Internacional As disputas em torno da mudança da bandeira do Afeganistão

As disputas em torno da mudança da bandeira do Afeganistão

Talibã hasteou seu símbolo por todo o país e população afegã reagiu com protestos carregando a versão tricolor

Homens do Talibã hasteiam a bandeira do grupo extremista em Cabul, capital do Afeganistão

Homens do Talibã hasteiam a bandeira do grupo extremista em Cabul, capital do Afeganistão

Hoshang Hashimi / AFP - 17.8.2021

A tomada do Afeganistão pelo Talibã foi uma ação rápida e que contou com a pouca resistência oferecida pelo exército local. Após a fuga do presidente Ashraf Ghani e a conquista de Cabul, no último domingo (15), o grupo extremista trocou a bandeira do país pela bandeira talibã. 

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A mudança levou a protestos da população e até confrontos. Em Jalalabad, no leste do país, a população foi às ruas, na quarta-feira (18), para defender a bandeira da República Islâmica do Afeganistão. Em resposta, homens do Talibã atiraram e, segundo testemunhas, pelo menos três manifestantes morreram.

Na quinta (19), novas manifestações ocorreram e novamente houve repressão e mortes. As pessoas celebravam a independência do Império Britânico, que aconteceu em 1919, munidas de bandeiras afegãs e, mais uma vez, os talibãs responderam com tiros.

A troca de bandeiras é um gesto carregado de significados. Segundo o site oficial do governo afegão, que ainda está online, a bandeira oficial é composta por três listras verticais: a cor preta representa o passado do país antes de sua independência, o vermelho representa o sangue dos que deram suas vidas pela nação e o verde representa a prosperidade e o Islã.

No centro, fica o emblema nacional, o desenho de uma mesquita, com o ano da independência, 1919, abaixo. Sobre o emblema, há uma frase em árabe: “não há divindade além de Deus (Alá) e Muhammad (Maomé) é o seu mensageiro".

Essa mesma frase também está presente na bandeira do Talibã, com a diferença que as cores da bandeira afegã foram trocadas pela cor branca.

"Essa frase é essencial para a crença islâmica, é fundamental. Ela baseia tudo, a aceitação de Maomé como profeta", explica o mestre e doutorando em Ciências da Religião pela PUC-SP Atilla Kus. "Na bandeira do Afeganistão mesmo essa frase esta acima de todos os símbolos. O uso dela sem nenhuma outra coisa na bandeira do Talibãs é totalmente para marcar uma diferença política".

Segundo o especialista, o grupo está inserido no islamismo, que são grupos políticos que se utilizam de conceitos religiosos do Islã como sua base. Isso explica a bandeira, a alegação de que a Sharia será a lei do país e também a declaração de um de seus comandantes de que não haverá democracia no Afeganistão.

Emirado Islâmico do Afeganistão

"Eles decretaram o Emirado Islâmico do Afeganistão, o porta-voz deles falou disso, significa que está submetido a esses preceitos. Um emirado significa a reunião de diversas tribos e não como um governo central, mas uma chefia que coordena as lideranças tribais, é como se fosse um reino feudal", avalia Kus.

A própria composição territorial e étnica do país contribuiu para que a união fosse feita através da religião, diz o professor.

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"O território afegão é muito complexo, nem as forças colonialistas conseguiram entrar em tudo. É um território que já foi chamado de "cemitério dos impérios", nem os britânicos, nem os EUA com toda sua tecnologia e números conseguiram dominar por muito tempo, nem criar um exército afegão unido", ressalta.

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