Educação Morte e baixo desempenho expõem problemas do Ciência sem Fronteiras

Morte e baixo desempenho expõem problemas do Ciência sem Fronteiras

Apesar das críticas, apenas 26 de um total de 86.100 alunos foram retirados do programa

  • Educação | Mariana Queen Nwabasili, do R7

Com investimento médio entre R$ 86 mil e R$ 120 mil por aluno ao ano, o projeto recebeu R$ 7,4 bilhões

Com investimento médio entre R$ 86 mil e R$ 120 mil por aluno ao ano, o projeto recebeu R$ 7,4 bilhões

Luiz Costa/Hoje em Dia

A morte de um bolsista brasileiro nos Estados Unidos no último dia 19, somada às críticas da universidade inglesa de Southampton sobre o comportamento dos alunos que fazem parte do CsF (Ciência sem Fronteiras), colocou o programa de intercâmbio estudantil do governo federal em xeque.

Com investimento médio entre US$ 36 mil e US$ 50 mil (R$ 86 mil e R$ 120 mil) por aluno  ao ano, o projeto recebeu, segundo a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), US$ 3,2 bilhões (R$ 7,4 bilhões) em pouco mais de dois anos e meio de existência.

Esse dinheiro foi usado para enviar mais de 86 mil alunos de graduação e pós-graduação para a Alemanha, Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá, China, Coréia do Sul, Espanha, EUA, Finlândia, França, Holanda, Hungria, Irlanda, Itália, Japão, Noruega, Nova Zelândia, Polônia, Reino Unido e Suécia e Portugal — este último, atualmente fora do programa.

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Incidentes

No dia 13 de setembro, a SWB UK (Science without Borders), responsável pelo programa no Reino Unido, informou aos brasileiros que havia sido procurada “devido ao número considerável de reclamações das faculdades em relação ao comparecimento e à aplicação nos estudos”. 

Na semana seguinte, Manoel Bezerra, que estava nos EUA graças a uma bolsa do CsF, morreu desidratado enquanto fazia uma trilha na floresta do Arizona. 

A fatalidade reforçou a ideia de que a Capes, responsável pela concessão da maioria das bolsas, tem pouco controle das atividades dos alunos. 

Controle

Segundo a Capes, desde a criação do CsF, apenas 26 bolsistas, foram desligados do programa quando estavam no exterior e tiveram que voltar ao Brasil. O número representa 0,03% do total de estudantes beneficiados até o momento.

Os desligamentos foram feitos porque alguns estudantes não atingiram o nível de proficiência em cursos de línguas ofertados no país de destino ou não cumpriram as atividades acadêmicas previstas pelas universidades estrangeiras. 

A baixa quantidade de alunos desligados frente à proporção de beneficiados e à possível falta de dedicação de alguns deles chama a atenção para a efetividade acadêmica do CsF.

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Experiências

O estudante de design da Unesp (Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho), Victor Torrecilha, de 23 anos, que fez intercâmbio na Tennessee State University (EUA) durante um ano, conta que o IIE (Instituto Internacional de Educação), órgão americano, ficou responsável e acompanhou seu desempenho no exterior. 

— O parceiro do programa nos EUA não cobrava frequência nas aulas, mesmo porque nem todos os professores consideram isso para o fechamento das notas. Era pedido apenas para você manter e comprovar em relatórios uma média geral de nota acima de dois pontos.

O aluno relata que não era necessário entregar os relatórios para órgãos no Brasil, e que ele só fez um documento para a Capes quando estava prestes a ir embora.

Já Roberto Alves Lima, de 21 anos, que cursa análise e desenvolvimento de sistemas no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo, no campus de São Carlos, e está na Alemanha pelo CsF desde agosto de 2013, explicou que chegou sem falar uma palavra da língua local.

— Fiz o curso de línguas do programa durante sete meses e, com nota satisfatória, garanti minha permanência no intercâmbio, que terminará em fevereiro de 2015. Atualmente, a faculdade alemã faz um relatório das minhas atividades. Pelo que sei, o parceiro do Csf aqui na Alemanha informa a Capes sobre nossas atividades e frequências nas aulas.

Lima destaca ainda que os benefícios do CsF são suficientes para a sua estadia, e que a faculdade da Alemanha pede para que qualquer problema de saúde seja informado. 

— Tenho um seguro saúde. Quando eu precisar utilizar, o governo brasileiro pagará essas despesas médicas.

Segundo a Capes, em caso de problemas de saúde ou morte de bolsistas no exterior, o órgão contata a família para os trâmites de viagem de um parente quando for o caso. 

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