Por que os mosquitos escolhem algumas pessoas? O verdadeiro motivo que atrai pernilongos
A composição química da pele e a microbiota cutânea ajudam a explicar por que os mosquitos preferem algumas pessoas
Fala Ciência|Do R7

Você já percebeu que, em um grupo de pessoas, algumas terminam a noite cobertas de picadas enquanto outras passam praticamente ilesas? Durante muito tempo, essa diferença foi atribuída ao famoso “sangue doce”. No entanto, a ciência mostra que essa explicação não passa de um mito.
Pesquisas recentes indicam que os mosquitos são atraídos principalmente pelos odores liberados pela pele, resultado da interação entre substâncias produzidas pelo organismo e os microrganismos que vivem naturalmente em nossa superfície cutânea. Em outras palavras, o que torna alguém um verdadeiro “ímã de pernilongos” está muito mais relacionado à química da pele do que ao sangue.
A assinatura química que os mosquitos conseguem detectar
Os mosquitos utilizam um conjunto sofisticado de sensores para localizar seus hospedeiros. Além do dióxido de carbono liberado na respiração, eles identificam uma variedade de compostos químicos presentes no suor e na pele.
Entre essas substâncias, os ácidos carboxílicos vêm recebendo grande atenção da comunidade científica. Esses compostos são produzidos a partir do metabolismo natural da pele e da degradação de componentes do suor e do sebo por bactérias que fazem parte da microbiota cutânea.
Quando liberados no ambiente, os ácidos carboxílicos formam uma espécie de “assinatura olfativa” individual. Como cada pessoa produz quantidades diferentes dessas moléculas, a atratividade para os mosquitos também varia.
O papel surpreendente da microbiota da pele
A pele humana abriga bilhões de microrganismos, incluindo bactérias, fungos e outros micróbios benéficos. Essa comunidade, conhecida como microbiota cutânea, difere significativamente de uma pessoa para outra.
Esses microrganismos transformam compostos presentes na pele em moléculas voláteis capazes de ser detectadas pelos mosquitos a vários metros de distância. Assim, duas pessoas com hábitos semelhantes podem emitir perfis químicos completamente diferentes.
Em 2025, um estudo publicado na revista Journal of Agricultural and Food Chemistry, liderado por Hui Wang e publicado em 26 de junho de 2025, mostrou que alterações na microbiota da pele podem modificar a produção de compostos voláteis associados à atração de mosquitos. Os resultados destacam como a interação entre microrganismos e metabolismo cutâneo influencia o comportamento desses insetos.
O estudo que ajudou a derrubar o mito do sangue doce
Uma das pesquisas mais importantes sobre o tema foi publicada na revista Cell em outubro de 2022, sob liderança de Maria Elena De Obaldia. Os pesquisadores compararam indivíduos altamente atrativos para mosquitos com outros muito menos procurados pelos insetos.
A análise revelou que as pessoas mais picadas apresentavam níveis significativamente maiores de ácidos carboxílicos derivados da pele. Além disso, essa característica permaneceu estável ao longo dos anos, sugerindo que a tendência de atrair mosquitos pode estar ligada a fatores biológicos relativamente duradouros.
É possível reduzir a atração dos mosquitos?
Embora não seja possível mudar completamente a composição química da pele, algumas medidas ajudam a diminuir o risco de picadas:
• Utilizar repelentes aprovados pelas autoridades de saúde.
• Evitar o acúmulo excessivo de suor.
• Usar roupas que cubram braços e pernas em áreas com muitos mosquitos.
• Eliminar locais com água parada próximos à residência.
A ciência continua investigando como a microbiota cutânea, os ácidos carboxílicos e outros compostos influenciam a atração dos mosquitos. Quanto mais se compreende essa relação, maiores são as chances de desenvolver estratégias inovadoras para reduzir picadas e prevenir doenças transmitidas por esses insetos.
O que já se sabe é que o antigo conceito de “sangue doce” não explica o fenômeno. Na verdade, a resposta está em uma combinação complexa de química da pele, metabolismo e microrganismos microscópicos que convivem conosco todos os dias.














