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Medo e incerteza dominam Guadalajara após a morte do narcotraficante ‘El Mencho’

Situação na cidade levanta questões sobre a segurança, especialmente com a chegada de turistas para a Copa do Mundo

Internacional|Rocío Muñoz-Ledo e Verónica Calderón, da CNN Internacional

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • A morte de "El Mencho", líder do CJNG, desencadeou uma onda de violência em Guadalajara e outras 20 estados do México.
  • A cidade voltou à normalidade após o caos, mas o medo e incertezas sobre possíveis retaliações permanecem.
  • A violência afetou também áreas turísticas e levantou questões sobre a segurança de Guadalajara como sede da Copa do Mundo.
  • Governantes locais enfrentam críticas por priorizarem eventos esportivos em vez de abordar a grave questão da segurança pública.

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Membros da Guarda Nacional Mexicana fazem a segurança perto da funerária La Paz, onde, segundo a mídia local, o corpo do líder do cartel Nemesio Oseguera Cervantes, conhecido como "El Mencho", está sendo velado após ter sido morto em 22 de fevereiro durante uma operação militar no estado de Jalisco, em Guadalajara.
Moradores expressam medo e incerteza sobre a nova onda de violência Stringer/Reuters - 01.03.2026

Os telefones começaram a vibrar sem descanso em Guadalajara no domingo, 22 de fevereiro.

Em grupos de WhatsApp e chats familiares, misturavam-se dados confirmados, rumores e medo, acompanhados de advertências: “Não saiam”, “Há bloqueios”, “Estão queimando carros”.


Fotos de veículos em chamas e avisos sobre estradas fechadas se propagavam com rapidez. Ninguém sabia com certeza o que estava ocorrendo, mas todos intuíam que era grave.

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Horas mais tarde, a SEDENA (Secretaria da Defesa do México) confirmou a morte de Nemesio Oseguera Cervantes, vulgo “El Mencho”, o poderoso líder do CJNG (Cartel Jalisco Nova Geração).


Segundo as autoridades, o chefão morreu enquanto era transferido em um helicóptero após uma operação militar realizada em Tapalpa, Jalisco, um povoado localizado a cerca de 120 km ao sudoeste de Guadalajara, em uma zona montanhosa que havia servido de refúgio e esconderijo para o criminoso mais procurado do país devido ao seu difícil acesso.

Passou-se mais de uma semana desde então, o trânsito voltou ao normal, os escritórios reabriram e os estudantes retornaram às aulas.


A cidade mexicana que em alguns meses será sede da Copa do Mundo recuperou, aparentemente, seu ritmo habitual. No entanto, o medo que se instalou após a queda de “El Mencho” não se dissipou.

Para muitos, a violência do domingo, que causou estragos em 20 estados do país, não foi apenas uma reação imediata à operação militar que terminou com a morte do líder do violento cartel — e que, segundo as autoridades, deixou 25 militares mortos —, mas uma advertência do que poderia vir: rearranjos internos, disputas pelo controle e uma nova onda de violência.


José Luis Tapia, proprietário de um Airbnb em Guadalajara, conta à CNN Internacional que no domingo da operação a primeira pessoa que o avisou que algo havia ocorrido foi uma de suas hóspedes, uma turista alemã, que lhe disse que tinha visto alguns relatos de violência.

“Pensei que houvesse bloqueios, mas fora da cidade”, afirma.

“Bloqueios” é a palavra que muitos mexicanos (e visitantes no México) usam para se referir ao fechamento de avenidas por parte de homens armados que se identificam como membros do crime organizado.

Às vezes, envolve o incêndio de veículos. “Famílias têm o carro levado e saem correndo, porque se não o fizerem, eles as matam”, explica Tapia.

O que Tapia percebeu como algo distante na realidade era parte de uma explosão de violência em grande escala: as autoridades registraram pelo menos 65 bloqueios em todo o estado de Jalisco, um dos principais redutos onde opera o CJNG, durante a jornada de caos que se desatou depois que os integrantes do cartel reagiram à morte de seu líder.

Comércios como as lojas Oxxo, uma rede de lojas de conveniência que se encontra em todo o país, foram alvo de ataques dos operadores do CJNG que saíram às ruas.

Do lado de fora de uma delas, Tapia viu como uma pessoa colou um cartaz improvisado no qual oferecia comida para quem precisasse. Soluções de emergência para uma situação inédita.

Tapia chegou a Guadalajara em 2018 vindo da Cidade do México. “Em março completo oito anos aqui e na Cidade do México não me lembro de ter vivido tanto medo”, afirmou.

Durante anos, logo que se mudou, ele diz que as referências ao narcotráfico eram constantes. “Muitas pessoas têm uma história, me contavam: ‘olha, aqui vivia Caro Quintero’, ou alguém cujo vizinho era Miguel Ángel Félix Gallardo, anedotas que podem soar incríveis, mas são reais”.

