Trabalhadores dão carona a colegas para evitar contágio do coronavírus

Para evitar o transporte público e diminuir o contato com potenciais transmissores da covid-19, profissionais abrem espaço no carro para outros

Da esq. p/ dir.: Eunice, Kátia, Natal e Lucélia que vão e voltam juntos ao trabalho

Da esq. p/ dir.: Eunice, Kátia, Natal e Lucélia que vão e voltam juntos ao trabalho

Divulgação Seconci Goiás

Trabalhadores da construção civil de Goiás encontraram uma forma amistosa de amenizar o medo de ir e voltar ao trabalho e do contágio do coronavírus com a retomada das atividades nos canteiros de obras: a carona.

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É o caso do pedreiro Natal de Almeida Araújo e das colegas: as rejuntadeiras Eunice de Oliveira, Kátia dos Santos e Lucélia Luiz de Almeida.

Os quatro trabalham em uma obra da CMO Construtora e vão e voltam todos os dias ao trabalho com o carro de Natal.

“Estamos vivendo um momento no qual é importante ajudarmos uns aos outros. Fico feliz por poder amparar minhas colegas neste momento.”
Natal de Almeida Araújo

Natal conta que a carona começou há uns 20 dias e que o tempo do trajeto aumentou apenas 15 minutos com os novos integrantes do carro. “Não me incomodo com isso porque sei que é o melhor para todos.”

O pedreiro fala que não tem medo de contrair a doença ao dar carona porque todos seguem as medidas de segurança: usam máscara, higienizam as mãos e mantêm a máxima distância possível um do outro.

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“A empresa também mede a nossa temperatura na entrada, fez turnos alternados para evitar aglomeração e medidas de segurança para o uso de locais comum. Se alguém tem qualquer sintoma, é afastado.”

Todos os trabalhadores que usam o transporte próprio recebem cerca de R$ 90 por mês.

Quem dá carona pode ganhar até R$ 360, que é o valor correspondente às quatro pessoas que podem ser transportadas dentro de um automóvel.

“Mapeamos os bairros onde moram todos os trabalhadores e começamos a distribuí-los conforme a disponibilidade de um colaborador que tem carro ou moto e que possa dar carona”, explica Marco Aurélio Moreira, diretor técnico da CMO.

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A medida, segundo ele, fez com que cerca de 600 funcionários de cinco obras da empresa evitassem o transporte coletivo.

Na garupa e com segurança

Vieira (à frente) e Silva  usam moto

Vieira (à frente) e Silva usam moto

Divulgação Seconci Goiás

Outros que estão se ajudando nesse momento difícil são o prancheiro Belciano Conceição Vieira e o servente Adailson Silva. Ambos trabalham na GPL Incorporadora.

Vieira vai e volta todos os dias ao trabalho na garupa de Silva. Ele conta que antes da pandemia pegava carona com o colega somente às sextas-feiras.

Ambos seguem todo o trajeto com máscaras e luvas.

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“Aqui na cidade já sentimos as baixas temperaturas do inverno. As luvas nos ajudam a nos proteger contra o coronavírus e o frio”, diz Vieira.

Além de prevenir contra o coronavírus, Vieira viu outra vantagem na carona.

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Antes, ele acordava às 4h30 e pegava três ônibus para chegar às 7 horas no serviço. Na volta, costumava chegar em casa após as 20 horas.

“Agora eu saio mais tarde de casa e chego bem mais cedo, às 18 horas. Com isso, tenho mais tempo para passar com os meus filhos.”

Na GPL Incorporadora, cada motorista recebe R$ 180, que é o valor do vale-transporte. Se ele leva mais duas pessoas, recebe o mesmo valor de cada pessoa.

Por exemplo, se ele dá carona para mais duas pessoas, ele receberá R$ 180 mais R$ 360, que ele poderá usar para o combustível e manutenção do automóvel

Medida faz parte de plano de contingência

A ideia de incentivar a carona nos canteiros de obra partiu de um plano de contingenciamento do Seconci Goiás (Serviço Social da Indústria da Construção no Estado de Goiás) e faz parte de uma cartilha que foi distribuída para todas as construtoras do Estado.

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Yuri Vaz, presidente do Seconci, diz que boa parte das construtoras do Estado assumiu o transporte de seus colaboradores, respeitando a determinação de um decreto estadual.

“Algumas decidiram alugar vans, outras incentivaram a carona. Sempre com foco na segurança do trabalhador”, diz Vaz.

O que dizem os especialistas?

Marcelo Buratini, médico infectologista e professor associado livre-docente da FMUSP e EPM/Unifesp, acredita que diminuir o número de contatos potencialmente transmissíveis é sempre bom.

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Porém, para ser eficaz, são necessárias a conscientização e a responsabilidade de todos os envolvidos na carona.

“Todos devem saber que se tiverem qualquer sintoma ou se sentirem mal, com aquela sensação de gripe, devem evitar o transporte porque todos os ocupantes estão potencialmente expostos.”
Marcelo Buratini

O médico afirma que o uso de máscara também é obrigatório nesse transporte e faz um alerta.

“É importante lembrar que não há nenhum método de triagem totalmente seguro para reconhecer um indivíduo infectado e potencialmente transmissor. Portanto, a conscientização individual e a responsabilidade de evitar expor os demais a qualquer suspeita deve ser a conduta adotada.”

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Buratini também destaca que a possibilidade de um indivíduo assintomático ser portador e transmitir a doença é muito baixa. “E esse risco tende a zero com o emprego correto das máscaras faciais.”

Naiane Ribeiro Lomes, médica infectologista e consultora da Its'Seg, também aprova a iniciativa da carona.

“Estamos passando por uma série de adaptações e o retorno da atividade econômica vai refletir diretamente no aumento do volume do transporte público. A carona é uma alternativa para ajudar o trabalhador neste momento.”
Naiane Ribeiro Lomes

Assim como Buratini, Naiane também destaca a importância do uso de máscaras e a higienização correta das mãos.

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“Não é possível manter o distanciamento de 1,5 metro dentro de um carro, por isso é importante manter os vidros abertos e evitar a aproximação com o colega ao lado. No banco traseiro, é importante manter o assento do meio vazio.”

Arte R7