Casos de grampos ilegais sacodem política na Argentina e no Uruguai

Escândalos de espionagem ilegal envolvendo o governo de Maurício Macri e Luis Lacalle Pou vieram à tona no último mês 

Vice-presidente do Uruguai Beatriz Argimón teve áudio vazado nesta semana

Vice-presidente do Uruguai Beatriz Argimón teve áudio vazado nesta semana

Raúl Martínez/ EFE/ 03.03.2020

Dois casos de grampos ilegais, revelados no último mês, mexeram com autoridades políticas na Argentina e do Uruguai. Um áudio vazado da vice-presidente do Uruguai, Beatriz Argimón supostamente revela escutas ilegais e extorsões ao governo.

Na Argentina, o ex-presidente Maurício Macri e Gustavo Arribas da AFI (Agência Federal de Inteligência) foram denunciados pelo Ministério Público em um caso que ficou conhecido como "Super Mario Bros". Durante seu governo, a agência de inteligência teria espionado jornalistas, empresários, políticos, e atores sociais.

Até mesmo uma pasta com as informações dos jornalistas que cubriram o G-20, sediado no país, foi encontrado. Os jornalistas eram classificados por "proximidade ideológica" com o governo.

Uruguai

Nesta semana, foi publicado um áudio de quase dez minutos que envolve a vice-presidente do Uruguai, Beatriz Argimón e o empresário de relações públicas Fernando Cristino. Nele, a vice-presidente faz uma espécie de cobrança sobre o comportamento do empresário dizendo que todas conversas pelo telefone são gravadas. 

"Tudo se sabe e tudo é gravado", diz Beatriz ao empresário. "Te peço que não faça eco de nada, não diga que tem notícias de Luis [Lacalle Pou], do 'dealer' do Luis", continua a vice-presidente. Ela dá a entender no diálogo, que já sabia que ele estaria conversando ao telefone sobre o governo.

"Tem que ter muito cuidado, o que você falou outro dia, quando me ligou, tudo se sabe, todo é gravado", diz Beatriz. E ela complementa: "No final do dia, quando as ligações foram ouvidas e ouviram as suas, eles vieram falar comigo, e eu disse: 'esse homem é o Fernando, eu cuido' para que não fizessem nada com você, porque todas as ligações vão direto. E agora, te digo porque eu assumi a responsabilidade de dizer, que eu freei".

Fernando Cristino alega que foi ameaçado de morte e já apresentou denúncia, incluindo a vice-presidente Beatriz Argimón nela. No áudio, Beatriz diz que tudo é gravado porque "todos os dias chegam todo tipo de extorsão contra o governo".

A Procuradoria-Geral do Uruguai irá investigar o caso envolvendo o áudio vazado que envolve a vice-presidente do Uruguai e o empresário. Jorge Díaz, o procurador-geral, disse também que tudo que pode haver de ilegal será investigado, não apenas a questão da ameaça de morte.

O caso será da responsabilidade da procuradora Silvia Porteiro.

A oposição Frente Ampla também se manifestou e ingressou com um pedido de investigação. "A publicação do áudio da vice-presidente Argimón gera uma preocupação relevante no sentido institucional, além de aspectos privados, na medida em que se refere a escutas telefônicas e extorsão diária de líderes governamentais", diz a publicação.

Ex-presidente Mauricio Macri foi denunciado por espionar adversários políticos

Ex-presidente Mauricio Macri foi denunciado por espionar adversários políticos

Agustin Marcarian/Reuters - 12.8.2019

Argentina

O ex-presidente Mauricio Macri foi denunciado após o maior caso de espionagem desde a redemocratização vir à tona. Quase 500 jornalistas, produtores, políticos e empresários foram seguidos de perto pelo serviço de inteligência durante o governo de Macri. A agência EFE chegou a denunciar que seus jornalistas estão na lista. 

O caso ficou conhecido como "super Mario Bros" que era o nome do grupo de whats app onde as informações colhidas eram compartilhadas com o diretor de operações da AFI, Alan Ruiz. O grupo, segundo as denúncias, tinham até mesmo um apartamento alugado como central das operações.

A queixa foi aceita após um disco rígido ter sido encontrado como parte das tarefas de coleta de informações da agência de inteligência. No HD, foram encontrados traços digitais que mostram a conexão de dispositivos externos que armazenavam informações de inteligência sobre pessoas ligadas à atividade política.

O relatório do procurador federal Jorge di Lello dizia que as informações foram usadas para produzir inteligência ilegal, pois "não há registros no AFI de que essas tarefas tenham sido ordenadas por um juiz ou autoridade competente.