zero. Esse é o ponto do fracasso. Se você está leiloando um produto de um valor tão grande, como não consegue ágio? Como não consegue atrair mais empresas?
R7: Onde o governo errou?
Pires: No modelo [de partilha], mas também tem o risco regulatório. Esse discurso que o governo insiste em fazer em relação ao petróleo, um discurso ufanista, demagógico, de que vamos resolver todos os problemas com o petróleo, de que [o leilão de] Libra não foi privatização... Essas bobagens que o governo fala criam incertezas regulatórias e assustam muito o investidor. O governo tem de ter mais foco e menos demagogia. Se privatizou ou não, é secundário. O importante é trazer investimento ao País e conseguir criar mais empregos.
R7: Alguns especialistas também criticaram a pressa do governo brasileiro em colher os frutos do pré-sal. O senhor concorda com a crítica?
Pires: Sim. O governo fez uma regra de leilão em que privilegiou o ganho de dinheiro em curto prazo, em detrimento do longo prazo. Ele [governo] fixou um bônus de assinatura muito alto [R$ 15 bilhões], antecipando uma receita. Assim, o consórcio teve de oferecer menos excedente, porque já adiantou uma parte no bônus. O governo foi para o leilão de Libra mais preocupado em resolver o problema de curto prazo, do superávit primário, do que com as gerações futuras de brasileiros. Se ele contasse com um bônus menor, poderia ter um excedente de óleo maior.
R7: Em 2008, o Brasil recebeu um convite para participar da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) como consequência da descoberta das reservas do pré-sal. Isso faria bem para o País?
Pires: Isso é bobagem. Vou torcer para o Brasil produzir petróleo, mas a Opep não é exemplo para o Brasil. Não seria nenhuma vantagem. Entrar em cartel, ser sócio da Venezuela, de país de Oriente Médio, acho que não são parceiros interessantes para o Brasil.















