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Abelhas resolvem teste de inteligência sem nunca terem sido treinadas

Abelhas-bombeiras conseguiram resolver um problema inédito usando objetos como ferramenta para alcançar uma recompensa

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Essas abelhas resolveram um teste clássico de inteligência e surpreenderam até os cientistas. (Imagem: Mikko Törmänen / Universidade de Oulu) Fala Ciência

Quando pensamos em inteligência animal, é comum imaginar primatas, golfinhos, corvos ou até cães. Raramente uma abelha entra nessa lista. Afinal, estamos falando de um inseto com cérebro minúsculo, rotina acelerada e vida dedicada à busca por alimento, polinização e manutenção da colônia. Mas um novo estudo acaba de embaralhar essa visão de forma impressionante: abelhas-bombeiras conseguiram resolver sozinhas um desafio clássico de resolução de problemas, algo que por muito tempo foi associado a animais com cérebros muito maiores.

O mais curioso é que elas não repetiram um truque treinado. As abelhas foram colocadas diante de uma situação nova e, a partir de experiências anteriores simples, encontraram uma solução inédita para alcançar uma recompensa. O resultado não significa que esses insetos “pensam como humanos”, mas mostra algo biologicamente fascinante: cérebros pequenos também podem gerar comportamento flexível, orientado a objetivos e capaz de lidar com problemas nunca vistos antes.


Um teste que lembra os experimentos clássicos com chimpanzés

A lógica do experimento lembra um dos testes mais famosos da história da cognição animal. No começo do século XX, estudos com chimpanzés mostraram que esses animais podiam combinar objetos de forma estratégica para alcançar uma banana fora do alcance. Esse tipo de tarefa virou símbolo de resolução espontânea de problemas, porque exige mais do que repetição mecânica: o animal precisa perceber a relação entre um objeto e um objetivo.


No caso das abelhas-bombeiras (Bombus terrestris), o desafio foi adaptado para a escala de um inseto. Primeiro, elas aprenderam que uma flor artificial azul oferecia recompensa. Depois, essa flor foi posicionada no alto de uma arena transparente, fora do alcance direto das abelhas. Para conseguir o alimento, não bastava voar até o local: era preciso empurrar uma pequena bola até debaixo da flor e então subir nela para alcançar a recompensa.

A parte mais surpreendente é que as abelhas nunca haviam sido treinadas para usar a bola dessa maneira.


O mais impressionante não foi acertar, mas inventar a solução

Antes do teste principal, as abelhas haviam aprendido apenas duas coisas separadas: que a flor azul continha recompensa e que a bola era um objeto móvel e inofensivo. Em nenhum momento elas foram ensinadas a combinar essas duas informações. Ainda assim, quando o problema apareceu, parte dos indivíduos foi capaz de unir as peças e criar uma solução funcional.


Esse detalhe é central. Em vez de repetir uma sequência decorada, as abelhas bem-sucedidas demonstraram algo mais sofisticado: usaram um objeto como ferramenta para atingir um objetivo novo. Isso sugere um nível importante de flexibilidade comportamental, porque a solução exigia reorganizar experiências anteriores em um contexto inédito.

Os pesquisadores ainda fizeram testes de controle rigorosos para descartar explicações mais simples, como:

  • movimento aleatório da bola
  • sucesso acidental
  • resposta automática a pistas visuais
  • tentativa e erro sem direção clara

Em alguns ensaios, a flor ficou até fora do campo de visão enquanto a abelha movia a bola. Mesmo assim, muitas conseguiram levá-la para a posição correta.

O que esse estudo realmente diz sobre a inteligência das abelhas

Os resultados foram publicados em 4 de junho de 2026 na revista Science, no estudo “Spontaneous problem solving in bees”, liderado por Akshaye A. Bhambore e com participação de Olli J. Loukola e colegas. O trabalho mostra que a resolução espontânea de problemas não precisa estar restrita a vertebrados com cérebros grandes. 

Isso não significa que abelhas tenham consciência humana, raciocínio abstrato comparável ao nosso ou capacidade de planejamento no mesmo nível de mamíferos complexos. A questão mais interessante é outra: o tamanho do cérebro, sozinho, não conta toda a história sobre cognição. Mesmo com sistemas nervosos muito menores, esses insetos conseguem exibir comportamentos surpreendentemente elaborados.

Cérebros pequenos, soluções grandes

Esse estudo se soma a uma linha crescente de evidências mostrando que as abelhas podem aprender tarefas complexas, adaptar estratégias e até usar informação social em certas situações. Quando olhamos para isso com calma, a surpresa talvez diga mais sobre a nossa expectativa do que sobre o inseto em si. Durante muito tempo, animais pequenos foram vistos quase como máquinas automáticas, guiadas apenas por instinto rígido. A biologia comportamental tem mostrado um quadro bem mais interessante.

No caso das abelhas-bombeiras, o que impressiona não é apenas a solução encontrada, mas o que ela representa. Resolver um problema novo com base em experiências anteriores sugere que esses insetos conseguem integrar informações, testar caminhos e ajustar o comportamento de forma orientada para um objetivo. Para um cérebro minúsculo, isso está longe de ser trivial.

No fim, a grande lição do estudo é clara: a inteligência na natureza não precisa se parecer com a nossa para ser extraordinária. Às vezes, ela aparece em um animal pequeno, de voo rápido e corpo peludo, empurrando uma bolinha no momento certo para alcançar uma flor fora do alcance. E isso, biologicamente, é muito mais fascinante do que parece à primeira vista.

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