Cientistas brasileiros eliminam tuberculose em 30 dias usando nanotecnologia
Nanopartícula com ferro zerou a infecção pulmonar em testes com animais.
Fala Ciência|Do R7

A tuberculose é uma doença antiga, conhecida há séculos, mas que ainda mata milhões de pessoas em todo o mundo. Mesmo com tratamento disponível, o combate à infecção continua sendo um grande desafio, principalmente porque a terapia atual é longa, causa muitos efeitos colaterais e favorece o abandono do tratamento. Mas, uma pesquisa brasileira traz uma notícia animadora ao mostrar que a nanotecnologia pode mudar esse cenário.
Um estudo conduzido por cientistas da Universidade Estadual Paulista demonstrou que um composto à base de ferro, encapsulado em nanopartículas lipídicas, foi capaz de eliminar completamente a tuberculose nos pulmões de camundongos em apenas 30 dias.
Os resultados foram publicados na revista científica ACS Omega, no artigo [Fe(phen)3]2+ and [Fe(phen)3]2+-loaded nanostructured lipid system: in silico, in vitro, and in vivo efficacy against Mycobacterium tuberculosis, de autoria principal de Fernanda Manaia Demarqui, publicado em 27 de novembro de 2025 (DOI: 10.1021/acsomega.5c08350).
O que torna a tuberculose uma doença difícil de controlar?
A tuberculose é uma infecção provocada pela bactéria Mycobacterium tuberculosis, que afeta sobretudo os pulmões. O tratamento atual exige a combinação de vários antibióticos tomados todos os dias por, no mínimo, seis meses. Nos quadros mais difíceis, a terapia pode se prolongar por até dois anos.
Esse tempo prolongado dificulta a adesão dos pacientes, especialmente entre populações mais vulneráveis. Quando o tratamento é interrompido, a bactéria pode se tornar resistente aos medicamentos, tornando a doença ainda mais difícil de tratar.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, sem tratamento a tuberculose pode levar à morte em até metade dos casos. No Brasil, mesmo com o tratamento gratuito oferecido pelo Sistema Único de Saúde, milhares de novos casos e mortes ainda são registrados todos os anos.
Uma ideia simples com grande potencial
Em vez de criar uma molécula totalmente nova, os pesquisadores apostaram no chamado reposicionamento de fármacos. Essa estratégia consiste em testar substâncias antigas e já conhecidas para novas finalidades médicas.
O composto escolhido foi a ferroína, uma substância usada há décadas em reações químicas. Ela é barata, solúvel em água e fácil de produzir. Em testes de laboratório, a ferroína mostrou forte capacidade de destruir a bactéria da tuberculose e ainda potencializou o efeito de antibióticos já usados no tratamento.
Análises detalhadas mostraram que a substância danifica a parede celular da bactéria, impedindo sua sobrevivência.
Como a nanotecnologia entra em ação
Para evitar que o composto fosse degradado rapidamente no organismo, os cientistas o encapsularam em nanopartículas lipídicas, feitas com materiais simples, como colesterol. Essas partículas funcionam como uma proteção, liberando o fármaco de forma gradual e prolongando sua ação.
Nos testes com animais, o tratamento foi aplicado diretamente nos pulmões dos camundongos por via intratraqueal, um método comum em pesquisas com doenças respiratórias. Essa abordagem garante que a substância atinja exatamente o local da infecção.
Após 30 dias de tratamento diário, os pesquisadores observaram algo raro em estudos desse tipo: nenhuma bactéria foi encontrada nos pulmões dos animais tratados, tanto com o composto livre quanto com a versão encapsulada.
O que falta para o tratamento chegar às pessoas
Apesar dos resultados impressionantes, o estudo ainda está em fase pré-clínica. São necessários novos testes para avaliar segurança, dose ideal e formas de administração adequadas para humanos.
Mesmo assim, o fato de o composto não ter patente pode facilitar seu desenvolvimento futuro, especialmente para uso no sistema público de saúde. Se os resultados se confirmarem, essa tecnologia poderá levar a tratamentos mais curtos, menos tóxicos e com maior chance de cura, ajudando a frear a resistência bacteriana.














