Economia Saiba o que as companhias aéreas fazem para evitar que seu voo saia atrasado

Saiba o que as companhias aéreas fazem para evitar que seu voo saia atrasado

Empresas têm que lidar com mau tempo, deficiência de infraestrutura e manifestações

  • Economia | Fernando Mellis, do R7

Atrasos por razões meteorológicas são os mais frequentes no País

Atrasos por razões meteorológicas são os mais frequentes no País

Marco Ambrosio/Estadão Conteúdo - 16.1.2016

Uma forte chuva atinge a região metropolitana de São Paulo durante a noite. A água inunda a alimentação de energia das pistas e as luzes precisam ser desligadas, fazendo com que 17 pousos sejam alternados para Viracopos (Campinas), Galeão (Rio) e Brasília, entre 0h e 6h.

Pela manhã, grupos protestam e bloqueiam as vias de acesso ao aeroporto de Guarulhos. No terminal, aviões apenas pousam. Poucos conseguem decolar, já que os tripulantes não chegaram a tempo. Os atrasos e cancelamentos são inevitáveis e ocasionam muitas queixas de passageiros.

Essa situação aconteceu na última sexta-feira (11) e teve efeito cascata em dezenas de voos no maior aeroporto do País. É um claro exemplo de como fatores externos prejudicam diretamente as operações das companhias aéreas e a rotina dos passageiros.

Quem viaja de avião pelo Brasil certamente tem alguma história de transtorno para contar. As companhias afirmam que fenômenos meteorológicos são hoje as principais causas de atrasos e cancelamentos de voos. Porém, existem outras dezenas de motivos que fazem um avião partir fora do horário previsto (veja arte abaixo).

Para entender um pouco mais o que se passa enquanto esperamos no aeroporto, o R7 foi visitar os centros de operações das duas maiores companhias aéreas brasileiras: Gol e TAM, responsáveis por transportar 68,5 milhões de passageiros em voos domésticos no ano passado. É de lá que são tomadas decisões importantes que podem ou não afetar a viagem de muita gente.

Essas salas funcionam como um centro nervoso, com sistemas interligados, telefones via satélite, rádios comunicadores e imagens de radar. As centrais monitoram e trabalham para contornar cada um dos problemas, que vão desde um cachorro na pista de pouso até um choque com uma ave no ar.

Centros de operações da Gol (esq.) e da TAM (dir.) funcionam 24 horas, sete dias por semana

Centros de operações da Gol (esq.) e da TAM (dir.) funcionam 24 horas, sete dias por semana

Fernando Mellis/R7

No CCO (Centro de Controle Operacional) da Gol, ao lado do aeroporto de Congonhas, cerca de 250 pessoas trabalham em quatro turnos, ininterruptamente, durante todo o ano. O dia começa com uma reunião, em que estão presentes pessoas responsáveis pelo monitoramento da previsão meteorológica, pelo atendimento ao passageiro (central de aeroportos), pela manutenção, escala de tripulantes, cargas e controle de voos.

O gerente-executivo do CCO, Marcelo Macedo, explica que um dos itens mais importantes dessa reunião é a previsão meteorológica.

— [O mau tempo] é um dos grandes causadores de impactos na aviação e por isso essa preocupação com a meteorologia no começo do dia. Normalmente, a gente já tem um plano traçado em caso de formações meteorológicas onde operamos.

Na TAM, mais de 800 voos diários são monitorados a partir de uma sala no hangar 8, do aeroporto de Congonhas. O diretor do CCOA (Centro de Controle de Operações Aéreas) da companhia, Samuel Di Pietro, conta que os impactos em um aeroporto movimentado começam antes e depois da chuva. O vento (antes), a medição da lâmina d’água na pista (depois) e o reordenamento do tráfego causam atrasos e cancelamentos.

— Congonhas já é um aeroporto que está saturado. São 30 e poucos movimentos [pousos ou decolagens a cada hora]. Se parou por uma hora e meia, estamos falando em 45 movimentos que têm que entrar em algum momento, fora aqueles já previstos.

Imagem de radar mostra avião orbitando durante temporal, enquanto espera autorização para pousar em Congonhas

Imagem de radar mostra avião orbitando durante temporal, enquanto espera autorização para pousar em Congonhas

Reprodução/Flightradar24

Isso explica porque muitas vezes ficamos orbitando — termo usado na aviação para o tempo em que o avião fica girando no ar aguardando autorização para prosseguir. Nesse meio tempo, passageiros em solo estão sujeitos a atrasos, se o avião tiver que cumprir outro voo em seguida.

Em 2015, a Gol liderou o índice de pontualidade da Infraero — que considera atrasos inferiores a 30 minutos —, com 94,4% dos voos decolando no horário previsto. O gerente de coordenação de voos da companhia, Ronaldo Salvático, argumenta que para manter a pontualidade, é preciso lutar contra muitos fatores externos.

