Educação "Só queremos tirar nossos filhos desse inferno", diz mãe do Crusp

"Só queremos tirar nossos filhos desse inferno", diz mãe do Crusp

Moradores denunciam situação precária de vida no conjunto residencial de apartamentos destinado a estudantes de baixa renda na USP

  • Educação | Karla Dunder, do R7

Cintia com sua filha no Crusp

Cintia com sua filha no Crusp

Arquivo Pessoal

“Nós só queremos sair daqui e tirar nossos filhos desse inferno nesse período de pandemia”, desabafa Cintia Silva de Deus, aluna do curso de pedagogia e uma das 1.500 moradoras do Crusp, o Conjunto Residencial da USP (Universidade de São Paulo), que abriga estudantes de baixa renda.

Cintia fala da situação de abandono institucional em que vivem e denuncia as péssimas condições do alojamento, repleto de vazamentos, infiltrações, rachaduras, com internet instável, sem fogão, sem gás e sem lavanderia.

O Crusp foi construído em 1963 para abrigar atletas dos Jogos Pan-Americanos e a manutenção passou longe dos apartamentos. Os moradores enviaram uma série de imagens que retratam a situação dos prédios e das áreas comuns onde é possível ver até infiltração próxima da caixa de energia, com risco de incêndio.

Salas de estudos estão vazias, sem computadores, apenas com algumas mesas e cadeiras de plástico. Em uma das salas é possível encontrar um sofá sujo e rasgado, sem condições de uso. Na sala em que os estudantes podem usar computadores existe aglomeração, o que contraria as normas de segurança nesse período de isolamento social para o combate a Covid-19, causada pelo novo coronavírus.

Caixa de força enferrujada e com infiltração

Caixa de força enferrujada e com infiltração

Cintia Silva de Deus/Arquivo Pessoal

“Eu convido a imprensa a vir aqui com os seus EPIs (Equipamento de Proteção Individual) para ver a situação precária em que estamos vivendo, é insustentável”, provoca Cintia.

A estudante é representante da Comissão de Mães do Crusp e denuncia a falta de condições de vida nos dormitórios, principalmente para as crianças neste momento de quarentena.

“Nessa condição de miséria, nós tememos pela saúde dos nossos filhos nesse período de pandemia, queremos sair daqui neste momento, alugar uma casa próximo ao hospital universitário para termos mais segurança e dar uma estrutura melhor para as crianças, a questão da quarentena tem tornado a vida difícil sem estrutura, mas não queremos abrir mão da moradia estudantil, queremos que tenha condições e que a reitoria cumpra o seu papel.”

Como muitas mães perderam o emprego por conta da suspensão de atividades por causa da pandemia, foram feitas uma série de reivindicações para a assistência social da USP, descritas abaixo.

Condições precárias no Crusp com infiltração e sofá velho na sala de estudos

Condições precárias no Crusp com infiltração e sofá velho na sala de estudos

Cintia Silva de Deus/Arquivo Pessoal

“Hoje contamos com a ajuda de professores e dos alunos da USP que nos enviam cestas básicas e kits de higiene e de limpeza, não concordamos com o posicionamento da universidade e nos sentimos abandonados sim”, diz Cintia

Mães do Crusp


Cintia mora no térreo de um dos prédios, em um corredor conhecido como “bloco das mães”, ali vivem 12 famílias com crianças. Assim que começaram a suspender as aulas nas escolas por conta da pandemia de coronavírus, as mães tomaram a iniciativa de isolar o bloco.

Infiltração e vazamento por diferentes lugares do conjunto residencial

Infiltração e vazamento por diferentes lugares do conjunto residencial

Cintia Silva de Deus/Arquivo Pessoal

Por meio de nota, a Universidade contesta, afirma que as medidas foram tomadas de acordo com as orientações das autoridades de saúde.

“Minha filha estava doente, tomando antibiótico e achamos prudente evitar o contato com outras pessoas”, conta. As mães decidiram que seria melhor cuidarem da limpeza do bloco e evitar o contato com os funcionários da empresa terceirizada. “Dias depois, soubemos que a pessoa que fazia a limpeza estava afastada por causa da Covid-19.”

Crianças em isolamento no Crusp

Crianças em isolamento no Crusp

Cintia Silva de Deus/Arquivo Pessoal

Foi necessário enviar e-mails e muita discussão para que as mães conseguissem os kits de limpeza e o material adequado para fazer a limpeza.

