Economia Tensão eleitoral leva dólar acima de R$ 5,30, maior alta em 6 meses

Tensão eleitoral leva dólar acima de R$ 5,30, maior alta em 6 meses

Elevação de 2,94% é a maior valorização diária desde abril; impacto do episódio com Roberto Jefferson na eleição mexe com mercado   

Reuters
Dólar fecha a segunda (24) em alta, acima de R$ 5,30, maior valor em 6 meses

Dólar fecha a segunda (24) em alta, acima de R$ 5,30, maior valor em 6 meses

REUTERS/Jo Yong-Hak

O dólar disparou acima de R$ 5,30 nesta segunda-feira (24), com o aumento das tensões políticas no Brasil, na reta final da corrida eleitoral para a Presidência da República. Com isso, o movimento externo de busca pela moeda dos Estados Unidos, que já era grande devido a preocupações com a saúde econômica da China, tornou-se ainda mais intenso.

A moeda norte-americana à vista fechou em alta de 2,94%, a R$ 5,3012, maior valorização diária desde o dia 22 de abril (+4,07%). Também é o patamar de encerramento mais alto desde a segunda-feira anterior (16), quanfo ficou em R$ 5,3014. O real teve, de longe, o pior desempenho da sessão em uma cesta com as principais divisas globais.

O dólar negociado no mercado interbancário voltou a fechar acima de suas médias móveis lineares de 50 e 100 dias, depois de, na última sessão, na sexta-feira (21), ter encerrado abaixo de ambas as marcas pela primeira vez em um mês.

Na B3, às 17h22, no horário de Brasília, o contrato de dólar futuro de primeiro vencimento subia 2,67%, a R$ 5,3085.

Tensões políticas

A uma semana da eleição de 30 de outubro, o que aumentou as tensões políticas foi o comportamento do ex-deputado federal Roberto Jefferson no fim de semana, que acabou com a revogação de sua prisão domiciliar no domingo (23), decretada pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), Alexandre de Moraes. 

Depois de publicar vídeo com ofensas à ministra Cármen Lúcia, do STF, Jefferson recebeu com tiros e granadas agentes da PF (Polícia Federal) que cumpriam a ordem dada por Moraes. Nesta segunda, ele foi indiciado por quatro tentativas de homicídio.

Jair Bolsonaro (PL) repudiou as ações do, até então, aliado, e procurou se distanciar de Jefferson já no domingo, chamando o ex-deputado de "bandido", enquanto a campanha de Lula (PT) iniciou esforços para relacionar os eventos com o clima criado no país pelo atual presidente.

"Parte do mercado entende que eventos envolvendo Roberto Jefferson podem trazer impactos significativos para as eleições, com a possível pausa do crescimento de Bolsonaro nas pesquisas e potencial impacto sobre os indecisos", disse Carla Argenta, economista-chefe da CM Capital. "Neste contexto, Lula estaria mais próximo de levar o pleito, e a nebulosidade acerca da política fiscal volta a assustar o investidor doméstico."

Ela diz acreditar que, apesar da reação ruim dos mercados, os acontecimentos do domingo não serão cruciais para a definição da eleição, já que, provavelmente, não terão efeito sobre os votos de eleitores já decididos.

Luccas Fiorelli, sócio-fundador da HCI e planejador financeiro pela Planejar, também não vê grande impacto dos acontecimentos envolvendo Jefferson na corrida eleitoral, já que, em sua opinião, Bolsonaro teve a oportunidade de desvencilhar sua imagem do ex-deputado.

"Está difícil você falar hoje se vai dar Lula, se vai dar Bolsonaro, porque está muito voto a voto, muita notícia de um lado, muita coisa do outro, então está um cabo de guerra bem acirrado", avalia Fiorelli.

Já Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, diz notar um claro impacto do noticiário político no mercado brasileiro. Ele afirma que já esperava um ambiente de negócios cauteloso e volátil, mesmo sem os acontecimentos envolvendo Jefferson, "mais porque, finalmente, chegou a semana [final de campanha eleitoral]", justifica o especialista, alertando para a manutenção de ambiente instável nos próximos dias.

Na semana passada, várias pesquisas de intenção de voto mostraram crescimento de Bolsonaro, o que deu impulso ao real e ao Ibovespa no período.

A agenda econômica do atual presidente é vista como muito mais amigável aos mercados, quando comparada à de Lula. No entanto, economistas têm alertado que ambos os candidatos ao Planalto podem precisar flexibilizar as regras fiscais do país no ano que vem, caso sejam eleitos, de forma a cumprir promessas de gastos feitas durante suas respectivas campanhas.

Mercado

Embora tenha sido amplificada no Brasil pelas tensões locais, a alta do dólar não foi isolada, com um índice que compara a divisa norte-americana a seis pares fortes ganhando 0,14% nesta tarde. Ao mesmo tempo, várias moedas emergentes ou sensíveis às commodities apresentaram forte queda no dia, com peso chileno, rand sul-africano, dólar australiano e iuan chinês perdendo de 1% a 1,7%.

Investidores mostraram alguma preocupação com a economia da China, que, embora tenha se recuperado mais do que o esperado no terceiro trimestre, ainda enfrenta desafios em várias frentes, como uma crise imobiliária cada vez mais profunda e os riscos de recessão global.

Luciano Rostagno, estrategista-chefe do Banco Mizuho, disse que também pesou a perspectiva de manutenção da política rígida de combate à Covid-19 na China, que foi reafirmada no fim de semana, durante o Congresso do Partido Comunista do país.

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