Este chá natural parece inofensivo, mas pode causar problemas quando combinado com remédios
A Erva-de-São-João é um dos exemplos mais conhecidos de planta medicinal que pode interferir na ação de diversos medicamentos
Fala Ciência|Do R7

Uma xícara de chá costuma transmitir uma sensação de conforto e bem-estar. Afinal, poucas coisas parecem mais seguras do que uma bebida preparada com ingredientes naturais. No entanto, a ciência vem mostrando que algumas plantas medicinais podem interagir com medicamentos de forma significativa, alterando seus efeitos e até aumentando riscos para a saúde.
Entre os exemplos que mais chamam a atenção dos especialistas está a Erva-de-São-João (Hypericum perforatum). Embora seja amplamente associada ao uso tradicional para o bem-estar emocional, essa planta possui compostos ativos capazes de interferir diretamente na forma como o organismo processa diversos remédios.
A planta medicinal que age além do que muita gente imagina
A Erva-de-São-João (Hypericum perforatum) é uma das plantas medicinais mais estudadas do mundo. Ela faz parte do campo da Farmacognosia, área da ciência que investiga substâncias biologicamente ativas presentes em plantas e outros organismos naturais.
O que muita gente não sabe é que essa erva não age apenas sobre o organismo. Ela também pode interferir diretamente na forma como diversos medicamentos são processados pelo corpo.
Isso acontece porque a planta estimula enzimas do fígado responsáveis pela metabolização de remédios, especialmente as do sistema citocromo P450 (CYP450). Quando essas enzimas passam a trabalhar mais rapidamente, alguns medicamentos são eliminados do organismo antes do tempo esperado.
Na prática, é como se o corpo “descartasse” o remédio mais rápido do que deveria. Como resultado, o tratamento pode perder parte da sua eficácia.
Entre os medicamentos que podem ser afetados estão alguns usados para:
No caso dos anticoncepcionais, por exemplo, a interação pode reduzir a concentração dos hormônios no organismo e aumentar o risco de falha contraceptiva. Já em medicamentos imunossupressores utilizados após transplantes, a redução dos níveis sanguíneos pode comprometer a proteção do órgão transplantado.
Por causa dessas interações, a Erva-de-São-João é considerada uma das plantas medicinais com maior potencial de interferir em tratamentos farmacológicos, o que explica o grande interesse de médicos, farmacêuticos e pesquisadores pelo tema.
O que acontece quando esse chá encontra um medicamento?
Grande parte dos medicamentos passa pelo fígado antes de ser eliminada do organismo. Nesse processo, entram em ação enzimas pertencentes ao sistema conhecido como citocromo P450 (CYP450).
Essas enzimas funcionam como uma espécie de equipe responsável por processar substâncias químicas presentes no corpo.
O problema é que a Erva-de-São-João pode aumentar a atividade de algumas dessas enzimas. Quando isso acontece, determinados medicamentos podem ser eliminados mais rapidamente do que deveriam.
Na prática, isso significa que o tratamento pode perder parte de sua eficácia.
As interações mais conhecidas envolvem medicamentos utilizados para:
Em determinadas situações, essa interferência pode comprometer o resultado esperado do tratamento.
Por que o fígado merece atenção nesse processo?
Entre suas diversas funções, o fígado é responsável por transformar e eliminar inúmeras substâncias químicas. Quando diferentes compostos atuam simultaneamente nas mesmas vias metabólicas, podem ocorrer alterações inesperadas na forma como o organismo processa medicamentos.
Embora a Erva-de-São-João seja mais conhecida por reduzir a concentração de alguns remédios no sangue, pesquisadores também estudam seus potenciais impactos sobre a carga metabólica hepática e sobre mecanismos envolvidos em interações medicamentosas complexas.
Por isso, qualquer produto natural com atividade farmacológica merece o mesmo cuidado dedicado aos medicamentos convencionais.
“Natural” nem sempre significa seguro

O interesse científico sobre a segurança dos produtos naturais continua crescendo. Em dezembro de 2025, uma revisão publicada na revista científica Phytomedicine, conduzida por Yujian Fan, avaliou os conhecimentos mais atuais sobre lesões hepáticas associadas a produtos naturais.
Os pesquisadores analisaram mecanismos biológicos envolvidos em eventos adversos relacionados a plantas medicinais e destacaram que a percepção de que produtos naturais são automaticamente seguros ainda contribui para situações de uso inadequado e para o surgimento de problemas evitáveis.
O trabalho também ressaltou a importância de investigar possíveis interações entre fitoterápicos e medicamentos antes do uso simultâneo.
Como usar plantas medicinais com mais segurança
A Erva-de-São-João não deve ser vista como uma vilã. O ponto central é compreender que ela possui substâncias ativas capazes de influenciar o funcionamento do organismo.
Algumas medidas simples ajudam a reduzir riscos:
A principal lição é simples: natural não é sinônimo de inofensivo. A Erva-de-São-João mostra como uma planta aparentemente comum pode interagir com remédios importantes e alterar os resultados de tratamentos. Conhecer essas interações é um passo importante para usar tanto medicamentos quanto produtos naturais de forma mais segura e consciente.















