Economia Investimento de alto risco, bitcoin faz milionários, mas exige cautela

Investimento de alto risco, bitcoin faz milionários, mas exige cautela

Programador aplicou R$ 8.000, perdeu grana e depois conquistou R$ 1 milhão

Investimento de alto risco, bitcoin faz milionários, mas exige cautela

Arriscado para investidor principiante, bitcoin se valorizou 1.600%

Arriscado para investidor principiante, bitcoin se valorizou 1.600%

Dado Ruvic/Illustration/Reuters - 06.11.2017

Depois de passar meses analisando o desempenho das moedas vituais, o programador de computadores João (nome fictício), de 33 anos, decidiu investir R$ 8.000 em bitcoins. Era metade do que ele tinha na caderneta de poupança. 

A compra foi em 4 de janeiro deste ano. No dia seguinte, a surpresa desagradável: a moeda virtual desvalorizou 25%.

"Fiquei triste, mas comprei mais R$ 8.000 no dia 13 de janeiro para fazer um preço médio melhor. Comecei a estudar formas de aumentar meus bitcoins e descobri todo um universo de criptomoedas", disse o programador.

"Decidi investir R$ 8.000 em bitcoins. Era metade do que tinha na poupança. No dia seguinte, a moeda se desvalorizou 25%"
João (nome fictício), que levou tombo antes de ganhar muita grana

Entre fevereiro e abril, João resolveu trocar os bitcoins por uma outra moeda denominada de decred. Foi a hora da virada, afinal, a valorização foi de 1.000%.

"Em março, eu já tinha investido R$ 40 mil. No mês de junho, recebi R$ 40 mil de pagamento por um projeto e também comprei moedas virtuais. Entre janeiro e junho, investi R$ 80 mil ao todo", disse.

No último final de semana de novembro, ele bateu o patamar de R$ 1 milhão. "Saquei R$ 168 mil e dei entrada em um apartamento. É pequeno, num prédio antigo, sem elevador, mas consegui com o lucro do bitcoin", comemora.

O desempenho do João nas moedas virtuais se deve a muito sangue-frio e uma dedição quase integral no estudo da volatilidade (altas e baixas constantes no valor) e dos algoritmos.

"Passei uns seis meses entendendo e 'traduzindo' o sistema. Em média, acerto em 70% das operações, ou seja, perco dinheiro em 30% delas, mas no fim de dois ou três meses, tenho mais moedas virtuais do que tinha antes", disse. A compra e venda de bitcoins ou criptomoedas pode ser comparado à especulação com moedas estrangeiras.

Compensa comprar?

Porém, o sucesso de João e de outros investidores, que se deram bem com a gigantesca valorização da moeda nos últimos dias, pode ser exceção e, mais que isso, passageiro.

O economista Richard Rytenband, colunista do R7 e um dos autores do blog Economia em 5 minutos, sugere cautela para quem pensa em investir nas criptomoedas. "A euforia é crescente e em algum momento pode ocorrer uma forte queda nos preços", avisa. 

O especialista em moedas digitais Fernando Ulrich vai além e é incisivo. Em seu Facebook, na quarta-feira (6), Ulrich escreveu: "Boa parte dessa subida ocorreu nos últimos dois meses. É muito muito expressivo. Surreal. [...] Não, não compre bitcoin. O risco, neste momento, é enorme. E para a vasta maioria das pessoas, significa um risco bem além do tolerável", assegura.

Em 1º de janeiro de 2017, a moeda era cotada em US$ 997,69 (R$ 3.278,91 nos dias atuais). Ontem, 7 de dezembro, estava em US$ 17.064 (R$ 56.080,84 na cotação do dólar da véspera). Significa dizer que o investimento saltou 1.611%.

"Não, não compre bitcoin [agora]. O risco, neste momento, é enorme"
Fernando Ulrich, especialista em moedas digitais

É justamente as alterações bruscas e incertezas do mercado de moedas virtuais, já são mais de 2.000 tipos, que levou o Banco Central do Brasil a emitir o comunicado número 31.329, em 16 de novembro, alertando sobre os riscos dos negócios. "A compra e a guarda das denominadas moedas virtuais com finalidade especulativa estão sujeitas a riscos imponderáveis, incluindo, nesse caso, a possibilidade de perda de todo o capital investido [...] e sofrer perdas patrimoniais".

O Banco Central também destacou que "[as moedas virtuais] não são emitidas nem garantidas por qualquer autoridade monetária, por isso não têm garantia de conversão para moedas soberanas, e tampouco são lastreadas em ativo real de qualquer espécie, ficando todo o risco com os detentores. Seu valor decorre exclusivamente da confiança conferida pelos indivíduos ao seu emissor".

