Redação Interativa: O papel da literatura como direito humano

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O papel da literatura como direito humano

O papel da literatura como direito humano

Arte R7

A partir da leitura dos textos motivadores e com base nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação, redija texto dissertativo-argumentativo em norma padrão da língua portuguesa sobre o tema O PAPEL DA LITERATURA COMO DIREITO HUMANO apresentando proposta de intervenção, que respeite os direitos humanos. Selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa, argumentos e fatos para defesa de seu ponto de vista.

INSTRUÇÕES PARA A REDAÇÃO
• O rascunho da redação deve ser feito no espaço apropriado.
• O texto definitivo deve ser escrito à tinta, na folha própria, em até 30 linhas.
• A redação que apresentar cópia dos textos da Proposta de Redação ou do Caderno de Questões terá o número de linhas copiadas desconsiderado para efeito de correção.

Receberá nota zero, em qualquer das situações expressas a seguir, a redação que:
• Tiver até 7 (sete) linhas escritas, sendo considerada “texto insuficiente”.
• Fugir ao tema ou que não atender ao tipo dissertativo-argumentativo.
• Apresentar parte do texto deliberadamente desconectada do tema proposto.

REDAÇÃO TEXTO 1:

Sempre  pensei  que  fosse  sábio  desconfiar  de  quem  não  lê  literatura.  Ler ou  não  ler  romances  é  para mim  um  critério.  Quer  saber  se  tal  político merece  seu  voto?  Verifique  se  ele  lê  literatura. Quer escolher  um psicanalista ou um psicoterapeuta? Mesma sugestão. E, cuidado, o hábito de ler, em geral, pode ser melhor do que o de não ler, mas não me basta: o critério que vale para mim é ler especificamente literatura − ficção literária.Você  dirá  que  estou  apenas  exigindo  dos  outros  que  eles  sejam  parecidos  comigo.

E  eu  teria  de concordar, salvo que acabo de aprender que minha confiança nos leitores de ficção literária é justificada. Algo que eu acreditava intuitivamente foi confirmado empesquisa que acaba de ser publicada pela revista Science, “Reading literary fiction improves theory of mind” [Ler ficção literária melhora a teoria da mente], de David C. Kidd e Emanuele Castano.Kidd  e  Castano  aplicaram  esses  testes  em  diferentes  grupos,  criados  a  partir  de  uma  amostra homogênea: 1) um grupo que acabava de ler trechos de ficção literária, 2) um grupo que acabava de ler trechos de  não  ficção,  3)  um  grupo  que  acabava  de  ler  trechos  de  ficção  popular,  4)  um  grupo  que  não  lera  nada. Conclusão:  os  leitores  de  ficção  literária  enxergam  melhor  a  complexidade  do  outro  e,  com  isso,  podem aumentar sua empatia e  seu respeito pela diferença de  seus semelhantes.

Com um pouco de otimismo, seria possível apostar que ler literatura seja um jeito de se precaver contra sociopatia e psicopatia.A  pesquisa  mede  o  efeito  imediato  da  leitura  de  trechos  literários.  Não  sabemos  se  existem  efeitos cumulativos da leitura passada: o que importa não é se você leu, mas se está lendo. A pesquisa constata também que  a ficção  popular  não  tem  o  mesmo  efeito  da  literária.  A  diferença  é  explicada  assim:  a  leitura  de  ficção literária nos mobiliza para entender a experiência das personagens.

Segundo os pesquisadores, “contrariamente à ficção literária, a ficção popular tende a retratar o mundo e as personagens como internamente consistentes e  previsíveis.  Ela  pode  confirmar  as  expectativas  do  leitor  em  vez  de  promover  o  trabalho  de  sua  teoria  da mente”.Na próxima vez em que eu for chamado a sabatinar um candidato a um emprego, não me esquecerei de perguntar: qual é o romance que você está lendo?
Contardo Calligaris.Texto ADAPTADO.

Disponível em: https://m.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/2013/10/1357485-qual-romance-voce-esta-lendo.shtml

REDAÇÃO TEXTO 2:

Podemos dizer que a literatura é o sonho acordado das civilizações. Portanto, assim como não é possível haver equilíbrio psíquico sem o sonho durante o sono, talvez não haja equilíbrio social sem a literatura. Deste modo,  ela  é  fator  indispensável  de  humanização  e,  sendo  assim,  confirma  o  homem  na  sua  humanidade, inclusive porque atua em grande parte no subconsciente e no inconsciente.

Cada  sociedade  cria  as  suas  manifestações  ficcionais,  poéticas  e  dramáticas  de  acordo  com  os  seus impulsos, as suas crenças, os seus sentimentos, as suas normas, a fim de fortalecer em cada um a presença e atuação deles. Por isso é que nas nossas sociedades a literatura tem sido um instrumento poderoso de instrução e educação, entrando nos currículos, sendo proposta a cada um como equipamento intelectual e afetivo.
Antonio Candido

Adaptado de Vários escritos. São Paulo: Duas Cidades, 1995.

