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Belluzzo vê Endrick melhor que Neymar, afaga Leila e defende taxação dos super-ricos

Ex-presidente do Palmeiras e secretário de Política Econômica do governo Sarney analisa ainda imbróglio entre o clube e a WTorre

Entrevista|Johnny Negreiros, do R7*

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O economista e professor da Unicamp Luiz Gonzaga Belluzzo, na sua casa, em São Paulo MARCELO XIMENEZ/AGÊNCIA ESTADO - 11/1/2008

Em boa fase, Endrick ganhou fácil um elogio de Luiz Gonzaga Belluzzo, 81 anos, quando o professor titular de economia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) foi questionado sobre quem seria superior: ele ou Neymar.

“É melhor como cidadão”, disse, em entrevista ao R7, na qual não poupou o atleta do Al-Hilal, afastado dos gramados. “Foi atacado pela egomania.”


Responsável por assinar o contrato com a WTorre, construtora do Allianz, quando era presidente do Palmeiras, Belluzzo rebateu acusações de que o estádio seria um “elefante branco”, falou sobre os anos de ouro da Parmalat, criticou os antigos patrocinadores coreanos e pediu que a torcida tenha paciência com as contratações prometidas por Leila — e não cumpridas.

Secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (1985-1987) durante o governo de José Sarney, ele defendeu ainda uma taxação maior aos “super-ricos”, agora com Fernando Haddad na pasta econômica, e vê com bons olhos o imposto cobrado em cima de compras superiores a US$ 50 em lojas populares online.


Confira os melhores trechos da entrevista abaixo.

R7 Entrevista — Leila Pereira começou seu mandato, em 2022, com aprovação da maior parte da torcida e em sintonia com a Mancha Verde. Mas não cumpriu promessas de campanha importantes, como abrir um setor popular no Allianz e contratar jogadores de peso. O que você acha disso?


Luiz Gonzaga Belluzzo — Futebol é assim. Você tem um início muito favorável, depois começam a surgir as dificuldades. Não pode tomar como uma coisa pessoal. É normal ter havido esse desencontro entre a Leila e as torcidas, mas é preciso caminhar sempre numa direção de reconciliação. O Palmeiras tem uma situação administrativa financeira muito boa, a despeito de algumas dificuldades agora com a WTorre [construtora e administradora do Allianz, contratada por Belluzzo em 2010, com quem o Palmeiras admitiu ter uma dívida de R$ 38,4 milhões].

R7 — Anderson Barros, diretor-executivo do Palmeiras, é outro que recebe muitas críticas por demorar para contratar atletas, o que também acaba despertando essa revolta.


Belluzzo — A torcida está um pouco aborrecida porque ele demora um pouco, mas é preciso ter critério para fazer as contratações. Ele trouxe o [argentino] Aníbal Moreno, o jogador que se machucou [Bruno Rodrigues], o Lázaro e o Caio Paulista. Eu acho o Caio Paulista um bom jogador. Ele vai, na verdade, render muito bem, defende e ao mesmo tempo ataca. O Aníbal Moreno não precisa dizer. E o Lázaro eu acho um jogador muito habilidoso, viu? No Palmeiras, os jogadores têm dificuldade de aplicar o drible e o toque mais curto, para se livrar da defesa, e isso debilita um pouco a capacidade ofensiva do time.


No Palmeiras, os jogadores têm dificuldade de aplicar o drible e o toque mais curto, para se livrar da defesa, e isso debilita um pouco a capacidade ofensiva do time

( Luiz Gonzaga Belluzzo)

R7 — A WTorre não repassa ao Palmeiras, desde 2015, parte do valor obtido com a arrecadação de shows e eventos realizados no estádio — o que havia sido definido em contrato. Isso aconteceu após o ex-presidente Paulo Nobre abrir uma arbitragem sobre o direito de comercialização de 10 mil cadeiras da arena. Acha que foi um erro dele? Ou a construtora é a responsável por essa situação?

Belluzzo — A questão das 10 mil cadeiras cativas [que a WTorre reivindica] foi submetida a arbitragem, que está prevista no contrato. Eu que assinei. A escritura é muito favorável ao Palmeiras. O problema é a interpretação da WTorre, que diz que, enquanto a arbitragem estiver em vigência, ela não tem que pagar nada. O Palmeiras tem a receber, com base em uma conta não muito rigorosa, em torno de R$ 150, R$ 170 milhões.

