EUA: prevenir tiroteios em escolas envolve treinos e cultura positiva 

Massacre na Flórida deixou 17 mortos. Em entrevista ao R7, especialista conta como Columbine e Sandy Hook mudaram forma de pensar segurança escolar

Atirador matou 17 pessoas em escola na Flórida

Atirador matou 17 pessoas em escola na Flórida

Joe Raedle/Getty Images/15.02.2018

Treinamentos periódicos contra tiroteios e a promoção de uma cultura positiva entre alunos e funcionários devem fazer parte da política de segurança nas escolas para prevenir massacres como o que deixou pelo menos 17 mortos em Parkland, na Flórida, na última quarta-feira (14). É esta a opinião de James Dorer, ex-policial especialista em segurança escolar e chefe de segurança no distrito escolar de Scottsdale, no Arizona. 

— Eu acredito que a maioria das escolas nos Estados Unidos esteja bem preparada para emergências. Mesmo assim, se alguém entra no local com uma arma de fogo, ainda pode haver inúmeras fatalidades. No melhor dos casos, o tiroteio pode ser completamente prevenido se outros estudantes ouvirem rumores, detectarem sinais e levarem essas informações para a diretoria ou para a polícia — o que só ocorre quando existe um clima de positividade e confiança no campus.

De Columbine a Sandy Hook

Segundo Dorer, as escolas no país passaram a repensar sua política de segurança diante de tiroteios e outros ataques após o massacre de Columbine, ocorrido em 20 de abril de 1999, que deixou 15 mortos em um tiroteio em uma escola de ensino médio.

— A violência nas escolas existe há centenas de anos. O tiroteio em Columbine teve um impacto significativo em relação ao que as comunidades pensavam da segurança escolar e da aplicação da lei. Todos passaram a mudar suas estratégias de resposta para os ataques. Para as escolas em geral, o massacre reforçou a necessidade de um planejamento para emergências.

Hoje em dia, os EUA ainda não contam com uma política nacional de segurança para este tipo de situação. As autoridades entendem que cada colégio deve elaborar seu plano de emergência — com treinamentos e rotas de fuga — de acordo a própria realidade, segundo o especialista. As medidas variam segundo fatores como o tamanho das instituições e a idade dos alunos.

— Cada estado tem leis e regras para os distritos escolares seguirem, mas não há uma unidade de estado para estado. O Arizona, por exemplo, tem leis que exigem que cada escola tenha um plano de resposta para emergências e realize pelo menos dois exercícios de simulação de ataques por ano.

Dorer ainda lembra que o tiroteio na escola primária de Sandy Hook — que ocorreu em 14 de dezembro de 2012 e deixou 28 mortos — também foi um divisor de águas no que diz respeito à maneira como as autoridades encaram a segurança escolar.

— Vinte crianças morreram em Sandy Hook. Antes deste trágico evento, a maioria das pessoas parecia pensar que a violência escolar só acontecia em instituições de ensino médico. O episódio deixou claro que todos os tipos de escola precisam estar preparados e se concentrar na segurança de seus estudantes.

Após o massacre em Sandy Hook, a Agência Federal de Gestão de Emergências (FEMA, na sigla em inglês) publicou em 2013 um guia de planos de operação para emergências escolares. Na publicação, há indicações de preparação, exercícios, métodos de prevenção e resposta para situações com atiradores ativos — que, por definição, são aquelas em que um indivíduo está matando ou tentando matar pessoas em uma área confinada e povoada.

Simulações de tiroteios são comuns em escolas nos EUA

Simulações de tiroteios são comuns em escolas nos EUA

Joe Raedle/Getty Images/14.02.2018

Em linhas amplas, o texto fala sobre a importância de visualizar rotas de fuga no momento dos ataques, deixar para trás os pertences pessoais, trancar-se em salas seguras e construir barricadas com móveis pesados junto a portas e janelas, além de acionar os serviços de emergência assim que possível. Simular, com alunos e professores, situações envolvendo atiradores ativos — assim como muitas das instituições fazem para furacões e outros desastres naturais — também é bastante importante, de acordo com a publicação. 

— Como não há uma política nacional, a quantidade de simulações e treinamentos varia de acordo com cada escola. Em boa parte dos casos, as instituições realizam pelo menos duas simulações por ano, mas o conteúdo dos treinamentos também varia. Muitas vezes, os distritos escolares trabalham em conjunto com a polícia local para elaborar a melhor forma de responder a um atirador ativo ou a um agressor armado.

Identificando sinais

O texto da FEMA fala ainda sobre a prevenção aos tiroteios e maneiras de identificar sinais que possam evoluir para situações com atiradores ativos — mas ressalta que não existe um perfil específico de estudantes que se revelam atiradores e diz que poucos deles ameaçam seus alvos antes de agir.

Segundo estudo do próprio Serviço Secreto dos EUA para o Departamento de Educação do país com base em análises de tiroteios em colégios entre os anos de 1900 e 2008, apenas em 13% dos casos os atiradores ameaçaram agir de forma verbal ou escrita. Em 19% dos casos, o comportamento de perseguição ou assédio foi relatado antes do ataque e, em 10% por cento dos casos, o indivíduo cometeu agressões físicas antes de agir. “Por isso é tão importante que as escolas promovam uma cultura de positividade no campus, para que os alunos se sintam confortáveis a compartilhar o que sabem ou possíveis indícios com os adultos”, diz o especialista.

Por fim, James Dorer fala da importância do apoio financeiro por parte do governo para as políticas de segurança escolar.

— O financiamento geralmente é a preocupação número um que ouço quando converso com líderes escolares sobre treinamento e preparação. Há estados em que os orçamentos para a educação tendem a ser bastante apertados, o que se traduz em tempo limitado para preparação para emergências.