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R7 Estúdio|Murilo Prado*, do R7

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É tempo de Copa do Mundo! O maior Mundial de seleções de todos tempos começa nesta quinta-feira (11) com 48 equipes. E, assim como em todas as outras edições, o Brasil está presente. Enquanto a seleção disputa durante um mês o título mais desejado do futebol, brasileiros decoram as casas, pintam as ruas, colecionam álbuns de figurinhas e se vestem de verde e amarelo, sonhando com o hexacampeonato. Ao menos essas eram as tradições nas décadas passadas, principalmente após o tetra em 1994 e o penta em 2002.

Atualmente, a seleção vive um momento diferente: são 24 anos sem conquistar a Copa do Mundo. O hiato de cinco edições se iguala ao maior jejum de títulos mundiais, entre 1970 e 1994. Além disso, as eliminações para os europeus — França (2006), Holanda (2010), Alemanha (2014), Bélgica (2018) e Croácia (2022) — parecem, aos poucos, distanciar o torcedor da amarelinha e, consequentemente, do Mundial. Mas, afinal, os anos sem títulos estão afastando o torcedor da seleção pentacampeã?


Desde o começo do ano, pesquisas indicam que os torcedores brasileiros nunca estiveram tão desanimados para a Copa. E o hexa? Tópico delicado. Nem mesmo a maior campeã do torneio parece gerar empolgação para crer na sexta estrela.

GRÁFICO 1: "VOCÊ ESTÁ ANIMADO PARA A COPA DO MUNDO"

O ciclo foi conturbado. Foram quatro técnicos (Ramon Menezes, Fernando Diniz, Dorival Júnior e Carlo Ancelotti), derrota histórica por 4 a 1 para a Argentina, presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) afastado e apenas um quinto lugar nas Eliminatórias para a Copa — a pior colocação na história, o que daria, nas edições passadas, uma vaga para repescagem contra times de outros continentes por um lugar no Mundial.


Por outro lado, acompanhar a seleção na Copa do Mundo é cultural. E, apesar da fase nada animadora, o entusiasmo naturalmente cresce quando os jogos se aproximam. No dia da convocação de Carlo Ancelotti, o debate público só se falava em uma coisa: “Neymar vai à Copa?”. Em qualquer conversa em bares, padarias e ônibus, esse era o tema. Todas as TVs ligadas na convocação. E, quando o italiano disse: ”Neymar Júnior, Santos”, o público no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, comemorou como um gol. O camisa 10 estava entre os 26 convocados para a Copa do Mundo. Parecia ali que, ao menos para uma parte, começava o Mundial.

O jornalista e sociólogo Gabriel Bresque explica que a Copa do Mundo sempre esteve associada ao orgulho brasileiro, principalmente após as primeiras conquistas: “Os títulos de 1958, 1962 e 1970 reforçaram a ideia de que o orgulho brasileiro está ligado à Copa do Mundo, de ser brasileiro, ser vencedor da Copa do Mundo. O brasileiro gosta de vencer; é uma parte da nossa característica. Então, essas vitórias fizeram com que o brasileiro se sentisse único. Uma coisa que o brasileiro sofre muito é a síndrome de vira-lata, já que o brasileiro tem dificuldade de se identificar como vencedor. E o futebol em torno da Copa do Mundo sempre significou que o Brasil era excelente ou especial.”


ASPAS - CULTURA DO BRASIL E COPA DO MUNDO

Apesar de todo envolvimento, alguns fatores acabaram afastando a torcida. O analista tático e “ex”-torcedor fanático da seleção, Ícaro Caldas, popularmente conhecido como Ícaro Análises, conta que não foi a seca de títulos que o afastou da amarelinha, mas o constrangimento que algumas derrotas trouxeram: “Eu sei que no futebol a gente perde muito mais do que ganha. Mas o que me fez afastar mesmo da seleção brasileira foram os vexames, em especial o vice [na Copa América de 2021] para a Argentina no Maracanã, tirando os rivais da fila”.

