Guerra com o Irã divide conservadores nos EUA dentro e fora do palco de conferência
Alguns republicanos entendem que Donald Trump estaria arrastando o país para uma guerra desnecessária no Oriente Médio
Internacional|Steve Contorno e Jeff Simon, da CNN Internacional
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Como filha de um trabalhador americano de campos de petróleo que viveu no Irã na década de 1970, Blake Zummo acompanhou de perto a violência que tomava conta das ruas nos anos que antecederam a Revolução Iraniana.
Hoje, aos 62 anos e morando no Texas, ela rejeita os argumentos — inclusive de colegas republicanos reunidos nesta semana nos arredores de Dallas para a Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC, na sigla em inglês) — de que o presidente Donald Trump estaria arrastando os Estados Unidos para uma guerra desnecessária no Oriente Médio.
“Este é finalmente o primeiro presidente que teve coragem de fazer o que precisava ser feito para proteger o povo americano”, disse Zummo do lado de fora do centro de convenções.
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O evento, conhecido como CPAC, começou nesta quinta-feira (26) em meio ao conflito com o Irã, que expõe uma crescente divisão dentro do Partido Republicano.
As divergências — especialmente visíveis nas redes sociais, mas também em encontros públicos — têm preocupado um partido que já enfrenta dificuldades para manter unida a coalizão de Trump às vésperas das eleições de meio de mandato.
O presidente da CPAC, Matt Schlapp, reconheceu que haverá “muitas conversas sobre as consequências” da guerra com o Irã caso os republicanos percam a Câmara e o Senado no outono americano, e afirmou que essa tensão deve aparecer ao longo do evento.
“Sempre que há uma operação militar, as pessoas ficam nervosas”, disse Schlapp à CNN Internacional momentos antes da abertura. “E o público da CPAC não é diferente.”
Ele afirmou que não pretende censurar discursos e montou uma programação que estimula o debate. Entre os destaques está um painel chamado “MAGA vs. Mullah Madness”, com vítimas do regime iraniano, além da participação de Reza Pahlavi, filho do ex-xá do Irã, que apoia a campanha militar de Trump.
Os participantes também ouviram o ex-deputado Matt Gaetz, enquanto o ex-estrategista de Trump Steve Bannon e o fundador da Blackwater, Erik Prince, também devem discursar — todos críticos à ação militar dos EUA no Irã.
Em seu podcast “War Room”, Bannon afirmou que a ação militar “vai ficar muito, muito, muito feia”.
“Quem disser o contrário não está na linha de frente, nem tem filhos lá”, disse. “Não têm nada em jogo.”
Embora Trump ainda não tenha indicado que pretende enviar tropas ao país, Gaetz alertou o público da CPAC de que “uma invasão terrestre do Irã tornaria nosso país mais pobre e menos seguro. Significaria preços mais altos de gasolina e alimentos, e não tenho certeza de que mataríamos mais terroristas do que criaríamos.”
‘Meio desiludidos com Trump’
Uma ausência notável no debate é o próprio Trump, que não deve comparecer ao evento pela primeira vez em uma década.
Uma pesquisa recente da CBS News/YouGov mostra que a ação militar de Trump tem amplo apoio entre republicanos — 92% entre apoiadores do movimento MAGA e 70% entre republicanos que não se identificam com o grupo.
Ainda assim, a vitória de Trump em 2024 também contou com eleitores fora do perfil tradicional — jovens, minorias e homens brancos descontentes que raramente participavam da política.
O analista Richard Baris afirmou que parte desse grupo tem se afastado do movimento MAGA, tendência acelerada pela guerra com o Irã.
Segundo ele, jovens são mais céticos em relação a Israel do que a base tradicional republicana, e o governo Trump pouco fez para combater a percepção de que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu estaria levando os EUA a mais um conflito prolongado no Oriente Médio.
“Há um ressentimento agora entre republicanos mais jovens em relação a Israel, porque sentem que os EUA colocaram Israel à frente deles”, disse.
Esse sentimento aparece entre participantes mais jovens da CPAC, como Alexander Selby, estudante de ciência política de 18 anos da Universidade de Pittsburgh, que acredita que a guerra não deveria ser prioridade.
“Ele fez campanha prometendo não iniciar novas guerras. Eu não acreditei muito nisso”, disse. “Muitos jovens conservadores estão meio desiludidos com Trump, e eu me incluo nisso.”
Histórico de postura dura contra o Irã
A CPAC passou por diversas transformações ao longo das décadas — de um espaço de definição de rumos do conservadorismo a um teste de lealdade ao movimento MAGA —, mas o discurso duro contra o Irã sempre esteve presente.
Candidatos republicanos à presidência, como John McCain, Rick Santorum e Marco Rubio, já usaram o evento para prometer firmeza contra o país. Figuras como John Bolton também eram aplaudidas ao criticar acordos com o Irã durante o governo Barack Obama.
O próprio Trump adotou esse tom antes de se tornar presidente. Em 2015, afirmou categoricamente na conferência que o Irã “não pode ter uma arma nuclear” e que os EUA devem proteger Israel — mensagem repetida em anos seguintes.
Agora, com o conflito em andamento, a possibilidade de um envolvimento prolongado dos EUA deixou de ser teórica. Mark Wallace, CEO da organização United Against Nuclear Iran, reconheceu o desafio de justificar a guerra a uma base que inclui muitos céticos.
“Os Estados Unidos são, fundamentalmente, um país com tendências isolacionistas. Isso sempre fará parte da nossa política”, disse. “Mas acredito que essa ação atende claramente ao teste histórico de conflitos como Vietnã e Iraque.”
Ele afirmou esperar convencer conservadores de que o Irã está em conflito com os EUA há décadas e que neutralizar essa ameaça tornará o país e a região mais seguros.
Ainda assim, muitos já estão convencidos. Dezenas de participantes se juntaram a iranianos exilados no evento, pedindo mudança de regime e celebrando a ação militar de Trump.
Entre eles estava Zummo.
“Isso é colocar a América em primeiro lugar”, afirmou.
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