Entre o abismo de outro resgate e o princípio do fim da crise
Internacional|Do R7
Oscar Tomasi. Lisboa, 19 dez (EFE).- Portugal termina 2013 mais otimista do que estava há um ano, mas com grandes incógnitas ainda, já que o fantasma de um segundo resgate não evaporou, apesar de o país já vislumbrar a recuperação do crescimento. A economia, a dívida e a 'troika' (Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia) voltaram a ser o centro das atenções, algo que deixou de ser novidade em Lisboa, e tanto a crise no governo conservador - em julho - como as decisões do Constitucional que invalidaram vários dos ajustes foram analisadas em função de seu impacto financeiro. Embora o ritmo de queda do número de empregos tenha parecido diminuir ao longo do ano, os efeitos da austeridade foram evidentes, como alertaram instituições sociais portuguesas, que detectam um contínuo aumento de pessoas que precisam de ajuda. No entanto, esta piora das condições de vida não se viu acompanhada de uma maior contestação social, muito pelo contrário. A sociedade portuguesa mostrou sinais de cansaço nos últimos meses e os protestos populares são cada vez menores. A evolução da economia deu sinais positivos, o que permitiu ao governo "respirar" e projetar um futuro mais positivo para seus cidadãos. "É mentira que Portugal não esteja melhor que há dois anos", declarou recentemente o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, para responder as críticas de uma oposição cada vez mais dura e distanciada do Executivo. O país fechará 2013 com seu PIB em números vermelhos pelo terceiro ano consecutivo (se prevê uma queda de 1,8% em relação ao retrocesso de 3% de 2012), a melhoria registrada em termos trimestrais já permitiu ao país sair da recessão técnica. E o desemprego, que no final do ano passado alcançou 16,9%, atualmente está em 15,6%. Também as exportações seguiram essa ascensão, e o consumo privado freou a queda. No entanto, essa melhora não tem por enquanto um efeito palpável na economia real, nem em nível financeiro. Portugal, apesar das severas medidas de austeridade aprovadas, voltará a descumprir o limite do déficit público com o qual se comprometeu em troca do resgate pela 'troika' em maio de 2011, como já havia acontecido nos dois anos anteriores. O peso da dívida pública sobre a economia segue em ascensão e já ronda os 128% - devido em parte ao retrocesso do PIB, quase oito pontos a mais que em dezembro de 2012. Apesar destes números, existem progressos na confiança dos investidores sobre o futuro do país. O tesouro português leiloou a dívida de curto prazo a taxas de juros inferiores às do exercício anterior e já se prepara para, nos próximos meses, voltar a emitir títulos de longo prazo. É aí precisamente onde se situam as principais incógnitas de Portugal, que pediu a ajuda financeira internacional por causa da asfixiante pressão dos mercados. No mercado secundário, seus títulos em dez anos estavam cotados no final de ano em torno de 5,9%, um ponto e meio a menos que em dezembro de 2012. Uma queda relevante, mas ainda insuficiente, segundo a maioria de analistas e agências de qualificação, que por isso não descartam a hipótese de um novo resgate. No plano político, o ano esteve marcado por uma crise política em julho, quando o então ministro das Relações Exteriores e líder do partido minoritário que garante a maioria para o governo, Paulo Portas, apresentou sua renúncia "irrevogável". Portas acabou voltando atrás após ser elevado a "número dois" do governo e renovou sua aliança com Passos Coelho em troca de maior influência em suas políticas. Neste contexto, o chefe do Estado, Aníbal Cavaco Silva, exigiu que o governo e o principal partido da oposição, o socialista, chegassem a um acordo que permitisse uma negociação mais clara com os credores internacionais, embora as severas divergências entre eles tivessem tornado esse pacto impossível. A perda de apoio do eleitorado pelos partidos conservadores se refletiu nas pesquisas e nas eleições municipais de setembro, a primeira desde a chegada de Cavaco Silva ao poder, com o aumento das candidaturas independentes e de votos brancos e nulos como principais mostras do crescente descrédito das autoridades portuguesas. EFE otp/cd/id