REDAÇÃO TEXTO 3:

O  mestre  Antonio Candido, já pelos idos de 1980, nos ensinava que  a literatura é  um direito humano porque  é  um bem indispensável à nossa humanização. E  é  indispensável à nossa humanização porque  realiza funções fundamentais para o nosso desenvolvimento enquanto seres humanos. A literatura estimula e alimenta nossa imaginação, que é a essência da nossa humanidade; nos provoca e possibilita o exercício da alteridade, pois nos coloca no lugar de outra pessoa (as personagens); contribui para o desenvolvimento do nosso repertório linguístico, aumentando nossa capacidade de comunicação com o mundo; e, ainda, nos propicia de uma outra maneira conhecer o desenvolvimento do mundo e os conhecimentos produzidos ao longo da história. Nenhum  ser  humano  vive  sem  sonhos,  sem  imaginação.

Os  sonhos,  no  sentido  da  imaginação,  são  a principal matéria da cultura. Diferentemente de outras espécies –além do polegar opositor e da racionalidade –tudo o que o ser humano constrói, antes de construído, foi imaginado. Quando imaginamos uma casa –a “casa dos nossos sonhos” –a idealizamos e  depois a construímos. Quando terminamos de construir já temos outra imagem, outro sonho, já queremos “aperfeiçoar” o que antes era ideal, e assim sucessivamente. Podemos dizer que nossa imaginação e nossos sonhos alimentam a nossa vida, o nosso movimento no mundo.

A literatura estimula essa imaginaçãoÀ medida que lemos, vamos criando imagens, essas imagens nos transportam para outro tempo e outro espaço. Essa viagem no tempo e no espaço nos ajuda a perceber, ainda que inconscientemente, que a realidade não  está  dada,  não  é  imutável,  não  é  congelada,  assim  é  porque  assim  tem  que  ser.  Isso  fortalece  nossa capacidade  de  transformar  as  coisas,  as  nossas  realidades.  Esse  exercício  também  nos  alimenta  a  alteridade, quando nos colocamos no lugar de outra pessoa e podemos sentir empatia. Lynn Hunt em seu livro “A invenção dos Direitos Humanos” apresenta uma interessante pesquisa sobre como o romance epistolar, no contexto do século  XVIII,  contribuiu  para  que  a  sociedade  fosse  construindo  empatia.

Através  da  leitura  do  romance  em forma  de  cartas,  as  pessoas  começaram  a  se  identificar  com  outras,  não  suas  iguais  nem próximas,  mas  as distantes  e  fictícias  personagens  dos  romances  de  Rousseau  e  de  Richardson,  compreendendo  através  das histórias de Júlia, Clarissa e Pamela, que todas as pessoas são constituídas de sentimentos, sentem dor, alegria, amor, ódio. Esses romances ocuparam o centro do debate sobre literatura na Europa do século XVIII e, segundo a  pesquisadora,  tiveram  um  papel  importante  para  que  a  noção  de  direitos  humanos  começasse  a  se desenvolver, certamente junto com outras artes e outros elementos daquele contexto, daquela realidade.

Quando  lemos  literatura,  podemos  viver  em  outras  peles,  tão  diversas!  Tão  contraditórias!  Além  de permitir  o  exercício  da  imaginação,  nos  transportando  para  outros  tempos  e  outros  cenários,  transporta-nos para peles de gente do bem e gente do mal. Exercita nossa alteridade, nossa compaixão, nossa parte boa e nossa parte má. E como trazido nos debates apresentados por Lynn Hunt, a tendência humana é sempre ficar ao lado dos oprimidos e não dos opressores. Isso não quer dizer quea literatura salva ninguém. Apenas que ela nos dá elementos para escolhermos ser melhores ou não em nossa humanidade.

A literatura aumenta a nossa capacidade de comunicação. Quem nunca ouviu a máxima “quem bem lê bem fala, melhor vê”. Através da literatura também podemos dar forma a conhecimentos que a partir de outras disciplinas escolares nos parecem tão distantes e abstratos. Por exemplo, como a revolução industrial estudada no livro didático é tão diferente da compreendida quando lemos a obra de ÉmileZola, “Germinal”! No romance ela  toma  forma  e  sentimento,  o  texto  nos  transporta  para o  contexto  e  compreendemos  num outro  lugar  da nossa alma o que aconteceu no mundo naquela época, com aquelas pessoas, para além dos fatos congelados no papel.

Da mesma forma, podemos conhecer a cidade do Rio de Janeiro do século XIX nos livros de história, distante,  impessoal  e  inexpressiva  e  torná-la  amplificada  e  viva,  se  sentida,  cheirada  e  vivida  nas  obras  de Machado de Assis e de Aluísio Azevedo. Podemos também entender a humanidade na atualidade das vivências de um menino treloso, em “As Mentiras de Paulinho”, de Fernanda Lopes de Almeida, e compreender que a criança tem muita imaginação e cria e conta, não necessariamente mente.O  exercício  de  ler  literatura  aos  poucos  vai  nos  permitindo  perceber  que  nossas  múltiplas  visões  e interpretações da realidade se entrecruzam, dialogam com os textos e se transformam em outras percepções de   mundo,   ampliado,   múltiplo,   possível.   Com   isso,   nos   desenvolvemos,   desenvolvemos   nosso   olhar, desenvolvemos nossa humanidade, “saímos da caixinha”.Texto ADAPTADO.

Disponível em: https://revistaemilia.com.br/literatura-como-direito-humano/

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