Quando o pessoal diz que [o Allianz] foi um o elefante branco, eles não sabem do que estão falando, porque o Palmeiras, quando eu fui presidente, só tinha dívida. Hoje, o clube não tem mais débito, tem crédito. Você pode reclamar, chiar, falar que eles estão demorando para corrigir a questão do gramado sintético. Eles precisam disso por causa dos shows. Falta também uma coordenação ali para que o calendário de shows não interfira tanto nos jogos de futebol. Isso é uma coisa que não é muito difícil de fazer, né?

No Palmeiras, os jogadores têm dificuldade de aplicar o drible e o toque mais curto e isso debilita a capacidade ofensiva do time

R7 — A Samsung moveu ação contra o Palmeiras por rescisão contratual em 2010. Hoje, a empresa diz que a dívida seria de R$ 70 milhões. Recentemente, o senhor admitiu publicamente que essa decisão, tomada em seu mandato, foi um “erro”. Se pudesse voltar no tempo, faria diferente?

Belluzzo — A Samsung se comportou muito mal com o Palmeiras. Era difícil [lidar] com os coreanos. Quem ficou incumbida de pagar a multa rescisória foi a Fiat [empresa que entrou no lugar]. Agora, eu não sei se a Fiat pagou ou não pagou. A ação não terminou ainda. Eu assumo a responsabilidade, mas deixar essa dívida acumular foi também uma coisa imprópria. Seja como for, é preciso chegar a um acordo com a Samsung, para fazer o pagamento parcelado.

Minha infelicidade foi tratar com uma empresa que não se comportou bem com o clube. Nesse período, o presidente da Samsung lá na Coreia foi preso duas vezes, por falcatruas, por comportamento inadequado. E foi salvo pelo presidente, que falou: “Não, esquece esse negócio”. Típica coisa de coreano. Você resolve esse problema com uma decisão do presidente.

R7 — Desde que Abel Ferreira assumiu como técnico do Palmeiras, o time venceu apenas uma em oito disputas de pênaltis. O que deve ser feito para mudar esse desempenho?

Belluzzo — Há um problema ali. Eu joguei futebol 20 anos na várzea e batia os pênaltis. Você tem, primeiro, uma situação de um certo conforto espiritual, digamos assim, confiança para bater o pênalti e olhar o goleiro. Eu vejo que o problema não é só com os batedores. O Weverton, por exemplo, tem o hábito de se jogar antes de o jogador decidir onde vai bater. Ele tem dificuldade de defender os pênaltis. Quando eu era presidente do Palmeiras, em 2009, o Marcão defendeu três pênaltis no jogo contra o Sport. Por quê? Ele tinha uma clareza de esperar o jogador indicar o canto que ia bater, e ele defendia. Assim como ele defendeu o pênalti do Marcelinho Carioca, contra o Corinthians. Depende muito da condição emocional.

R7 — Com as recentes disputas de títulos entre Palmeiras e Flamengo, o Rubro-Negro é hoje o principal rival do Verdão?

Belluzzo — Eu acho que é sim. O São Paulo tem um bom time. Mas, se você tiver que escolher um rival muito difícil de ser batido neste momento, é o Flamengo, tanto na Libertadores quanto no Campeonato Brasileiro. Está muito bem treinado pelo Tite.

R7 — O Endrick pode superar o Neymar?

Belluzzo — Uma diferença importante é a formação dele como cidadão. Tem uma presença muito importante ali do pai, da mãe, que o trataram de maneira adequada. Um dos problemas do Neymar é essa dimensão ególatra que ele tem, de celebridade, de exibir. Eu vejo que o Endrick tem isso sob controle. Ele tem estatura mediana, mas é muito forte. Avança com grande habilidade, consegue driblar os adversários e chuta muito bem. É um grande finalizador. Vai se tornar um grande jogador na Europa e terá muito sucesso.

Um dos problemas do Neymar é essa dimensão ególatra que ele tem, de celebridade, de exibir. Eu vejo que o Endrick tem isso sob controle

(Belluzzo)

R7 — Como você acha que o Palmeiras deve se mover para repor a saída dele no meio do ano?

