Cristina ou Alberto? Quem mandará na Argentina se o peronismo vencer?

Ex-presidente é acusada de corrupção e surpreendeu ao ser anunciada como vice de Fernández, com quem não tinha uma boa relação antes

Agustin Marcarian/ Reuters - 17.10.2019

O possível retorno do peronismo à Casa Rosada levanta dúvidas sobre quem de fato exercerá o poder na Argentina: será Alberto Fernández ou a mentora de sua inesperada candidatura e companheira de chapa, a ex-presidente Cristina Kirchner?

Atual senadora depois de presidir o país entre 2007 e 2015, Cristina tornou-se a líder da oposição quando Mauricio Macri, que agora tenta a reeleição, assumiu o poder.

Mas, apesar de a maior parte dos analistas políticos darem como certo que ela se arriscaria em uma nova corrida pela Casa Rosada, quase todos duvidavam de suas chances de sucesso. Além da rejeição popular que impediu a eleição de um aliado dela no pleito vencido por Macri há quatro anos, Cristina tem dominado as manchetes pelos casos de corrupção em seus dois mandatos.

O golpe de mestre veio pouco antes do início da campanha. Cristina abriu mão de encabeçar a principal chapa peronista e alçou Alberto Fernández, seu ex-chefe de gabinete, ao posto de candidato à presidência.

A escolha foi surpreendente, não só pelo ineditismo de uma ex-presidente aceitar o posto de vice, mas também porque as relações de Cristina e Fernández não eram boas até pouco tempo antes do anúncio. O hoje companheiro de chapa deixou o governo em 2008 e assumiu postura bastante crítica, especialmente às políticas econômicas da ex-presidente.

As dúvidas sobre a capacidade de os dois se entenderem e sobre quem mandará no país depois das eleições é uma das armas mais usadas pelos governistas para evitar uma vitória de Fernández sobre Macri já em primeiro turno no próximo domingo.

"Se Fernández ganhar, Cristina ganha, e quem vai governar é ela. Quem tem o poder nessa chapa é Cristina Kirchner, não tenham nenhuma dúvida disso", afirmou Miguel Ángel Pichetto, candidato a vice de Macri.

Fernández nega ser um "poste" da ex-presidente, mas esclarece que Cristina não terá papel decorativo. "Em um governo, quem toma as decisões é o presidente, mas não vou prescindir de Cristina, porque ela é muito valiosa", afirmou o líder da aliança Frente de Todos.

Opinião pública

Os argentinos estão divididos. Segundo pesquisa das consultoras D'Alessio IROL e Berensztein realizada no início deste mês, 74% dos eleitores de Macri acham que Cristina governará. Entre os peronistas, a situação é oposta. Sete em cada dez dos que declararam voto em Fernández acham que ele terá controle total da Casa Rosada.

Considerando o universo total do eleitorado, 45% dos argentinos acreditam que a ex-presidente ditará as políticas do novo governo. Outros 41% acham o poder se concentrará em Fernández.

O poder de Cristina

A imprensa local vem publicando várias especulações sobre se Cristina terá um virtual poder de veto nas decisões de Fernández e ingerência na formação do governo.

Por enquanto, ela teve um papel central na definição das listas de candidatos ao parlamento e para alguns cargos executivos, como o de governador da província de Buenos Aires, disputado por Axel Kicillof, ex-ministro de Economia de Cristina.

Para o analista político Patricio Giusto, diretor da consultoria Diagnóstico Político, Cristina vai se manter na função de presidente do Senado, um posto exercido pelos vice-presidentes da Argentina, como determina a Constituição.

As prioridades da ex-presidente, segundo Giusto, são os filhos - Máximo e Florencia -, ambos envolvidos nos esquemas de corrupção revelados pela Justiça. Florencia, inclusive, se recupera de problemas de saúde em Cuba.

"Não concordo com as visões de que Alberto será uma marionete de Cristina. Embora a relação não seja fácil, não vejo Cristina buscando dificultar ou interferindo nas decisões fundamentais que ele tome", afirmou Giusto à Agência Efe.

Apesar disso, o analista prevê que a ex-presidente não ficará no segundo plano. Fora o protagonismo da companheira de chapa, Fernández terá que conviver com o chamado núcleo duro do kirchnerismo, que pressionará por postos centrais do governo, algo que o ainda candidato da Frente de Todos parece não querer ceder.

Muitos interesses a conciliar

Caso vença o pleito, Fernández chegará ao poder apoiado por alas muito diversas do peronismo, muitas delas totalmente afastadas antes da união para a disputa das eleições.

Convivem dentro da Frente de Todos os albertistas, os massistas - ligados a Sergio Massa, outro ex-chefe de gabinete de Cristina que tornou-se crítico de seu governo - e os sempre poderosos governadores peronistas.

Além deles, Fernández terá que lidar com os cristinistas, devotos exclusivos da ex-presidente e não de seu falecido marido e antecessor na presidência, Néstor Kirchner, que estão concentrados no La Cámpora, partido político liderado por Máximo Kirchner.

A história recente não ajuda. Os antecedentes de coalizões eleitorais bem-sucedidas na Argentina são escassos, e as relações dos presidentes com seus vices muitas vezes terminaram mal.

A própria Cristina acabou rompendo todo o diálogo com o vice-presidente de seu primeiro mandato, o radical Julio Cobos, tachado de traidor pelo kirchnerismo quando se colocou ao lado dos sindicatos ruralistas no conflito de 2008 pelos impostos aplicados às exportações de grãos. A medida também tem relação com a saída de Fernández daquele governo.

"O peronismo foi progressista com (Néstor) Kirchner e patético com Cristina. É dificílimo encontrar algo virtuoso no último mandato dela", disse Fernández durante o período de separação da nova companheira de chapa.

Agora, o possível futuro presidente da Argentina diz que considera Cristina como uma amiga e grande estrategista. A reconciliação, segundo ele, teria ocorrido por "convicção política e humana".

Juan Domingo Perón dizia, ao sugerir que as ambições pessoais devem ser sacrificadas na busca do bem comum, que "para um peronista não deve haver nada melhor que outro peronista".

A história dirá se para Cristina não há nada melhor que Alberto. E vice-versa.