Mujica perdeu dentes, comeu papel higiênico e bebeu xixi enquanto esteve preso
Trajetória do ex-presidente revela passado guerrilheiro, prisão brutal, austeridade no poder e alta popularidade
Internacional|Do R7

José “Pepe” Mujica, ex-presidente do Uruguai, morreu nesta terça-feira (13) aos 89 anos. Ícone mundial da esquerda e admirado por seu estilo de vida simples, Mujica teve uma trajetória marcada por episódios extremos que moldaram seu pensamento e sua atuação política.
Ex-guerrilheiro tupamaro, foi detido três vezes, fugiu nas duas primeiras, mas passou 13 anos na prisão sob condições desumanas, perdeu dentes por causa de torturas, comeu sabão e até bebeu a própria urina para sobreviver.
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Vendedor de flores
Nascido em Montevidéu, Mujica perdeu o pai cedo e passou a trabalhar ainda criança vendendo flores. Na juventude, aderiu ao movimento de resistência armada e participou de assaltos e sequestros políticos. Em 1972, foi capturado após reagir a uma abordagem policial com um revólver, sendo baleado com seis tiros. Na prisão, ficou anos em confinamento solitário, sem acesso a livros, luz solar ou higiene básica.
Comeu sabão e papel higiênico
Em seus relatos, Mujica narrou ter comido papel higiênico, sabão e até moscas, além de ter convivido diariamente com ratos em celas apertadas. Com acesso restrito ao banheiro, chegou a gritar da janela do quartel por um penico, escandalizando os presentes num coquetel oficial. Ganhou o direito ao recipiente rosa, que mais tarde usaria para cultivar flores na prisão. Também precisou beber sua própria urina por falta de água potável, segundo relatos de companheiros de cela e do próprio ex-presidente.
Perdeu os dentes na prisão
A experiência carcerária o marcou profundamente. Fisicamente, perdeu os dentes por causa das surras que levou na cadeia. Também sofreu de alucinações e transtornos psiquiátricos, chegando a ser internado no Hospital Militar de Montevidéu. Sua prisão, nunca formalmente julgada, é considerada por historiadores como um sequestro de Estado. Mesmo assim, Mujica nunca demonstrou arrependimento pelas ações enquanto militante armado e, após a redemocratização em 1985, foi um dos principais articuladores do fim da luta armada dos Tupamaros.
Não usava gravatas
Na vida política, foi deputado, senador, ministro da Pecuária e presidente entre 2010 e 2015. Durante o governo, abriu mão da residência oficial e manteve-se vivendo com a esposa em sua chácara nos arredores de Montevidéu, cultivando hortas, flores e dividindo espaço com sua famosa cadela de três patas, Manuela. A simplicidade no vestuário também chamava atenção: rejeitou gravatas e chegou a comparecer a cerimônias com sandálias e calças curtas.
Dirigia um Fusca velho
Sua austeridade pessoal contrastava com o posto mais alto do país. Dirigia um velho Fusca 1982, que chegou a receber oferta milionária de um xeique árabe. Recusou o negócio para preservar o que muitos uruguaios consideravam um símbolo nacional. Em outro gesto simbólico, vendeu a residência presidencial de verão e destinou o valor à construção de moradias populares.
Criticou Cristina Kirchner e Maduro
Apesar de ter legalizado a produção e venda da maconha durante seu mandato, Mujica nunca fumou. “Se para ser livre preciso usar drogas, estou perdido”, disse certa vez. Era conhecido também pelo “sincericídio”: chamou Cristina Kirchner de “velha pior que o caolho” e afirmou que Nicolás Maduro “estava mais louco que uma cabra”. Também não hesitava em falar de si com humor, definindo sua eleição como “o momento em que um leitão assobiou”.
Influenciou América Latina
Mujica deixou a presidência com altos índices de aprovação e se tornou uma figura reverenciada internacionalmente por sua coerência ética e ideológica. Mesmo após deixar a vida pública, continuou influente no cenário político latino-americano. Em 2024, revelou estar com câncer de esôfago. Ao saber da metástase, pediu aos médicos que não prolongassem seu sofrimento. “Meu corpo não aguenta mais”, declarou.
Morreu sem luxos
Nos últimos meses de vida, recebeu cuidados paliativos em casa, assistido pela esposa, Lucía Topolansky. Fiel às convicções de uma vida inteira, morreu como viveu: sem luxo, sem lamentos e com a simplicidade que cativou o mundo. Sua história é um lembrete poderoso de que a política, para alguns, é antes de tudo um ato de resistência.