Belluzzo — Tem alguns jogadores da base nos quais eu tenho alguma esperança. Como o Luis Guilherme. Ele não tem entrado tão bem, mas eu o acho muito interessante. Você precisa ter um certo critério para escolher o momento de colocar. E o Abel sabe muito bem. O Palmeiras tem uma expectativa ainda com a volta do Dudu, que está machucado e faz muita falta. É muito bom driblador. Ele pensa muito rápido, antes dos outros. Mas, falando como velho torcedor de arquibancada desde 1947, o time tem uma deficiência no ataque, sim. Eu sinto muito, mas o Flaco López fica muito abaixo do que o desejado para um centroavante do Palmeiras. O Rony se empenha muito, mas também tem deficiências.

R7 — Entrando no assunto economia, o que você acha da meta do ministro Fernando Haddad de déficit zero para este ano?

Belluzzo — Isso é uma coisa que revela, na verdade, uma pressão dos mercados financeiros sobre o governo. Sabe qual é o déficit do governo americano hoje? É 8% do PIB. E esse déficit vem se acentuando nos últimos anos por conta até da ação do Biden em relação ao estímulo da economia. Virou uma espécie de dogma — você não pode ter déficit. Durante o segundo governo Lula, houve superávit primário todos os anos. Em 2015 e 2016, depois da segunda eleição da Dilma, a gritaria nos mercados foi que estava tudo muito ruim, que havia gasto demais. O pessoal pensa que você arrecada primeiro e gasta depois. Não. Se não houver gasto, não há arrecadação. Se eu reunisse os meus vizinhos e dissesse: “Olha, agora nós vamos passar um mês sem gastar nada”. Fecham os restaurantes, as lojas, os empregados são despedidos, os empregadores deixam de receber, deixam de gastar. Será que é preciso explicar isso de uma maneira mais didática a essa turma?

Da esq. para a dir.: Décio Leal de Zagottis, ministro da Ciência e Tecnologia do governo Sarney, Luiz Gonzaga Belluzzo, então secretário de Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo, e o presidente do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq), Crodowaldo Pavan, durante evento na capital paulista Norma Albano/Agência Estado - 19/2/1990


R7 — E o que você acha da escolha do Haddad para o ministério? É formado em direito, mestre em economia e doutor em filosofia…

Belluzzo — Ele tem experiência muito longa, muito diversificada na vida política. Foi prefeito de São Paulo com problemas financeiros. Ele tem essa habilidade também de expor ideias, de ter gente muito qualificada em torno dele. Ele é muito de ouvir. O fato de você ter qualificação acadêmica é importante, mas não é tudo. Você pode ter uma formação que é uma deformação, como é o caso dos economistas formados em Chicago. Veja só nosso Paulo Guedes [ministro do governo Bolsonaro, também formado em Chicago], né?

R7 — Quando Lula era candidato, ele prometeu aumentar a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000 por mês. Isso é viável? Por que o presidente ainda não cumpriu a promessa?

Belluzzo — Estabelecer esse limite é uma coisa que demanda um pouco mais de estudo. Mas é inequívoco que você precisa conceder isenção à parcela da população que tem rendimentos mais baixos. E considero também ridícula essa alíquota de 27,5% em um país tão desigual como o Brasil. O Haddad até tem tentado botar imposto nesses fundos [de investimento dos super-ricos], o que seria uma outra fonte de arrecadação, que tem a ver com a distribuição de riqueza.

Considero também ridícula essa alíquota de 27,5% [do IR] em um país tão desigual como o Brasil

( Belluzzo)

R7 — O governo taxou as compras de sites estrangeiros populares em até 92% . Isso é uma contradição em relação ao discurso do presidente em defesa dos mais pobres?

Belluzzo — O comércio na internet já está produzindo um dano enorme no comércio de rua. A taxação é feita exatamente para você estimular a vinda dessas empresas para o Brasil. São empresas de bens de consumo e que, no caso chinês, têm preços muito baixos. O país está celebrando o agronegócio, o que é muito bom, mas, ao mesmo tempo, perdeu posição na indústria global de maneira muito agressiva. O Brasil tinha uma participação, em 1980, de em torno de 28% na indústria manufatureira do PIB e hoje tem 9%. Foi uma degradação impressionante.

*Sob supervisão de Vivian Masutti e Carla Canteras


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