De vítima a algoz: partes de Portugal, Espanha e Itália agora se rebelam contra onda de refugiados
No passado, países foram os que mais geraram imigrantes para vários locais, inclusive o Brasil
Internacional|Eugenio Goussinsky, do R7

Ao atender ao telefone, um jornalista importante de um dos maiores jornais da Espanha responde com impaciência à pergunta do R7.
— Não posso falar sobre isso. Estou em fechamento.
E desligou friamente. E o que era "isso" para ele? Um novo cosmético lançado no mercado? A opinião de um gourmet sobre as variações da paella feita no Brasil? Não. O tema era a necessidade urgente de os países se organizarem para receber o maior número de refugiados rumo à Europa desde a Segunda Guerra Mundial.
Partes da sociedade de alguns países que historicamente originaram ondas migratórias, inclusive para o Brasil, como Portugal, Espanha e Itália, agora tentam conter a maré de seres humanos que imploram por aportar em suas praias e fronteiras. E fazem lembrar a batida frase "pimenta nos olhos dos outros é refresco".
O editor de Internacional do jornal português Correio da Manhã, Francisco Gonçalves, discorreu com preocupação sobre o tema.
— É mesmo uma ironia ver alguns países como Portugal terem em sua população pessoas contrárias ao acolhimento de imigrantes. Afinal, Portugal é um país de origem de milhões de imigrantes, historicamente e ainda hoje. Não dá para generalizar, mas em Algarve, onde as fontes de receita provêm em grande parte do turismo, há uma movimentação contrária à criação de campos de refugiados por lá.
O debate sobre esse assunto é necessário não apenas para informar, mas para contribuir para uma solução do drama. Vindas da miséria e da fome na África, ou dos conflitos sangrentos no Oriente Médio, essas pessoas se aventuram, de maneira desesperada e clandestina, em travessias perigosas, flutuando em barcos de desespero em busca de um fiapo de esperança de uma vida melhor. Mas, antes, de um pedaço de pão.
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Gonçalves considera que, mesmo com o governo se dispondo a aceitar a presença de refugiados, partes da sociedade europeia podem continuar se rebelando contra tal iniciativa.
— Há sempre o risco de haver forças contrárias à ajuda humanitária. Acho que isso não irá prevalecer em Portugal porque a sorte do país é não estar sendo um dos mais pressionados no momento. A maior responsabilidade está sendo direcionada a países como a Alemanha.
Contrapondo-se à solidariedade de muitos, uma verdadeira catástrofe humanitária ocorre em função de algo simbolizado nas palavras do jornalista espanhol: fechamento. A ONU (Organização das Nações Unidas) já refez seus números de maio último.
Naquele mês, eram cerca de 40 mil os refugiados que, segundo a organização, precisavam ser acolhidos. Agora, em setembro, esse número subiu para cerca de 200 mil. Países como a Alemanha já declararam estar dispostos a receber um contingente de até 500 mil por ano, já que estes números estão em progressivo crescimento.
Conflitos internos
Outros, porém, apesar do discurso dos governos favoráveis às cotas, que devem ser implementadas em reunião dos membros da União Europeia nesta semana, ainda não conseguem esconder seus conflitos internos.
O governo português, conservador, do chefe de Estado Aníbal Cavaco Silva, afirma ser favorável à recepção dos refugiados. Mas, além da manifestação em Algarve, um pedido público organizado pela internet, com o nome "Não aos refugiados em Portugal" chegou nesta terça-feira a 10 mil assinaturas.
O argumento de que a delicada situação econômica e social do país não suportará um novo contingente tem mobilizado pessoas na Espanha e na Itália. Gonçalves afirma que, em casos como o da Itália, onde muitos imigrantes aportam diretamente da África, a questão política e a questão social se juntam.
—No caso da Itália, e da Grécia também, há muitos que consideram que esses países em crise não têm capacidade para gerir e fazer a triagem dos refugiados. Além dessa questão política, há a social, na qual há pessoas que veem um alto risco de a situação piorar porque os recursos do Estado são escassos. A Alemanha tem usado o argumento de que os imigrantes podem ajudar a desenvolver a economia. Mas é sempre difícil explicar isso para pessoas que estão desempregadas.
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A Espanha, por sua vez, comandada por um governo do conservador do PP (Partido Popular), diz ser solidária aos refugiados. No país, porém, a rigidez da lei é um obstáculo. Em dezembro último, a controversa Lei de Segurança Cidadã, que criminaliza manifestações populares e permite a expulsão sumária de imigrantes sem documentação nos enclaves de Ceuta e Melilla (cercados pelo Marrocos), foi aprovada pelo Parlamento.
Itália, Portugal e Espanha são os três países que mais originaram ondas migratórias para o Brasil, entre 1884 e 1959, devido à crise, principalmente nas lavouras locais. Da Espanha, vieram cerca de 683.385 pessoas no período. De Portugal, 1.392 milhão. E da Itália, 1.508 milhão. Os dados são do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
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Uma espanhola, que mora em Porto Alegre e pediu para não ter seu nome revelado, disse ao R7, em tom de desabafo, querer distância do tema. Ela atua em um importante centro espanhol local.
— Minha situação foi tão ou mais dramática (que a dos atuais refugiados). Não quero falar sobre isso. Não quero saber nada porque não posso fazer nada. Talvez há 50 anos eu pudesse. Hoje estou perto de completar 90 anos e só quero paz e tranquilidade.
Como ela demonstra, ser um imigrante — econômico ou refugiado — é, acima de tudo, algo que dói.
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O físico Albert Einstein certamente foi uma das personalidades mais marcantes do século 20. Ele mudou totalmente a visão do homem sobre o universo ao provar a teoria da relatividade, que deixou para trás as idéias de Isaac Newton, até então o físico ma...
O físico Albert Einstein certamente foi uma das personalidades mais marcantes do século 20. Ele mudou totalmente a visão do homem sobre o universo ao provar a teoria da relatividade, que deixou para trás as idéias de Isaac Newton, até então o físico mais importante da história. A personalidade de Einstein também mostrou um intelecto à frente do seu tempo. Ele sempre deu a impressão de que era um homem irreverente e humilde que pensava a humanidade para além das fronteiras nacionais e preconceitos culturais

