Para ele, a jornada daquele domingo marcou um antes e um depois. Tapia diz que, mesmo quando em Guadalajara a violência se tornou algo cotidiano, os sucessos do último domingo superam o que a sociedade de Guadalajara viveu nestes anos. “Todos sentíamos que em um momento isso ia explodir”, conta. “E explodiu”.

Entre os que vivem hoje em Guadalajara, há alguns que chegaram fugindo de lugares onde la violência não lhes deixou outra opção. B. G., uma comerciante que pediu anonimato por razões de segurança, mudou-se para Guadalajara vinda de Reynosa, uma cidade fronteiriça em Tamaulipas, no norte do México, em busca de um refúgio para sua família.

“A situação começou em 2008-2009”, recorda, mas decidiu ir embora quando soube que um dos amigos de seu filho na creche era filho de um suposto membro do crime organizado. “Reynosa é muito pequena, lá todos se conhecem”, explica.

Chegou a Guadalajara em 2019. Ela, seu marido e seu filho são três dos cerca de 210.000 deslocados pela violência interna no México entre 2015 e 2020, segundo dados reunidos pelo ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados).

Por que Guadalajara? “Eu me apaixonei pela cidade desde o primeiro momento”, recorda. A comparação com a cidade onde cresceu é inevitável. Lá, conta B. G., a sensação de desamparo é muito grande.

“Em Reynosa, a rotina antes de sair é conferir as páginas do Facebook onde avisam sobre os tiroteios”, diz. “Assim como conferir o clima, antes de sair a pessoa já sabe por qual avenida não deve passar”.

B. G. não minimiza o que aconteceu em Guadalajara no domingo. “O que fizemos foi nos trancar e acender uma vela”, afirma. “Eu sou uma pessoa espiritualizada”.

Embora o medo tenha obrigado B. G. e sua família a ficarem em casa, ela encontrou gestos de solidariedade entre seus vizinhos no dia dos bloqueios e também depois disso.

“Muita gente se organizou para avisar se tinha um espaço extra em sua casa para guardar um carro ou comida sobrando”, recorda. Diz que esses pequenos atos de solidariedade lhe dão esperança para o futuro.

Em toda a conversa, seu tom é aberto e alegre. A única vez que sua voz embarga é quando fala de seu filho. “Vim para cá para oferecer o melhor para ele, ele sabe que tem pais que o apoiarão em tudo, e estou disposta a fazer o que for preciso para defendê-lo. Por isso viemos para cá”.

A explosão de violência que o México viveu naquele domingo mostrou o alcance que o CJNG tem no país: barricadas de carros em chamas e bloqueios rodoviários afetaram 20 dos 32 estados que compõem o país. O aeroporto de Guadalajara interrompeu suas operações e dezenas de voos foram cancelados

Além disso, a violência não se limitou a zonas rurais, chegou a destinos turísticos como Puerto Vallarta ou Cancún e afetou cidades como Guadalajara, que será sede de várias partidas da Copa do Mundo de futebol este verão.

“O mais impactante é que todos estes lugares, onde carros e ônibus foram queimados e estradas foram bloqueadas, funcionam como uma radiografia que evidencia a presença do Cartel Jalisco Nova Geração”, disse à CNN Internacional Catalina Pérez Correa, professora mexicana de direito especializada em crime organizado.

A violência, segundo Pérez Correa, deixou claro que estas redes criminosas já não operam apenas em algumas regiões: estão em todo o país

As autoridades insistem que a situação está sob controle nas zonas que viram mais caos no dia em que “El Mencho” caiu.

A presidente do México, Claudia Sheinbaum, que adotou uma postura mais dura frente ao narcotráfico sob a pressão do Governo de Donald Trump, assegurou que “a paz, a segurança e a normalidade se mantêm” no país.

Enquanto isso, o secretário de Segurança, Omar García Harfuch, disse que o centro de comando estaria atento a “qualquer tipo de reação que houver ou de reestruturação dentro do cartel” e trabalharia para reforçar a zona.

A seleção do México jogará em Guadalajara uma de suas partidas e a cidade também receberá as seleções da Coreia do Sul, Colômbia, Uruguai, Espanha e outras duas equipes que ainda não foram definidas na repescagem.

Por isso, autoridades estaduais esperam a chegada de cerca de 3 milhões de turistas durante essas semanas.

A violência, inevitavelmente, gerou dúvidas sobre se Guadalajara estava pronta para continuar como sede do certame, questionamentos que já existiam desde que o México foi designado coanfitrião.

De volta à capital de Jalisco, Tapia concorda que o ocorrido naquele domingo na cidade onde vive expôs a dura realidade da violência que atinge o México.

“Já se passou de um limite, e isso deixa exposta uma realidade que muitos de nós não queríamos ver. Isto já é intolerável. Investe-se mais em coisas cosméticas do que em coisas de fundo. Como é possível que tenhamos governantes mais preocupados com a Copa do Mundo do que com seus governados?”

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