Economia Negócios da "quebrada" superam barreiras e transformam vidas

Negócios da "quebrada" superam barreiras e transformam vidas

Empreendimentos surgem como alternativa ao desemprego, mas tem uma turma responsável por causa impacto social e exportar produtos 

Negócios da quebrada superam barreiras visíveis e invisíveis

Osanira Ferreira e o X-Tudo duplo do Mec Favela, negócio que virou referência

Osanira Ferreira e o X-Tudo duplo do Mec Favela, negócio que virou referência

Edu Garcia/R7 14.09.2018

Como passar o fim de semana sem abrir mão da pizza e ao mesmo tempo sem gastar muito? A solução é a pizza por R$ 10. Comum nas portas de estádios e de faculdades, a moda se espalha pela capital paulista.

Motoboys ou até mesmo ciclistas passam nas ruas com megafone anunciando que tem pizza a R$ 10. A massa é um pouco mais fina e tem menos recheio, mas o preço atende ao bolso de muitos moradores.

A pizza e outros pequenos negócios têm crescido principalmente nas periferias. “O empreendedorismo tem crescido no Brasil como uma saída possível ao desemprego, as pessoas buscam outras formas de gerar renda a partir do seu esforço, sem necessidade de estar no mercado de trabalho”, explica o professor do Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da FGV (Fundação Getúlio Vargas) Edgar Barki.

É o caso Osanira Ferreira, que comprou o famoso Mec Favela, uma lanchonete conhecida em Heliópolis, na zona sul de São Paulo. A ideia começou há 20 anos com Adelmo Siqueira. Ele vendia os lanches e as crianças do bairro deram o apelido ao estabelecimento, uma alusão ao famoso fast-food.

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Mec Favela tem 7 funcionários e funciona praticamente 24h

Mec Favela tem 7 funcionários e funciona praticamente 24h

Edu Garcia/R7 14.09.2018

“Eu trabalhei por muito tempo em uma padaria, consegui juntar um dinheiro e comprei a lanchonete faz uns 4 anos”, diz Osanira que trabalha todos os dias à frente do negócio jogando em todas as posições: “Faço um pouco de tudo, mas hoje já consegui ter sete funcionários para conseguirmos atender o público por praticamente 24h”.

Para Osanira o segredo do sucesso do negócio, além do nome criativo, está em servir porções generosas por valores acessíveis. “Aqui vendemos a porção de batata por R$ 4 e o X-Tudo duplo por R$ 11. As pessoas sabem que vão comer muito e pagar pouco”.

A ideia pegou e se espalhou por outros bairros da cidade. “Tem muita gente que vem de fora para conhecer nossos lanches e, sim, o nome é muito copiado. Até pensei se não seria o caso de patentear a marca”, diz Osanira.

Michelle Fernandes começou seu negócio com R$ 150

Michelle Fernandes começou seu negócio com R$ 150

Edu Garcia/R7 14.09.2018

Negócio Social

Ela tem o perfil comum a muitos empreendedores da periferia, como observa Marcelo Rocha, o DJ Bola, que está à frente da produtora sócio cultural A Banca e da ANIP (Aceleradora de Negócios de Impacto na Periferia). “Muitas pessoas conseguem juntar um dinheiro e investem em um negócio de base popular sem muita estratégia, sem formação”.

Osanira diz que aprendeu tudo na “raça”, não fez cursos e controla as finanças como pode. “Está na minha mira, mas falta tempo”.

“Além desses negócios que surgem na periferia para a periferia vemos um fenômeno novo que é o empoderamento do jovem, que busca o crescimento pessoal”, avalia Barki. “Esse é um movimento crescente de empreendimentos que nascem na periferia e ganham o mundo”.

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É o caso da Boutique de Krioula, uma loja virtual que vende acessórios inspirados na moda afro para mulheres negras. “Já vendemos para os Estados Unidos, Portugal, Alemanha, Argentina e atendemos todo o Brasil”, conta Michelle Fernandes fundadora do e-commerce.

Após perder o emprego, Michelle pegou R$ 150, o que tinha na carteira, comprou tecido, fez turbantes e começou a vender nas redes sociais. Era uma forma de ganhar algum dinheiro no período que vivia do seguro-desemprego. “As pessoas começaram a fazer encomendas, foi crescendo e percebi que havia ali um nicho, percebi que precisava estudar, busquei cursos online, o Sebrae, mas a minha formação foi na prática mesmo”.

Michelle é filha de empregada doméstica e viveu com a mãe na casa dos patrões na zona sul de São Paulo até os 17 anos. Foi a primeira da família a concluir o ensino médio e depois que os patrões da mãe faleceram elas foram morar no Capão Redondo.

A Boutique de Kriola exporta seus produtos para 4 países

A Boutique de Kriola exporta seus produtos para 4 países

Edu Garcia/R7 14.09.2018

A Boutique cresceu na raça, como costuma dizer. Sem crédito bancário — essa é uma das maiores dificuldades apontadas pelos especialistas quando o assunto é empreendimento na quebrada — todo o lucro de Michelle era revertido para a loja. “Quando não dava lucro, buscava alternativa, fazia eventos, busca outras estratégias. Nunca tive crédito em banco, não tenho cartão e não uso cheque especial, sempre tive muito mais vontade que dinheiro”.

Ano passado a boutique passou pelo processo de aceleração com o pessoal da Banca e aí que Michelle conheceu o significado de negócio de impacto social. “Esse é um termo novo para mim. Eu não sabia que tinha capacidade de empreender e queria fazer algo que conversasse com mulheres negras como eu”, conta. “Percebo que coloquei essas mulheres como protagonistas e trabalho com a valorização das nossas raízes e autoestima”.

O processo de aceleração é promovido pela A Banca, em parceria com a FGV e a Artemisia, uma organização pioneira no fomento de negócios sociais no Brasil. “Apoiamos esses empreendedores que têm mais dificuldade em acessar capital e ajudamos a divulgar conhecimento para que seja acessível e possa ser aplicado na realidade local”.

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Foram cinco projetos selecionados pela Anip no primeiro semestre e serão mais cinco agora. Cada um recebe um investimento semente de R$ 20 mil para impulsionar o negócio. “Queremos que as pessoas que vivem na periferia sejam protagonistas, jogamos luz aos empreendedores da quebrada para que possam viver de forma sustentável de seu negócio”, diz Rocha.

Marcelo Rocha aposta em negócios sociais

Marcelo Rocha aposta em negócios sociais

Divulgação

Os empreendedores que passam pelo processo de aceleração têm formação por quatro meses e aprendem, entre outras coisas, sobre educação financeira. Eles também são acompanhados individualmente por mentores.

"Temos de falar desses negócios, diminuir os muros sociais para no futuro não falarmos em empreendedorismo na periferia, mas apenas em empreendedorismo", diz Edgar Barki, professor da FGV.