Os hermanos estavam desde 1993 sem ganhar um troféu, e Lionel Messi, por exemplo, nunca tinha conquistado um título com a equipe profissional do país. Ícaro ainda explica que, apesar da tristeza, seguiu apoiando o time até o ponto final para ele: a eliminação para a Croácia nas quartas de final da última Copa. “Não consigo entender nem aceitar isso até hoje, me incomoda muito, eu tenho uma raiva absurda”, exclama.

Breque explica que a perda de interesse “tem muito a ver com o tempo sem vencer”, e algo parecido foi visto em 1994, quando o Brasil também não vencia a competição há 24 anos. No entanto, o sociólogo cita dois outros fatores: a não realização de jogos dentro do país e os vexames.

“A seleção não joga no Brasil. A seleção joga no Brasil de vez em quando nas Eliminatórias, mas não faz amistosos grandes no Brasil, não tem grandes competições. Nesse ciclo especificamente, ainda foi pior, porque tem o distanciamento de uma seleção que não venceu nada durante o ciclo, nem jogos importantes nos amistosos, e que teve vexames históricos também nesse processo”, detalha o sociólogo.

Hexa? Ainda há quem acredite

“Eu vou torcer igual e não me interessa se ganhou ou se perdeu no próximo jogo, porque eu não deixei de ser brasileiro [...] É torcer pela camiseta da tua seleção, do país em que tu nasceu. É a tua pátria“, afirma Gustavo Fernandes, filho do eterno Gaúcho da Copa.

Nascido no Rio Grande do Sul, Clóvis Acosta Fernandes foi um torcedor-símbolo do Brasil ao acompanhar a seleção em sete Copas do Mundo, de 1990 até 2014. No último Mundial dele, o choro de Clóvis viralizou após a derrota por 7 a 1 contra a Alemanha. No ano seguinte, o Gaúcho da Copa morreu em decorrência de um câncer.

Gaúcho da Copa e seus dois filhos (Frank e Gustavo) na Copa das Confederações 2013 Reprodução/Instagram @gauchosnacopa

Com chapéu, cuia e uma réplica da taça, Gustavo, ao lado do irmão Frank Damasceno, continua a tradição do pai e afirma: “Nada vai me afastar da seleção brasileira [...] O cara que não se conecta com a Copa do Mundo não se conecta com mais nada na vida dele, porque a Copa do Mundo simplesmente é o maior evento do planeta Terra”.

Enquanto a maioria parece pouco esperançosa, Gustavo acredita até nas “coincidências” com a seleção do tetracampeonato em 1994 para crer no hexa em 2026.

Há 24 anos sem ganhar, voltar para os Estados Unidos, uma seleção desacreditada

Gustavo Fernandes

GRÁFICO "VOCÊ ACHA QUE O BRASIL VAI GANHAR O HEXA"

Apesar de toda desconfiança, no fundo, lá no fundo… O brasileiro sempre cria esperanças com a seleção. Afinal, Copa do Mundo e futebol fazem parte da nossa identidade. E, de quatro em quatro anos, algumas tradições voltam à tona, como os álbuns de figurinhas e a pintura de rua.

Álbum de figurinhas da Copa

O “esquenta” para a Copa do Mundo sempre começa com o início das vendas do álbum de figurinhas do torneio. E, neste ano, não foi diferente. Apesar de o pacote custar R$ 7 e ultrapassar os R$ 1.000 para o álbum ser completo, muitos brasileiros abraçaram a nostalgia e continuaram com a tradição em 2026.

“Colecionar figurinha aqui no Brasil é algo cultural que junta com a paixão pelo futebol”, afirma o colecionador Léo Figurinheiro. Para ele, o fato de colecionar está diretamente ligado à relação familiar: “O álbum carrega uma espécie de sentimento pelo momento e pelas pessoas [...] Eu vejo um álbum como recordações do passado”.