— Um buraco em uma taxiway [acesso à pista], não precisa nem ser na pista, já é suficiente para provocar um atraso. No Galeão, foi mudado todo o esquema de decolagem, de pouso, do taxiamento das aeronaves em função da reforma de uma taxiway que apareceu um buraco e teve que interditar. Isso afeta o tempo do voo, porque a aeronave que chegava entrava em uma fila.

Di Pietro cita outra situação que prejudicou os voos em São Paulo.

— Em Congonhas, aconteceu em uma véspera de Carnaval de abrir um buraco na taxiway. O resultado foi que as aeronaves que iam decolar tinham que desviar, ocupavam um pedaço da pista principal, chegava na cabeceira, fazia a volta e decolava. Com isso, uma decolagem que levava 40 segundos, passou a levar 1 minuto e meio.

Os funcionários dos centros de operações também têm que lidar com problemas inusitados. “Toda semana tem um passageiro que desiste de voar quando o avião já está quase decolando”, conta Di Pietro. Ele acrescenta que esse contratempo altera aquele voo e outros, já que o avião é obrigado a retornar para o portão de embarque, tem que retirar o passageiro e as malas, além de entrar na fila novamente para o pouso. Outra aeronave que fosse, eventualmente, utilizar aquela posição reocupada, teria que esperar.

O tráfego aéreo e aeroportuário é rapidamente impactado por qualquer coisa que transcorra fora do previsto. Isso porque, em terminais movimentados, tudo acontece com folgas de poucos minutos. Ou seja, o efeito dominó pode desencadear transtornos em boa parte da malha, se não houver uma solução imediata.

O diretor do CCOA da TAM dá outro exemplo que, segundo ele, é comum acontecer.

— Até um piloto que demora para decolar, estando com o avião na pista, atrasa os outros voos. Se tem um pouso na sequência, esse avião vai precisar arremeter e ser encaixado novamente no fluxo de pouso. Já gera uma bagunça.

Um aeroporto cheio de passageiros pode causar atrasos nos voos também. Por isso, as companhias monitoram shows, feiras, festas regionais e outros eventos que causam excesso de pessoas em determinado terminal. A equipe do CCO da Gol lembra do Rock in Rio e de um show do Roberto Carlos, também na capital fluminense, que movimentaram a ponte aérea no ano passado.

Uma falha que apareça no avião pode tirá-lo de operação por alguns minutos, horas ou até por dias. As companhias têm como suprir essa ausência, porém, logo após o problema ser detectado, pode haver atrasos, de acordo com Di Pietro.

— A segurança não entra em momento algum em negociação. Avião é máquina e máquina quebra. Pode acontecer de ter uma pane. A manutenção trabalha no tempo dela. Está trocando a roda, mas aí tem um parafuso que não solta. Atrasa. [...] Muitas vezes, se você espera demais a manutenção, você perde alternativas que poderiam ser utilizadas, de realocar passageiros [em outros voos], por exemplo.

Problemas como o da semana passada, em que tripulantes não conseguem chegar ao aeroporto de Guarulhos por conta de protestos, já aconteceram outras vezes. O diretor do CCOA da TAM conta que durante a Copa de 2014 houve uma manifestação que bloqueou a rodovia Hélio Smidt. A saída foi lotar um avião de tripulantes em Congonhas e voar até o outro aeroporto. Dessa forma, os voos previstos da companhia decolaram naquela noite.

Brasil em destaque

Os problemas de infraestrutura enfrentados por aeroportos brasileiros são considerados um desafio para o setor. As dificuldades começam desde lâmpadas de aproximação da pista de Fernando de Noronha queimadas, o que impossibilita pousos à noite, até a ausência de equipamentos que permitam as operações com baixa visibilidade — o aeroporto de Londrina já chegou a ficar dias fechado por causa de nevoeiro.

A Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) não penaliza com multas as companhias aéreas por problemas relacionados à meteorologia —elas são obrigadas a fornecer telefonemas, comida e hospedagem para os passageiros neste caso, o que gera um custo adicional, segundo as companhias aéreas.

Porém, se o voo atrasar ou for cancelado em virtude de um gargalo no terminal ou pelo tráfego aéreo elas estão sujeitas, inclusive, a perder o slot (horário de pousos e decolagens).

Apesar de todas as dificuldades, a aviação brasileira ganhou destaque no relatório Liga da Pontualidade 2015, elaborado pela consultoria britânica OAG. Entre os 20 grandes aeroportos do mundo analisados, Guarulhos aparece em terceiro lugar, com 87,47% das partidas no horário.

Entre os 20 aeroportos de médio porte mais bem posicionados, três terminais brasileiros aparecem: Congonhas (6º lugar, com 87,81% de pontualidade); Brasília (13º lugar, com 85,49% de pontualidade); e Galeão, no Rio (em 20º lugar, com 83,53% de pontualidade).

As três maiores empresas aéreas do País — TAM, Gol e Azul — também aparecem no relatório. A Azul foi considerada a 3ª companhia mais pontual do mundo e a TAM ficou com o 7º lugar. A Gol aparece como a 3ª low cost mais pontual. 

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