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Líbia vive 5 anos de guerra civil com mais de 8 mil mortes

Conferência da ONU em Berlim tenta colocar fim à guerra civil que se arrasta desde 2014, com dois governos sem legitimidade disputando o poder

Internacional|Da EFE

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Conferência da ONU em Berlim busca soluções de paz para a Líbia
Conferência da ONU em Berlim busca soluções de paz para a Líbia

A Conferência Internacional de Berlim, realizada neste domingo (19) na capital alemã, tem como objetivo consolidar um cessar-fogo assinado na semana passada para pôr fim a uma guerra civil que se arrasta desde 2014 na Líbia e que só nos últimos dez meses de combates causou a morte de mais de 1,5 mil pessoas, 300 das quais civis.

Segundo números da ONU, o conflito armado também deixou cerca de 15 mil feridos e forçaram cerca de 140 mil pessoas a deixar as suas casas na capital e na cidade-estado vizinha de Misurata e a se deslocarem internamente, levando o país à beira de uma crise humanitária aguda.


Dois governos sem legitimidade

A guerra coloca em lados opostos dois governos sem legitimidade e que dependem de diferentes milícias e aliados internacionais. Em Trípoli, resiste o chamado Governo do Acordo Nacional (GNA), entidade criada pelas Nações Unidas em abril de 2016 após o fracassado acordo de paz promovido pelo então enviado especial da organização para o conflito, Bernardino León, que contribuiu para aprofundar a divisão.

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Desde então, o GNA não conseguiu estender sua autoridade ao restante do país nem resolver os graves problemas logísticos e humanitários que a capital está sofrendo, apesar do reconhecimento da comunidade internacional e do apoio financeiro da própria ONU e da União Europeia.


Liderado por Fayez al-Serraj e apoiado pelo Conselho de Estado - um parlamento paralelo também criado através do fracassado acordo de Skhirat - conta apenas com o apoio de Misurata e de várias milícias islâmicas que dividem o controle da capital e dos seus arredores.

Em oposição, o marechal Khalifa Hafter, membro da liderança golpista que levou ao poder o ditador Muammar Kadafi, que foi derrubado em 2011, guarda o parlamento eleito nas eleições de 2014 e o governo não reconhecido da cidade de Tobruk.


À frente do chamado Exército Nacional Líbio (LNA), domina cerca de 70% da Líbia e a maior parte das instalações petrolíferas, a principal fonte de riqueza do país.

Inimigo ferrenho de Misurata, em fevereiro de 2018 conseguiu estender sua influência do leste e entrar no sul, onde estabeleceu acordos de cooperação com as tribos Tuareg e Tebu, que controlam milhões do tráfico de pessoas, armas e combustível.


Acordo de paz não vingou

A origem do conflito é o acordo de paz imposto pela ONU na cidade marroquina de Skhirat, encerrado com a recusa explícita tanto do marechal quanto do parlamento eleito, assim como do governo islâmico de transição de Trípoli, que perdeu as eleições de 2014 e se recusou a deixar o poder.

As Nações Unidas impuseram um governo, que foi formado na Tunísia e chegou à capital líbia de barco e escoltado devido às ameaças, pressionado pela fortaleza do Estado Islâmico, que um ano antes tinha conseguido tomar o controle da cidade de Sirte e ameaçou avançar em direção à capital.

Assim que foi formada, o GNA lançou com Misurata a chamada "Operação Buyan al Marsus", que no final de 2016 conseguiu expulsar os jihadistas com a cooperação militar dos Estados Unidos.

Haftar, que se opôs a um acordo que o privou do comando do Exército Nacional Líbio (LNA), optou, por sua vez, por aproveitar os combates em Sirte para tomar o controlo de Benghazi, a segunda maior cidade do país e último feudo do governo islâmico de transição, e assegurar a posse do Golfo de Sirte, nas mãos de um senhor da guerra próximo do GNA.

Disputa internacional estratégica

O conflito se intensificou em 4 de abril do ano passado, quando Hafter lançou uma operação para conquistar Trípoli em dia de visita oficial do secretário-geral da ONU, Antonio Gutierres, à capital. A investida não deu certo, mas passou uma mensagem clara à comunidade internacional, já intimamente envolvida em um conflito que se tornou uma queda de braço geoestratégica multinacional.

Hafter, recrutado pela CIA nos anos 80 e o principal adversário de Kadafi no exílio, é militarmente apoiado por Arábia Saudita, Egito e Emirados Árabes, este último lhe fornecendo a força aérea com a qual bombardeia Misurata e a capital.

Ele também tem o apoio econômico e logístico da Rússia, que enviou centenas de milicianos à região, e o apoio político da França e dos Estados Unidos, que lhe concedeu a nacionalidade nos anos 90, quando morava em Langley, perto da sede da CIA.

O GNA tem o apoio da Turquia, que lhe fornece armas e drones, e do Catar e da Itália, dois dos países que o apoiam financeiramente, juntamente com a ONU e a União Europeia.

Dias atrás, a Turquia foi a primeira nação a oficializar a sua interferência no conflito através do envio de tropas, um destacamento que gerou a rejeição da maioria dos países árabes e, em particular, da Tunísia e da Argélia, os dois principais vizinhos da Líbia.

Cessar-fogo fracvassado

Após dez meses de luta, o LNA, sob o comando de Hafter, conseguiu na semana passada quebrar a resistência na estratégica cidade costeira de Sirte e avançar em direção à Misurata, a última muralha defensiva da capital.

Suas tropas, apoiadas do ar por aviões de combate emprestados pelos Emirados Árabes, entraram no povoado de Abu Grin, um pequeno conjunto de casas abandonadas desde a luta contra o Estado islâmico em 2016 e localizadas a apenas 100 quilômetros de Misurata.

Um avanço que acelerou os contatos internacionais, em particular entre a Turquia e a Rússia, para impor um cessar-fogo que o GNA, que se sentiu encurralado, aceitou imediatamente, mas ao qual Hafter resistiu porque não queria perder o seu impulso militar.

Nesse contexto, ambos os governos estão reunidos em Berlim com objetivos divergentes para uma conferência internacional que está tentando consolidar um acordo mais consistente.

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