'Escapei da injustiça', diz Carlos Ghosn após fugir para o Líbano

Proibido de deixar o Japão, onde responde a processos criminais, ex-presidente da Nissan chegou ao país do Oriente Médio em jato particular

Ghosn foi preso no Japão em novembro de 2018

Ghosn foi preso no Japão em novembro de 2018

Issei Kato/Reuters - 25.4.2019

O ex-presidente das montadoras Renault e Nissan Carlos Ghosn admitiu ter deixado o Japão e se refugiado no Líbano — onde tem cidadania. Ele não estava autorizado sair do território japonês porque responde a processos criminais.

A viagem ao Líbano ainda é cercada de mistério, já que os passaportes de Ghosn não estavam em poder dele.

Segundo a emissora de TV japonesa NHK, o ex-titã da indústria automotiva viajou ao Líbano em um jato particular procedente da Turquia e entrou no país com outro nome.

Casa de Ghosn em Beirute, no Líbano

Casa de Ghosn em Beirute, no Líbano

Mohamed Azakir/Reuters

Ghosn é nascido no Brasil, mas também tem cidadania libanesa e francesa.

No Japão, ele é acusado de ocultar rendimentos e de usar recursos da empresa para pagar despesas pessoais, acusações que nega.

"Agora estou no Líbano e não vou mais ser refém de um sistema judicial japonês fraudulento, onde se presume culpa, a discriminação é galopante e direitos humanos básicos são negados", disse Ghosn, de 65 anos, em um breve comunicado nesta terça-feira (31), segundo a emissora de TV Al Jazeera.

"Não fugi da justiça, escapei da injustiça e da perseguição política. Agora posso finalmente me comunicar livremente com a mídia e estou ansioso para começar na próxima semana", acrescentou Ghosn. O Líbano não tem tratado de extradição com o Japão. 

O advogado Junichiro Hironaka, que coordena a defesa de Ghosn no Japão, afirmou nesta terça-feira (31) estar surpreso com a notícia de que o cliente tenha saído do país. Segundo o defensor, os dois haviam se encontrado pela última vez na quarta-feira (25), em uma audiência de pré-julgamento.

Leia também: Mulher de Carlos Ghosn diz não ver marido há meses

Carlos Ghosn foi durante décadas referência na indústria de automóveis. Mas em novembro de 2018, foi preso ao desembarcar no Japão e acusado de diversos crimes, entre eles, ocultar rendimentos das autoridades e usar recursos da empresa para custear despesas pessoais. Ele nega todas as acusações.

Em abril deste ano, ele foi libertado após depositar uma fiança de US$ 9 milhões (cerca de R$ 36 milhões), mas sob a condição de que teria que entregar os passaportes. O valor deve ser confiscado pelas autoridades japonesas agora que Ghosn fugiu. 

A família de Ghosn criticava o tratamento dado a ele pela justiça japonesa, que o proibiu de ver a mulher, a norte-americana e libanesa Carole Ghosn. Em uma ocasião, o tribunal apenas permitiu que os dois se falassem por videoconferência.

O ex-executivo acusa integrantes do alto escalão da Nissan de terem tramado contra ele por serem contra a uma proximidade maior entre as duas empresas que comandava, a Nissan e a francesa Renault, sua principal acionista.