Pesando até 5 quilos e impossível de cultivar: o tesouro chileno que a National Geographic busca salvar da extinção
Imagine um cogumelo tão grande que pode pesar o mesmo que um recém-nascido, tão especial que é considerado sagrado por um povo...
Giro 10|Do R7
Imagine um cogumelo tão grande que pode pesar o mesmo que um recém-nascido, tão especial que é considerado sagrado por um povo inteiro e tão teimoso que se recusa a crescer fora do seu habitat natural. Esse é o loyo, um fungo endêmico dos bosques do sul do Chile que está em perigo de extinção e acaba de ganhar um aliado de peso: a National Geographic Society. A história desse organismo fascinante revela como a conservação de uma única espécie pode ser a chave para proteger todo um ecossistema.
O que a ciência descobriu sobre o loyo, o cogumelo gigante do Chile
O loyo (nome científico Butyriboletus loyo) é um cogumelo comestível que pode atingir até 30 centímetros de diâmetro e pesar cerca de 5 quilos. Para ter uma ideia, isso é mais ou menos o tamanho de uma bola de basquete e o peso de um saco grande de arroz. Ele pertence à família dos boletos, que são parentes dos famosos cogumelos porcini da culinária italiana, tanto que os cientistas o chamam informalmente de “porcini do sul”.
O que torna esse fungo realmente especial é a sua natureza micorrízica: ele vive em simbiose obrigatória com as raízes de árvores nativas da floresta valdiviana. Isso significa que o loyo troca nutrientes com as árvores numa parceria onde os dois lados saem ganhando. O problema é que, sem as árvores, o cogumelo simplesmente não existe. E sem o cogumelo, as árvores perdem um aliado fundamental para absorver água e minerais do solo.
Como a extinção do loyo afeta o ecossistema na prática
Conservar o loyo não é apenas salvar um cogumelo bonito. É proteger toda a floresta valdiviana, um dos ecossistemas mais antigos e biodiversos da América do Sul. Como o fungo depende completamente das árvores nativas para sobreviver, cada hectare de bosque derrubado ou queimado significa menos loyo no mundo. A UICN (União Internacional para a Conservação da Natureza) estima que a população dessa espécie caiu mais de 50% nos últimos 50 anos, um ritmo alarmante que deve continuar se nada for feito.
As ameaças são bem concretas: desmatamento, incêndios florestais e a coleta excessiva de exemplares jovens, antes que eles consigam liberar seus esporos e se reproduzir. É como colher todas as frutas de uma árvore antes que elas amadureçam: eventualmente, não sobra nenhuma semente para gerar novas plantas. No caso do loyo, cada cogumelo arrancado cedo demais é uma geração inteira perdida.

National Geographic e Fundação Fungi: a aliança para salvar uma espécie única
A Fundação Fungi, uma organização chilena dedicada à conservação do reino dos fungos, acaba de receber o apoio oficial da National Geographic Society para desenvolver o primeiro plano de conservação voltado especificamente para uma espécie de cogumelo no Chile. O projeto é possivelmente um dos primeiros do tipo em todo o mundo e combina pesquisa científica com a participação direta das comunidades locais e dos coletores tradicionais.
Daniela Torres, diretora de programas da Fundação Fungi, foi nomeada National Geographic Explorer no âmbito dessa parceria. A pesquisadora destaca que o loyo tem valor cultural imenso para as comunidades coletoras do sul do Chile, especialmente para o povo Mapuche, que considera esse fungo parte essencial da sua tradição gastronômica e identidade cultural.
A avaliação oficial do estado de conservação do loyo foi publicada pela UICN em 2019, classificando a espécie como “Em Perigo” com base no declínio populacional observado ao longo de três gerações. Os detalhes completos dessa análise, incluindo os critérios utilizados e as ameaças mapeadas, podem ser consultados na avaliação oficial da Lista Vermelha da UICN, elaborada pela micóloga Giuliana Furci.
Por que essa descoberta importa para você
Mesmo que o loyo pareça distante da nossa realidade no Brasil, a história dele nos ensina algo valioso sobre conservação ambiental. O Chile foi o primeiro país do mundo a incluir os fungos na sua legislação ambiental, lá em 2010. Isso abriu caminho para que 22 espécies fúngicas fossem avaliadas oficialmente, e o loyo se tornou o primeiro cogumelo chileno a entrar na Lista Vermelha da UICN como espécie em perigo. É um modelo que poderia inspirar outros países, inclusive o Brasil, onde a diversidade de fungos ainda é pouco estudada.
A iniciativa também mostra que proteger uma espécie pode ser a porta de entrada para proteger ecossistemas inteiros. Quando salvamos o loyo, estamos na verdade defendendo a floresta valdiviana, os rios que ela alimenta, as comunidades que vivem dela e toda a rede de vida que depende desse ambiente. É um efeito dominó positivo que começa com um cogumelo e se espalha por toda a paisagem.

O que mais a ciência está investigando sobre a conservação de fungos
O projeto do loyo faz parte de um movimento global crescente que defende a inclusão dos fungos nas políticas de conservação ao lado da flora e da fauna. A Fundação Fungi propôs o termo “Funga” como equivalente a Flora e Fauna, e essa linguagem já é reconhecida por organizações como a UICN e a Re:wild. Na COP16, realizada na Colômbia em 2024, os governos do Chile e do Reino Unido lançaram oficialmente o Compromisso pela Conservação Fúngica, sinalizando que os cogumelos finalmente começam a receber a atenção que merecem da comunidade científica internacional.
A história do loyo nos lembra que, muitas vezes, os organismos mais importantes para o equilíbrio da natureza são justamente aqueles que menos conhecemos. Um cogumelo gigante, escondido entre as raízes de árvores centenárias no sul do Chile, pode guardar lições preciosas sobre como cuidar melhor do planeta. E talvez o primeiro passo seja simplesmente parar para olhar para baixo, onde a vida fervilha em silêncio.