“Tudo o que conseguimos foi na base de muita briga, muita pressão e estamos indignados com a USP, simplesmente fomos abandonados aqui”, desabafa. “Não estão preocupados com a saúde ou com a vida das pessoas, vivemos com os nossos filhos em condições insalubres, sem higiene adequada e com risco real de incêndio.”

A frente da Comissão das Mães do Crusp, Cintia destaca que além do bloco das mães, outras crianças vivem em outros prédios do conjunto, muitas dividem o apartamento aglomeradas com outras pessoas.

Fogões sem condições de uso no Crusp

Fogões sem condições de uso no Crusp

Cintia Silva de Deus/Arquivo Pessoal

Segundo a estudante de pedagogia, além da dificuldade em conseguir material de limpeza, sem prazo para fazerem a reposição, as mães também pedem um apoio para alimentação e um salário mínimo, porque estão com dificuldade para levar as crianças até o bandejão, como é conhecido o restaurante dos estudantes da USP, distante um quilômetro do Crusp. "Além da dificuldade de deslocamento com as crianças pequenas e sem ônibus, queríamos evitar a aglomeração das filas quilométricas”, diz Cintia

A mãe ressaltam também que as famílias não têm acesso à fogões em condições de uso e que a Crusp não possui gás na cozinha para uso dos estudantes.

A Universidade informa que a entrega de marmitas gratuitamente aos moradores do Crusp. "Além das refeições fornecidas a todos os moradores do CRUSP e a alunos que vivem nas redondezas da USP, a SAS implantou um processo especial de entrega em domicílio (i.e., no bloco das mães) das refeições para as crianças do CRUSP, contando para isso com o auxílio da guarda universitária. Infelizmente, os veículos não comportam também as refeições das mães, mas estas podem ser organizar, inclusive por grupos, para que uma pegue as refeições de várias."

Falta de gás e estrutura

Falta de gás e estrutura

Cintia Silva de Deus/Arquivo Pessoal

Saúde e educação

undefined

As mães pedem algum tipo de transporte para levar as crianças ao hospital universitário, sendo que muitas são deficientes ou estão em grupo de risco. “Ofereceram atendimento de telemedicina, mas não temos internet que funcione adequadamente e nem todos têm acesso a celulares com banda larga.”

A USP informa que, além do agente sanitário que atende por e-mail e Whatsapp os moradores do Crusp, também “comunicou aos moradores a disponibilidade dos serviços conjuntos do Escritório de Saúde Mental da Pró-Reitoria de Graduação e do Programa Acolhe USP, visando a atender as demandas dos moradores do CRUSP por acolhimento, orientação e ajuda relacionados a sua saúde mental."

A USP completa dizendo que "também foi comunicado aos alunos que, por intermédio do Prof. José Ricardo Ayres (FMUSP), o Centro de Saúde Escola Butantã (FMUSP) colocou-se à disposição para atender alunos que necessitem trocar receitas de medicação de uso crônico”.

Sem internet, as crianças também não conseguem acompanhar aulas online ou fazer atividades escolares pelo computador.

Com relação a internet, “a USP reconhece que o acesso à rede Wi-Fi no interior dos apartamentos é precário.” E promete melhorar as condições de sinal.

Sala de estudos com computador e mesas

Sala de estudos com computador e mesas

Cintia Silva de Deus/Arquivo Pessoal

A USP e o Crusp

Questionada sobre a situação do Crusp, a Universidade de São Paulo enviou um comunicado afirmando “que não abandonou os alunos”. Admite que “há, de fato, problemas estruturais nos prédios no que tange falta de fogões e de lavanderias, problemas estes que, infelizmente, se acumulam historicamente, e se amplificaram no momento da pandemia. Embora o parque de fogões e lavadoras tenha sido atualizado em 2019, o seu uso devido e indevido comprometeu sua operação. Uma solução correta desses problemas demanda tempo, porém, temos tentado colocar, em caráter emergencial, a operação dos fogões, substituindo os queimadores que foram furtados. A efetividade dessa solução, entretanto, tem esbarrado no número reduzido de fornecedores interessados em se adaptar aos processos de compra de entidades governamentais.”

Doação de cesta básica para os moradores

Doação de cesta básica para os moradores

Moradores do conjunto habitacional e, principalmente, as mães consideram o posicionamento a USP insuficiente e buscam apoio para passar o período de quarentena em um local sem aglomeração e condições melhores. “Isso aqui é um verdadeiro inferno, precisamos cuidar da vida dos nossos filhos.”

Últimas