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The Economist: Por que o Pix, amado pelos brasileiros, atraiu a ira de Donald Trump

Presidente dos EUA alega que o sistema de pagamentos é um instrumento protecionista e que prejudica empresas americanas

Estadão Conteúdo

Economia|Do R7

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • O sistema de pagamentos Pix, lançado pelo Banco Central do Brasil em 2020, é amplamente utilizado no país e alvo de críticas de Donald Trump.
  • Trump impôs tarifas sobre importações brasileiras, alegando práticas comerciais desleais, incluindo o uso do Pix como ferramenta protecionista.
  • O Pix é acessível a instituições financeiras estrangeiras, como Visa e Mastercard, e foi criado para facilitar pagamentos eletrônicos sem taxas, beneficiando milhões de brasileiros.
  • A crítica ao Pix pode favorecer politicamente Lula, enquanto Flávio Bolsonaro enfrenta dificuldades devido à sua aliança com Trump.

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Pix virou um dos principais meios de pagamento do Brasil Daniel Teixeira/Estadão Conteúdo

A máquina que movimenta dinheiro raramente inspira. É notável, portanto, que o Pix, sistema brasileiro de pagamentos digitais, tenha se tornado motivo de orgulho nacional após ser alvo de críticas de Donald Trump. Em 15 de julho, o governo Trump impôs uma tarifa de 25% sobre uma série de importações brasileiras, após concluir uma investigação comercial de um ano sobre o que chamou de práticas “irrazoáveis” do Brasil.

O Pix foi um dos principais alvos de reclamações. Lançado pelo Banco Central do Brasil em 2020, é muito apreciado pelos consumidores por tornar os pagamentos instantâneos e gratuitos. Hoje faz parte do cotidiano brasileiro. Cerca de 170 milhões de pessoas — 80% da população — o utilizam, e ele responde por mais da metade das transações de pagamento do país.

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Algumas das queixas do governo sobre as práticas comerciais brasileiras têm fundamento. O Brasil não é um país defensor do livre comércio. Mas a acusação contra o Pix se baseia em duas premissas frágeis: que se trata de um instrumento protecionista e que prejudicou empresas de pagamento americanas (principalmente Visa e Mastercard). Nenhuma delas é sustentada por evidências.

Instrumento protecionista

Consideremos o protecionismo. A denúncia acusa o Brasil de colocar as empresas americanas em desvantagem, mas as regras do Pix não fazem distinção entre participantes nacionais e estrangeiros. Qualquer instituição financeira licenciada no Brasil e que opere no país — como a Visa e a Mastercard fazem — pode se conectar à rede livremente, sob as mesmas condições.

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Todos os bancos, brasileiros ou estrangeiros, com mais de 500 mil correntistas no país são obrigados a oferecer o Pix aos seus clientes. Mas não há nenhuma exigência para que processadores de pagamento como a Visa e a Mastercard se cadastrem. Eles o fizeram voluntariamente.

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O governo Trump também reclama que o Banco Central do Brasil opera e regula o Pix. De fato, esse acordo levanta questões legítimas sobre concentrar tanto controle em um sistema de pagamentos e nos dados financeiros que ele gera em uma única instituição. Mas essas preocupações dizem respeito à concentração de poder, não à discriminação contra empresas estrangeiras.

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Governos constroem, possuem e regulamentam infraestrutura essencial rotineiramente. Não há nada inerentemente discriminatório em aplicar o mesmo modelo aos pagamentos, destaca Monica de Bolle, do Peterson Institute for International Economics, um think tank em Washington.

Prejuízo a empresas de pagamento americanas

A segunda suposição — de que o Pix prejudicou as empresas de pagamento americanas — também é frágil. Ela se baseia em um mal-entendido sobre o motivo da criação do Pix, afirma Daniel Santos Kosinski, professor de economia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

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Antes do Pix, os serviços existentes, inclusive os oferecidos por empresas estrangeiras, cobravam taxas por pagamentos eletrônicos que os brasileiros de baixa renda não podiam pagar. O Pix foi criado para mudar essa realidade. O Banco Central estima que pelo menos 70 milhões de pessoas entraram no sistema financeiro formal desde o seu lançamento.

Longe de canibalizar outros métodos de pagamento eletrônico, o Pix expandiu o mercado. Isso ocorreu às custas do dinheiro em espécie e dos cheques, cujo uso despencou. O número de saques em dinheiro realizados a cada trimestre caiu 46% desde o lançamento do Pix.

Isso não significa que as empresas tradicionais não enfrentem pressão. O Pix mudou a economia dos pagamentos. Bernardo Guimarães, da Fundação Getúlio Vargas, uma universidade do Rio de Janeiro, afirma que isso pode eventualmente reduzir os lucros da Visa e da Mastercard — mas por meio de taxas menores, não por meio de menos transações.

As empresas no Brasil normalmente pagam cerca de 2% das vendas com cartão de crédito a uma processadora de pagamentos. Um pagamento via Pix custa praticamente nada. O resultado é uma pressão maior sobre todas as processadoras de pagamento, grandes e pequenas, para justificar as taxas que cobram.

A preocupação mais profunda do governo Trump pode ser que o Pix se torne um modelo para o resto da América Latina, corroendo os lucros das redes de cartões americanas e sua influência em toda a região. Mas isso também é um equívoco.

O Pix foi produto das circunstâncias particulares do Brasil: um banco central poderoso e confiável que podia exigir que grandes bancos aderissem ao sistema, e um enorme mercado interno no qual milhões de pessoas ainda dependiam de dinheiro em espécie. Além disso, levou anos para ser projetado e testado. Poucos países da América Latina, se é que algum, têm as mesmas condições.

Deixem nosso Pix em paz

O maior beneficiário da campanha de Trump contra o Pix pode muito bem ser Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil, conhecido como Lula. Sua situação política melhorou às vésperas da eleição presidencial de outubro, graças à ligação de seu rival de direita, Flávio Bolsonaro, a um vasto escândalo de fraude.

O ataque americano ao Pix é mais um presente eleitoral. Em um país marcado pela polarização, o sistema é uma das poucas entidades que gozam de amplo apoio. A campanha de Trump contra o Pix permitiu que Lula se apresentasse como defensor de uma das inovações públicas mais bem-sucedidas do Brasil e, por extensão, da soberania nacional.

Isso coloca Bolsonaro em uma posição delicada. A estreita aliança de sua família com Trump torna difícil defender o Pix de seus ataques. Em 2 de julho, Bolsonaro tentou encontrar uma solução viável, sugerindo ao governo Trump que o Pix fosse bloqueado de se conectar a sistemas de pagamento operados por países como China e Rússia.

Lula imediatamente o acusou de querer “entregar o Pix a interesses estrangeiros” e o descreveu como mais interessado em agradar os Estados Unidos do que em defender o Brasil. Memes zombando de Trump e Bolsonaro proliferaram. Até agora, tudo o que a campanha americana contra o Pix conseguiu foi dar aos brasileiros mais um motivo para amar seu sistema de pagamentos.

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