Por que tantas mulheres ainda morrem durante a gravidez no Brasil?
Apesar dos avanços na assistência obstétrica, centenas de mortes maternas ainda ocorrem todos os anos no país
Fala Ciência|Do R7

A gravidez e o parto representam momentos marcantes na vida de milhões de mulheres. No entanto, para muitas famílias brasileiras, esse período ainda pode terminar de forma trágica. Apesar dos avanços da medicina e da ampliação do acesso aos serviços de saúde, o país continua registrando um número preocupante de mortes relacionadas à gestação, ao parto e ao pós-parto.
Dados mais recentes do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM-Datasus) mostram que, em 2024, o Brasil registrou 1.347 mortes maternas, o equivalente a 56,4 óbitos para cada 100 mil nascidos vivos. O índice permanece distante da meta nacional, que busca reduzir esse número para 30 mortes por 100 mil nascidos vivos até 2030.
Um problema que, na maioria dos casos, pode ser evitado
A mortalidade materna é considerada um importante indicador da qualidade da assistência à saúde. Segundo estimativas da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), cerca de 90% dessas mortes poderiam ser prevenidas com diagnóstico precoce, acompanhamento adequado e atendimento rápido diante de complicações.
Grande parte dos óbitos está relacionada às chamadas causas obstétricas diretas, que surgem durante a gestação, o parto ou o puerpério. Entre os principais fatores estão:
• Síndromes hipertensivas da gravidez
• Hemorragias obstétricas
• Infecções após o parto
• Complicações relacionadas ao aborto
Juntas, essas condições representam a maioria das mortes maternas registradas no país.
O pré-natal faz diferença nos desfechos
Especialistas apontam que um dos instrumentos mais importantes para reduzir os riscos é o pré-natal realizado de forma precoce e contínua.
Durante as consultas, os profissionais conseguem identificar fatores de risco, acompanhar a evolução da gestação e orientar medidas capazes de prevenir complicações futuras.
Doenças como hipertensão arterial, diabetes gestacional, obesidade e outras condições clínicas podem ser monitoradas com maior segurança quando diagnosticadas ainda nos primeiros meses da gravidez.
Além disso, exames periódicos ajudam a detectar alterações que muitas vezes não apresentam sintomas evidentes.
O pós-parto exige atenção redobrada
Muitas pessoas acreditam que os riscos terminam após o nascimento do bebê. No entanto, o período conhecido como puerpério, que corresponde às semanas seguintes ao parto, continua sendo uma fase crítica para a saúde materna.
Nessa etapa, algumas complicações podem surgir ou se agravar rapidamente. Por isso, especialistas alertam para sinais que exigem avaliação médica imediata:
• Sangramento excessivo
• Febre persistente
• Falta de ar
• Dor no peito
• Dor de cabeça intensa
• Alterações visuais
• Pressão arterial elevada
A recomendação é que a mulher mantenha o acompanhamento médico logo após a alta hospitalar, especialmente nos primeiros dias após o parto.
Saúde mental também salva vidas
Outro aspecto que vem ganhando destaque é a saúde mental materna. O sofrimento psicológico após o nascimento do bebê nem sempre recebe a atenção necessária, mas pode trazer consequências importantes.
Sintomas como tristeza intensa, ansiedade persistente, insônia, exaustão extrema e dificuldade de criar vínculo com o recém-nascido merecem avaliação profissional. Em situações mais graves, podem surgir comportamentos de risco que exigem intervenção imediata.
Caminho para reduzir as mortes
A redução da mortalidade materna depende de uma combinação de fatores, incluindo acesso ao pré-natal, equipes multiprofissionais qualificadas, assistência adequada durante o parto e acompanhamento no pós-parto.
Embora o Brasil tenha avançado nas últimas décadas, os números mostram que ainda existe um longo caminho pela frente. Como a maioria dessas mortes é considerada evitável, ampliar o acesso a cuidados de qualidade continua sendo uma das estratégias mais importantes para proteger a vida das mães e garantir uma gestação mais segura.














