Crianças fazem fila em escola da zona norte para pegar merenda que não existia
Comida era, na verdade, das funcionárias e ingredientes foram comprados após vaquinha
Educação|Giorgia Cavicchioli, do R7

A professora Flavia Bischain trabalha na Escola Estadual Martin Egídio Damy, que fica na região da Brasilândia, na zona norte de São Paulo. Ela relata que a escola está enfrentando algumas dificuldades por falta de comprometimento do Estado.
Ela diz que a gestão da escola "sempre faz os maiores esforços pra garantir a alimentação dos alunos, mesmo com os parcos recursos" e que a situação da merenda é de “calamidade” em todo o Estado de São Paulo.
Segundo Flávia, por exemplo, na última sexta-feira (11), as crianças da escola em que leciona sentiram cheiro de comida na escola e acreditaram ser a merenda delas. No entanto, não foi isso que aconteceu e todos acabaram indo embora sem alimentação.
— Na minha escola, os alunos fizeram uma fila para pegar a merenda e aí, de repente, a tia [merendeira] teve que falar que não tinha merenda. Na verdade, elas tinham feito uma “vaquinha” para comprar o almoço delas [funcionárias da cozinha].
A professora diz que o caso da chamada "Máfia da Merenda" é muito grave e que o problema “tem sido constante”em várias escolas. Desvios de dinheiro da merenda estão sendo investigados pelo Ministério Público.
— Semana passada inteira teve só um dia da semana que eles comeram arroz, feijão, carne e salada. Nos outros dias foi arroz com sardinha ou bolacha de água e sal ou simplesmente nada. A situação é de fome nas escolas.
Em nota, a Secretaria Estadual de Educação informou que "não há qualquer falta de merenda na unidade e inclusive no dia 11 de março foi servido arroz, feijão, frango em pedaços e salada". Ainda segundo a pasta, "a unidade serve merenda regularmente aos estudantes".
A professora, que faz parte do conselho nacional da Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo) pela oposição alternativa, diz ainda que a situação do Estado também atingiu os professores.
— O nosso vale alimentação ainda é de R$ 8 por dia de trabalho, muito abaixo de qualquer outra categoria. Tem professores que dão aulas em várias escolas para completar o salário e simplesmente também tem que se virar para conseguir a sua alimentação.
Além da questão da merenda, a professora também denuncia a repressão que estudantes estão sofrendo quando tentam se organizar para tentar melhorias nas escolas do Estado.
No último dia 11 de março, por exemplo, alunos da Escola Estadual Professora Marilena Piumbato Chaparro foram agredidos pela Polícia Militar durante protesto. Flavia se posicionou em relação ao acontecido e esteve ao lado dos alunos denunciando os abusos.
— A polícia reprimiu [o ato] por uma hora com spray de pimenta, cassetete e tapa na cara. A gente recolheu alguns depoimentos das crianças que mostram que tudo isso foi uma ação absurda e abusiva.
A diretora da instituição, que chamou a polícia, foi afastada. Segundo a Secretaria da Educação, no mesmo dia ela "foi exonerada do cargo e já não trabalha mais na unidade. A administração regional instaurou uma apuração preliminar sobre os fatos e decidiu durante reunião com a comunidade escolar formar uma comissão gestora composta por pais, alunos e comunidade escolar, que também serão responsáveis pelas decisões referentes à escola".
A professora enviou uma nota ao R7 sobre o assunto. Leia a íntegra:
“Desde janeiro deste ano vem sendo denunciado o escândalo da ‘Máfia da Merenda’ no Estado de São Paulo, com menção direta a vários secretários do governo de Geraldo Alckmin. As denúncias de desvio de verbas se tornam conhecidas no mesmo momento em que o governo paulista implementa um corte de R$ 2 bi na educação, resultando na falta de materiais, de papel sulfite, de papel higiênico e, inclusive, de comida. Desde o início do ano, a quantidade de alimentos recebida pelas escolas tem se reduzido pela metade. A consequência é que, apesar dos esforços das cozinheiras e equipes gestoras, a merenda não tem sido suficiente. Neste cenário, são muito importantes as denúncias veiculadas pelo Portal R7 a respeito de como a crise da merenda atinge o cotidiano das escolas. Pais e estudantes tem se demonstrado insatisfeitos com o excesso da chamada ‘merenda seca’ (bolacha de água e sal ou pão integral), ou mesmo a ausência total de alimentos e isso não pode ser silenciado. No entanto, a Secretaria da Educação tem negado todas as denúncias, empurrando a responsabilidade dos fatos à gestão das escolas. A questão é que não se tratam de casos isolados, estudantes de toda a rede paulista têm sofrido com o descaso do governo estadual. Responsabilizar as direções das escolas, como se a falta de merenda fosse um problema administrativo, é uma posição covarde que visa encobrir o descaso com a educação por parte do próprio governo, que é o verdadeiro responsável pela atual situação de abandono da escola pública. É inaceitável que, no Estado mais rico do País, estudantes passem fome na escola! Por isso, continuaremos lutando em defesa da educação pública, por mais investimento e para que todos os nossos alunos possam estudar com dignidade”.
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