CIDH pede que governo da Bolívia dialogue com manifestantes

A entidades reconheceu que 'alguns atos de violência' foram registrados, mas destacou que os manifestantes possuem o direito de protestar

Nas duas últimas semanas a Bolívia vem registrando protestos em várias cidades

Nas duas últimas semanas a Bolívia vem registrando protestos em várias cidades

Jorge Ábrego/ EFE/ 04.08.2020

A CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos) pediu urgência, nesta sexta-feira (7), no início dos diálogos entre o governo boliviano e os manifestantes reunidos em diversos pontos do país. Nas últimas duas semanas, a Bolívia vem enfrentando bloqueios de estradas e manifestações de setores sociais contra o adiamento das eleições.

Em nota, a CIDH, com sede em Washington, reafirmou sua "recomendação de que seja conduzido um processo nacional de diálogo e reconciliação desde o mais alto nível do Estado com o objetivo de acalmar tensões latentes e hostilidades na sociedade boliviana".

A Comissão afirmou estar "extremamente preocupada" com os bloqueios porque a distribuição de alimentos e medicamentos, como tanques de oxigênio, foi impedida por explosões de dinamite e até incêndios.

No entanto, o órgão pan-americano destacou que a Central Obrera Boliviana (COB), uma das organizadoras dos bloqueios, pediu a passagem de ambulâncias, remédios e oxigênio.

A CIDH reconheceu que "alguns atos de violência" foram registrados nas manifestações, mas indicou também que os manifestantes possuem o direito de protestar. Em outras palavras, explicou a Comissão, o fato de algumas pessoas agirem com violência não significa que uma manifestação como um todo possa ser declarada não pacífica.

Chanceler pede "objetividade"

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A chanceler do governo interino, Karen Longaric, por sua vez, acusou a comissão de ter uma visão parcial sobre o problema. A CIDH publicou sua declaração após a intervenção de Karen, por videoconferência de La Paz, no Conselho Permanente da OEA (Organização dos Estados Americanos).

Longaric mais uma vez culpou o Movimento pelo Socialismo (MAS) do ex-presidente Evo Morales, na Argentina, pelos protestos e pediu ao órgão pan-americano "objetividade e imparcialidade".

"A CIDH não pode ser porta-voz de Evo Morales e seus seguidores que controlam a Ouvidoria na Bolívia. O viés ideológico do CIHD não ajuda a acabar com a violência na Bolívia, apenas desacredita aquela importante instituição", disse a chanceler interina.

O chanceler foi mais longe e acusou Morales e o MAS de serem os autores de "ações violentas e desumanas" devido aos bloqueios que afetam os hospitais.

"Por que Evo Morales tira o oxigênio de seu povo, dos enfermos e daqueles que buscam com todas as suas forças o apego à vida? Porque ele não se preocupa com o bem-estar coletivo, só se preocupa em promover suas aspirações pessoais", disse a chefe de Relações Exteriores.

Karen garantiu que seu governo usará "todos os meios legais à sua disposição" para proteger os bolivianos, sem dar maiores detalhes.

Crise política

Morales, presidente da Bolívia entre 2006 e 2019, deixou o país em novembro passado alegando que havia ocorrido um golpe contra ele e em um contexto de protestos e denúncias de fraude eleitoral.

O poder foi assumido por Jeanine Áñez, então uma senadora da oposição que os manifestantes agora acusam de tentar se manter na presidência.

Em princípio, as eleições estavam marcadas para 3 de maio, mas foram adiadas primeiro para setembro e agora para outubro, enquanto as infecções pelo novo coronavírus continuam aumentando no país.

Na Bolívia, país com 11 milhões e meio de habitantes, foram confirmados pouco mais de 86.000 casos de covid-19 e registrados pelo menos 3.465 mortes, segundo dados coletados pela Universidade Johns Hopkins.