Internacional A história do neonazista alemão que se converteu ao judaísmo

A história do neonazista alemão que se converteu ao judaísmo

Lutz se tornou neonazista aos 12 anos, por influência do tio; depois de mudar de vida, hoje ele vive em Israel, adotou a religião judaica e se chama Yonatan

A história do neonazista alemão que se converteu ao judaísmo

Lutz Langer hoje vive em Israel e trabalha em um centro de cabala

Lutz Langer hoje vive em Israel e trabalha em um centro de cabala

Pablo Duer / EFE / 22.8.2019

Lutz Langer era um neonazista alemão que odiava negros, imigrantes e, sobretudo, judeus. Hoje, se chama Yonatan Langer, vive em Israel, é judeu, reza três vezes ao dia e trabalha em um centro de cabala.

Quando tinha 12 anos, seus pais, que haviam se mudado da Saxônia para Berlim Oriental, decidiram enviá-lo a aulas de caratê para que encontrasse um espaço de pertencimento através do esporte, mas o que ele encontrou foi um professor que o apadrinhou na ideologia neonazista, junto a alguns colegas.

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"Tudo começou com a música", explicou à Agência Efe, ao lembrar a sensação que teve na primeira vez que escutou uma canção neonazista: "Era provocadora, uma maneira de se destacar sobre a mediocridade das demais pessoas, da normalidade".

A essas melodias, cujas letras memorizavam juntos, se somaram textos reivindicativos do Holocausto que o seu treinador lia enquanto tomavam cerveja ou cortava seu cabelo.

Grupo organizado

O grupo formado nas aulas de caratê foi ganhando cada vez mais força e, com o tempo, passou a incorporar bandeiras, medalhas, botas e até uniformes.

"Nosso grupo se chamava Vigrid, por um lugar mencionado na mitologia alemã. Tínhamos um espaço e uma mesa onde nos sentávamos todos com trajes de couro e rodeados de tochas", contou.

Logo começaram a se relacionar com skinheads, clubes de motoqueiros, torcidas organizadas violentas, assassinos e criminosos.

"Tínhamos acesso a armas e até consideramos realizar atentados, mas medimos as consequências e decidimos não fazer", relembrou. Apesar disso, batiam em imigrantes na rua ou entravam em restaurantes com estrangeiros e destruíam tudo que encontravam pelo caminho.

Ódio contra o diferente

O ódio era contra tudo aquilo que era diferente, mas principalmente contra os judeus. Por isso, não comiam no McDonald's, não assistiam a filmes de Hollywood nem tomavam Coca-Cola, devido à associação que faziam entre os Estados Unidos e a comunidade judaica.

Yonatan, naquela época ainda Lutz, começou a se afastar do grupo quando entrou para a universidade: "Comecei a mudar porque estava mais envolvido na sociedade e já não era tão fácil dizer coisas como 'não tenho amigos negros ou imigrantes', 'não como em tal restaurante porque o dono é estrangeiro' ou 'não vejo certos filmes porque foram produzidos por judeus'".

Deslocado no grupo

Com o tempo, começou a se sentir mais deslocado e, aos 24 anos, o fato de ter um ou outro amigo imigrante e um título universitário em administração de empresas fizeram com que se perguntasse sobre seu lado espiritual.

Essa busca interna, que começou quando ainda frequentava o grupo neonazista, permitiu que ele descobrisse filmes como "O Segredo" (2006) e livros do guru espiritual Osho, que o introduziram à cabala, uma escola de pensamento esotérico ligada ao judaísmo.

Foi assim que chegou até o Centro de Cabala de Berlim e, depois de alguns poucos encontros, mergulhou de cabeça em suas doutrinas. Seu professor, nascido em Israel e filho de sobreviventes do Holocausto, o acolheu de braços abertos e sem preconceitos, apesar da ideologia nazista.

"Senti uma conexão com o conteúdo das suas palavras, ignorava a sua religião judia", relatou Yonatan, que se diz grato por ter sido recebido com amor e ter conhecido pessoas que o ensinaram que a vida poderia ser diferente.

Jantar tradicional

Yuan em sua casa em Israel

Yuan em sua casa em Israel

Pablo Duer / EFE / 22.8.2019

Um jantar de shabat (jantar tradicional da cultura judaica) na casa de seu professor foi o ponto de mudança.

"Foi uma refeição íntima, de seis ou sete pessoas, cheia de alegria, entusiasmo e energia positiva. Eu não sabia o que estava fazendo, mas aplaudia e cantava", comentou Yonatan.

Uma semana depois, sentiu uma confusão de sentimentos quando voltou a se reunir com o grupo neonazista e todos escutaram canções que pregavam ódio aos judeus.

Nova trajetória

A partir daquele momento, decidiu se distanciar definitivamente do grupo e da ideologia neonazista e aprofundou os vínculos com a cabala. Depois, se mudou para Londres, onde passou a trabalhar em um centro de cabala.

Na Inglaterra, foi o encarregado de organizar eventos religiosos como orações e celebrações judaicas até que, aos 29 anos, realizou a primeira viagem a Israel. Depois da visita, decidiu dar início ao processo de conversão ao judaísmo, que incluiu a troca de nome de Lutz para Yonatan e a circuncisão.

No início deste ano, depois de uma passagem por Berlim, recebeu uma proposta para trabalhar no Centro de Cabala de Tel Aviv, onde leva atualmente uma plena vida judia: na cabeça, sempre usa o quipá, além das vestimentas tradicionais, reza três vezes ao dia e se abstém de relações sexuais antes do casamento.

"Amo Israel, mas estar aqui significa me abrir e atravessar um processo difícil para mim, que inclui muita dor e frustração", comentou.

Yonatan reconhece também que, embora esteja há dez dos seus 35 anos de vida afastado da ideologia neonazista, mudar radicalmente de opinião demora. Ele só foi capaz de condenar o Holocausto no ano passado.