O Brasil é um dos mais adeptos às figurinhas no mundo todo, e a história dos álbuns da Copa está diretamente relacionada ao nosso país. No embalo da Copa do Mundo de 1950, no Brasil, os livros colecionáveis do torneio tiveram a primeira edição.

Léo Figurinheiro reúne os álbuns de figurinhas de todas as Copas entre 1982 e 2022 Arquivo Pessoal

Em 1970, entra a Panini na jogada. Desde então, a editora produz todos os álbuns da Copa do Mundo da Fifa até o próximo Mundial em 2030 — quando se encerra o contrato com a entidade máxima do futebol. A empresa italiana chegou ao Brasil em 1989, inicialmente em parceria com a Editora Abril, e ajudou a popularizar a paixão pelas figurinhas. O álbum de 1990 foi o primeiro a ser lançado no país.

“[Colecionar álbum de figurinhas] virou uma parte quase ritualística de começar o ciclo da Copa do Mundo. Tem uma experiência humana interessante [...] Faz parte de uma cultura que foge um pouco do dinheiro e foge um pouco do futebol, que é a troca das pessoas no espaço público, uma experiência um a um que não dá para substituir pela internet completamente”, detalha Bresque.

“Seja homem ou mulher, criança ou adulto, todo mundo coleciona, vai a pontos de trocas e espera ansiosamente pelos cromos faltantes. Nem o alto custo parece ser suficiente para frear a cultura entre os torcedores. Não vai perder essa tradição, mas pode ser que a galera gaste o mesmo que gastou na Copa passada, mas não seja o suficiente para completar”, opina Léo Figurinheiro

Pintura de rua

Pessoas em Embu das Artes (SP) reunidas para a Copa do Mundo Reprodução/Instagram @copa_jardim_silvia

Direto de Embu das Artes, em São Paulo, o motoboy Guilherme Cortez, o Carpinha, retomou a tradição de pintar a rua do bairro na Copa de 2022 após a pandemia de Covid-19.

A partir da inquietação de ver muitas crianças passando muito tempo nas telas, o projeto foi retomado: “Antes de eu nascer, isso já acontecia aqui, em outras ruas [...] O que trouxe a gente de volta foi a motivação de ver as crianças no celular e a gente não conseguir tirá-las. Então, eu falei assim: ‘Se a gente conseguir voltar com esse projeto e as crianças participarem mais, pode ser que elas larguem um pouco o celular’. E foi o que aconteceu”, explica Carpinha.

O projeto na Rua Minas Gerais cresceu e foi além das pinturas do asfalto. Virou um torneio de futebol de rua e passou a ser considerado pela Prefeitura como Rua de Lazer, podendo ser fechada aos finais de semana e feriados.

Outra pessoa que retomou a cultura da pintura no asfalto foi a influenciadora Lethicia Videira, de 24 anos. Com o bordão “Tô pintando a rua para Copa”, ela faz artes em duas ruas do litoral de São Paulo, em Praia Grande e Mongaguá, e divulga nas redes sociais com os seguidores.

“Vai juntar a rua toda, vai vir minha família, meu noivo, amigos [...] Mas acho que o pessoal acaba ficando mais animado por ser Brasil. Quando fala do Brasil, a gente é o povo mais unido do mundo”, exclamou Lethicia.

Apesar da seca de títulos, vexames e afastamento da seleção, “[a cultura da Copa do Mundo] faz parte da identidade de uma maneira que é muito profunda no Brasil. Um país que sempre se viu escanteado pela cultura, viu muito orgulho humano, social e cultural no futebol”, descreve Bresque.

*Sob supervisão de Camila Juliotti

  • Diretora de Conteúdo Digital e Transmídia: Bia Cioffi
  • Coordenadora de Produções Originais: Renata Garofano
  • Redator: Murilo Prado
  • Editora: Camila Juliotti
  • Coordenação de Arte: Sabrina Cessarovice
  • Arte: Gabriel Marques
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