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"Kimchi Five", os cinco filhos da Guerra da Coreia

Internacional|Do R7

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Atahualpa Amerise. Ilha Geoje (Coreia do Sul) 28 jul (EFE).- A Guerra da Coreia, cujo fim completou 60 anos neste sábado, esconde impactantes episódios como o dos "Kimchi Five", cinco crianças nascidas durante o inverno de 1950 na embarcação que protagonizou a maior fuga naval da história. "Meus pais me contaram que, quando nasci, tiveram que cortar o meu cordão umbilical com os dentes", relatou à Agência Efe Lee Gyeon-pil, que no natal do primeiro ano dos três que durou a guerra foi o quinto "Kimchi" a vir ao mundo, em uma das amontoadas adegas da fragata Meredith Victoria. Meses depois de eclodir a guerra em junho e após haver ocupado grande parte do território norte-coreano, em dezembro de 1950, as forças da ONU, capitaneadas pelos Estados Unidos, concordaram em retirar-se da área noroeste da Coreia do Norte diante da chegada das tropas chinesas. A notícia de uma grande fuga no porto oriental de Hungnam correu como pólvora entre os norte-coreanos dissidentes do regime comunista e dezenas de milhares de pessoas se amontoaram com a esperança de ocupar um espaço em alguma das 193 embarcações preparadas para a retirada dos soldados ao Sul. Foi então que o capitão do Meredith Victoria, originalmente com capacidade para 53 pessoas, desprezou a carga militar das adegas para acolher 14 mil civis em uma operação que figura no livro de recordes Guinness como a maior fuga da história em um só barco. Os refugiados viajaram durante três dias de pé, amontoados como sardinhas em lata, quase sem comida e sem poder se mexer nem para ir ao banheiro, segundo as testemunhas da época. Lee Gyeon-pil, que dedicou anos a pesquisar detalhes do histórico trajeto, foi o último dos cinco bebês que nasceram durante aqueles longos três dias e que foram apelidados pelos soldados americanos de "Kimchi Five", em referência ao alimento coreano. O percurso terminou no dia 25 de dezembro de 1950 na ilha Geoje, ao sudeste da Coreia do Sul, onde muitos dos refugiados, entre eles os pais de Lee, decidiram recomeçar suas vidas do zero. Geoje, a segunda maior ilha sul-coreana, combina férteis montanhas com imponentes estaleiros, símbolo da rápida industrialização do país e principal fonte de renda de seus mais de 200 mil habitantes. Não é o caso do número cinco dos "Kimchi Five", que nunca desejou trabalhar construindo embarcações, apesar de haver nascido em uma delas. Ao invés disso, aprendeu a tratar animais e hoje administra uma clínica veterinária, chamada "Pyeonghwa", que em coreano significa "paz", como um modo de expressar seu desejo de que "nunca mais na Coreia nasçam crianças em embarcações de guerra", afirmou com um gesto de convicção. Quando o assunto é o entendimento entre as duas Coreias, Lee se mostra beligerante em relação ao Norte, país que considera "inimigo" e reconhece guardar rancor, já que seus pais, assegura, "tiveram que fugir da sua cidade para não ser assassinados pelos comunistas". Embora não fale nem uma palavra de inglês, ele sente mais empatia pelos EUA, país que visitou para participar de atos comemorativos do fim da guerra e com o qual se considera "em dívida" por ter tido "a possibilidade de nascer". O nascimento de Lee e dos outros quatro "Kimchi Five", ainda que tenha sido em condições extremamente precárias, pode ser considerado afortunado no contexto de uma das guerras mais atrozes da história da humanidade, com um saldo estimado de mais de três milhões de mortos, a maioria civis. Seis décadas depois do final do conflito, selado em um armistício que nunca foi substituído por um tratado de paz, as duas Coreias mantêm seus exércitos preparados para o combate, como um reflexo da profunda ferida originada no antagonismo ideológico da Guerra Fria, que segue sem cicatrizar. EFE aaf/ld/rsd (foto)

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