Segurança na poupança

Leal dedica todo o seu tempo para promover o bitcoin

Leal dedica todo o seu tempo para promover o bitcoin

Reprodução/ Facebook

O programador João também desenvolveu um padrão para resguardar parte do lucro. "De tempos em tempos, eu vendo 20% do que estou lucrando e coloco na poupança. O que define esses momento de retirada é quando o gráfico de preços da moeda virtual está no topo e deve passar por um período de queda", disse João.

Mas os riscos das moedas vituais não estão apenas na desvalorização. Como todo mercado que tem uma expansão rápida, as moedas virtuais também são um terreno fértil para o surgimento de golpistas.

Funciona assim: uma pessoa ou empresa de internet cria uma moeda virtual prometendo inovações tecnológias, monta um grupo de apoiadores e lança a moeda no mercado para captar recursos. Depois de um tempo, quando a moeda atinge um certo valor, eles vendem tudo e somem.

"É comum acontecer. Tanto que existem sites que fazem um ranking de projetos que têm o risco de serem 'scam', como são chamodos esses golpes", disse João.

Mineradores

Um dos motivos do sucesso do bitcoin é a constante entrada de novos investidores. "O interesse crescente pelas moedas virtuais são a essência do lucro. A demanda faz o preço subir", explica Jocimar Leal, 51 anos, dono de uma hamburgueria em Osasco, na região metropolitana de São Paulo, e palestrante da AirBit, uma plataforma de investimento em moedas virtuais.

Bitcoins são vendidas em casas de câmbio específicas

Bitcoins são vendidas em casas de câmbio específicas

Getty Images

Leal conta que conheceu as moedas virtuais por meio de um amigo que trabalhava na área de TI (Tecnologia da Informação) há um ano e meio. Mesmo assim esperou oito meses para tomar coragem e começar a investir.

"O bitcoin tem 8 anos de existência e a empresa que represento já tem 2 anos e meio. É algo novo e empolgante. Comecei há seis meses com US$ 1.000. O risco existe, assim como existe em todo investimento, pode picos e quedas, mas sempre tem uma recuperação", disse.

Leal garante que o bitcoin não tem característica de bolha especulativa, com chance de estourar a qualquer momento e deixar todo mundo no prejuízo.

"Ela foi a primeira e já é aceita por várias empresas e também no Japão. Além disso, ela já foi criada com um limite de 21 milhões de unidades, hoje o mercado movimenta cerca de 17 milhões de unidades, não é uma aventura, é uma moeda e tem uma demanda para ela", afirmou.

Para manter a chama do bitcoin acesa, Leal não poupa esforços. Ele deixou a gestão da hamburgueria com a mulher e passa o dia todo captando novos investidores. "Eu explico para as pessoas como é que funciona o bitcoin e como é possível ganhar dinheiro. Eu mesmo já lucrei bem acima de todas as minhas expectativas. O que ganho continuo investindo", disse sem precisar qual o valor ou quando pretende parar. 

Como funciona

Para começar a investir em bitcoin, o interessado precisa procurar uma casa de câmbio de moeda virtual e fazer um cadastro. Geralmente, o CPF é usado para compras e vendas. O investidor recebe uma senha segura e um link onde fica guardado o seu saldo bitcoin. 

As transações seguintes não dependem de casas de câmbios e podem ser feitas diretamente no mercado, por meio de aplicativos, inclusive entre países diferentes. "É um jeito de transferir dinheiro para o exterior rapidamente", disse Leal. 

O segredo do bitcoin está na certificação e validação das transações. Todas as negociações na criptomoeda são cadastradas numa expécie de livro-caixa, chamado blockchain. As informações são blocadas por ordem cronológicas e invioláveis. 

"Para evitar erros e fraudes, as transações são checadas e criptografadas por pessoas e empresas que estão no mercado. Elas recebem uma pequena comissão, em bitcoin, por essa checagem que funciona 24 horas por dia. Na China, onde a energia elétrica é barata e a internet é de ponta, existem pessoas e empresas que vivem dessas comissões. São as chamadas fazendas de mineradores de bitcoin", assegura o investidor.

Um guia para quem quer investir em Bitcoins

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Paga imposto?

O colunista do R7 e autor do blog Economia em 5 minutos Richard Rytenband explica que o dono de bitcoins precisa declarar o patrimônio nas criptomoedas no Imposto de Renda. Basta ir até a seção "Outros Bens" e usar o valor pelo qual as moedas foram adquiridas, sempre com o amparo de documentação hábil e idônea.

Rytenband adverte que, nos meses em que a soma das vendas de bitcoins superar R$ 35 mil, é preciso apurar ganhos de capital e, conforme o caso, pagar imposto de 15% sobre o montante total.