Saque imediato do FGTS estimulou financiamento de veículo e imóvel

Levantamentos do mercado mostram que parte do dinheiro colocado na economia com liberações de 2019 serviu para contratação de dívidas altas

Venda de imóveis financiados aumenta

Venda de imóveis financiados aumenta

Pixabay

A liberação dos saques imediatos do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço) em 2019 serviu não só para os brasileiros pagarem pequenas dívidas, como era previsto, mas também para impulsionar compras mais ousadas, como a de veículos e imóveis.

Brasileiros usam R$ 20,4 bi do FGTS para comprar casa própria em 2019

A economista da CNC (Confederação Nacional do Comércio) Izis Ferreira diz que 40% dos valores liberados do fundo via saques imediatos serviram para pagar compromissos já contratados (R$ 12 bilhões dos R$ 30 bilhões depositados pela Caixa).

O endividamento aumentou em 2019 para o maíor nível da série, apurada desde 2010, alcançando 65,6% das famílias do país em dezembro.

Dívida é todo débito assumido pelo consumidor. Entram na lista contas do cartão de crédito. Inadimplente é quem tem dívida e não paga no prazo.
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No mês passado, caiu um pouco, para 65,1%. Bem acima, de qualquer forma, que os 61,5% anotados em fevereiro de 2019.

"A alta do endividamento é motivada por produtos mais dependentes do crédito. Com uma renda extra e mais confiantes no futuro, as pessoas buscam automóveis e casas e o financiamento é a forma mais fácil de adquiri-los", explica a economista.

Se havia o risco de esse fenômeno ter o efeito negativo de fazer explodir a inadimplência (que é a dívida não paga no prazo estipulado), não é isso o que se observa até o momento.

Em setembro de 2019, 24,5% das familias estavam inadimplentes, o número foi a 24,9% no mês seguinte, e passou a cair logo em seguida. chegando em fevereiro de 2020 a 24,1%.

Financiamentos

Segundo a pesquisa mensal sobre endividamento da CNC, o número de dívidas relacionadas com financiamentos aumentou desde a liberação dos saques imediatos.

Em setembro de 2019, 8,8% das dívidas nacionais estavam ligadas a financiamentos imobiliários, e 9,7% com compras parceladas de veículos automotores. Em fevereiro de 2020, os dois percentuais aumentaram, para 9,5% e 10,7%, respectivamente.

Como em economia a comparação entre meses diferentes corre o risco de ignorar variações do período do ano, ao se colocar lado a lado os fevereiros de 2019 e 2020 a elevação também é clara. Imóveis subiram de 8,5% foram para 9,5%. Veículos: de 9,8% para 10,7%.

Só no setor imobiliário, segundo dados da Abecip (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança), em janeiro de 2019 R$ 5,1 bilhões das cadernetas de poupança foram usados para financiar casas e apartamentos. Esse número subiu para R$ 7,3 bilhões no primeiro mês deste ano.

Com recursos do FGTS, a diferença entre os janeiros é menor em um ano, mas com um aumento próximo de 20%: R$ 3,2 bilhões em 2019 e R$ 3,8 bilhões em 2020.

A comercialização de automóveis também foi estimulada pela injeção dos cerca de R$ 30 bilhões do FGTS a partir de 2019.

Um levantamento da B3, que administra o SNG (Sistema Nacional de Gravames), mostra que as vendas financiadas de veículos em janeiro deste ano, considerando leves, pesados e motocicletas, cresceram 9% em relação ao total adquirido a prazo no mesmo mês de 2019. Foram 534 mil unidades compradas dessa forma. 

Foi o melhor resultado para o primeiro mês do ano desde 2014.

Dívidas

O economista da Serasa Experian, Luiz Rabi, conta que os saques imediatos do FGTS feita pelo governo Bolsonaro fez com que 600 mil pessoas conseguissem limpar o nome nos últimos dois meses de 2019, 500 mil apenas em dezembro.

"Claro que o pagamento do décimo-terceiro tem peso nessa redução, mas em 2018, por exemplo, isso não ocorreu. Em dezembro daquele ano, 200 mil limparam o nome, mas em novembro 900 mil entraram na lista de negativados."

Ele observa ainda que em todos os primeiros trimestres é natural a elevação da inadimplência – a Serasa tem suas próprias pesquisas sobre o tema, mas ainda não divulgou os números de 2020. "Não sobra muira coisa do décimo-terceiro para janeiro e aí vêm as contas obrigatórias do início de ano (IPTU, IPVA, material escolar, matrícula etc)", justifica.

O economista relembra ainda que a primeira liberação de recursos do FGTS, de contas inativas no governo Michel Temer, em 2017, ajudou a conter o número de inadimplentes pelo período de apenas três meses, mas logo em seguida esse índice voltou a aumentar.

Em 2017, foram injetados na economia R$ 44 bilhões, que beneficiaram 25,9 milhões de pessoas. 

Rabi acredita que os saques aniversário, outra modalidade de liberação de saldos dos FGTS que passa a ser depositada a partir de abril, também deve servir para quitar dívidas. 

"Quem optar por esse benefício deve aproveitar para negociar os débitos com as instituições bancárias. Mesmo que a pessoa não tenha o valor integral, ela tem mais chances de sucesso nesse momento."

De acordo com a Serasa, os brasileiros têm em média quatro dívidas quando ficam com o nome sujo no sistema. Nos feirões para limpar o CPF dos consumidores, a empresa consegue descontos de até 90%.

Além da diminuição dos valores, a atual redução dos juros na economia tende a facilitar a negociação e o pagamento das futuras prestações.