Logo R7.com
RecordPlus
‌

O que é ibogaína e o que ela trata?

Droga é ilegal nos EUA, mas há interesse em pesquisas sobre seu potencial para tratar condições de saúde mental

Internacional|Brenda Goodman, Jacqueline Howard e Michal Ruprecht, da CNN Internacional

  • Google News

Adicione como fonte preferencial no Google

Opens in new window

LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Ibogaína é um composto psicoativo extraído de um arbusto africano, utilizado para tratar dependência de opioides e cocaína.
  • Nos EUA, a ibogaína é ilegal, mas há interesse crescente em estudos sobre seu potencial para tratar condições de saúde mental.
  • A administração Trump assinou uma ordem executiva para acelerar pesquisas sobre psicodélicos, incluindo a ibogaína, como tratamentos alternativos.
  • Apesar dos potenciais benefícios, a ibogaína pode causar efeitos adversos graves, como alterações cardíacas, e seu uso requer mais estudos de segurança.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Ibogaína pode aumentar risco de problemas cardíacos Nao Mukadi/AFP/Getty Images via CNN Newsource

A ibogaína, um composto psicoativo extraído das raízes de um arbusto africano, vem ganhando popularidade como tratamento para a dependência de opioides e cocaína.

Há uma nova ênfase nas pesquisas sobre a ibogaína, embora atualmente seja ilegal possuí-la ou prescrevê-la nos Estados Unidos.

‌

Ela também tem atraído mais atenção nas redes sociais, inclusive por parte de Presley Gerber, modelo, defensor da saúde mental e filho da supermodelo Cindy Crawford, que morreu no domingo (20) aos 27 anos em uma clínica de reabilitação na Califórnia.

Veja Também

A morte de Gerber está sendo investigada pelo SMPD (Departamento de Polícia de Santa Monica) como uma “suspeita de overdose”, de acordo com um comunicado à imprensa da agência policial. Nenhuma causa ou circunstância da morte foi confirmada.

‌

Gerber, que era aberto sobre suas lutas contra o uso de substâncias, mencionou a ibogaína em uma publicação no Instagram em março, afirmando na legenda do vídeo: “Dose de Inundação Pré-Ibogaína - momento de tranquilidade antes que tudo mudasse... rezando para que seja a última vez que eu precise voltar”.

A ibogaína é uma das várias drogas psicodélicas que têm recebido atenção séria do governo Trump como potenciais opções de tratamento para pessoas com certas condições de saúde mental.

‌

E elas podem estar se aproximando de receber a aprovação da FDA (Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA).

O presidente Donald Trump assinou uma ordem executiva em abril destinada a acelerar a pesquisa e o acesso a essas drogas, incluindo um investimento de US$ 50 milhões (cerca de R$ 255 milhões, na cotação atual) destinado a governos estaduais para estudar como os psicodélicos podem ajudar pessoas que enfrentam doenças mentais.

‌

A ordem executiva cita especificamente os “compostos de ibogaína” como demonstrando potencial para tratar doenças mentais graves.

O Dr. Marty Makary, que era então comissário da FDA, disse à CNN Internacional em abril que a ibogaína poderia receber aprovação da FDA assim que a agência analisar os dados de ensaios clínicos em estágio avançado.

“Estes são tratamentos potencialmente promissores”, disse ele. “Veremos o que os dados apontam quando recebermos os pedidos, mas não queremos perder tempo, porque este é um assunto urgente, diante da crise de saúde mental”.

Como o psicodélico é regulamentado

A ibogaína e alguns outros psicodélicos são classificados como substâncias da Lista 1 pela DEA (Administração de Repressão às Drogas dos EUA), uma designação que o governo federal utiliza para substâncias que considera não terem uso médico atualmente aceito e apresentarem alto potencial de abuso.

Em casos raros, ela também pode alterar os ritmos elétricos do coração, levando à parada cardíaca e morte súbita.

Mas “a FDA possui um sistema com a DEA pelo qual, quando um medicamento se torna aprovado pela FDA e a agência estabelece critérios claros, ele pode ser administrado com uma desclassificação temporária isenta dessas regras de fiscalização, pois é fornecido em ambiente hospitalar ou ambulatorial sob supervisão médica”, afirmou Makary no início deste ano.

“Se forem aprovados, não serão o tipo de medicamento que você simplesmente retira na farmácia. Eles são administrados em um ambiente controlado e supervisionado dentro de um hospital.”

Em abril, a FDA aceitou um pedido de IND (Novo Medicamento em Investigação) para uma droga que utiliza um derivado da ibogaína, o qual os pesquisadores esperam que ofereça os benefícios do composto original, mas sem a viagem alucinógena ou a potencial toxicidade cardíaca.

A Dra. Kirsten Cherian, pesquisadora da Universidade de Stanford que liderou um estudo pioneiro sobre a ibogaína, chamou a ordem executiva de “grande passo”, acrescentando que isso pode abrir caminho para oferecer o tratamento em centros de pesquisa norte-americanos.

“O primeiro passo é conseguir fazer a pesquisa internamente”, disse ela. “E isso pode abrir muitas possibilidades de estudo. É, de certa forma, um momento empolgante”.

História da ibogaína

O composto, extraído da planta iboga na África Central, há muito tempo é utilizado para reduzir a fissura por opioides e tratar sintomas de depressão profunda, ansiedade e TEPT em veteranos.

Antropólogos situam sua descoberta entre o povo pigmeu na África Central, que via a ibogaína como um instrumento sagrado dado por Deus, permitindo a reconexão com o divino e com os mortos.

Durante o período colonial, à medida que as estruturas indígenas eram desestruturadas, o composto proporcionava às comunidades da região um senso de união e vivência compartilhada.

Anos mais tarde, em 1962, a ibogaína foi apresentada por pesquisadores nos EUA como um tratamento potencial para transtornos por uso de substâncias.

Os primeiros resultados mostraram-se promissores, mas os psicodélicos eram vistos como controversos e, de modo geral, os cientistas o “abandonaram”, disse o Dr. Arnt Schellekens, que estuda o composto na Universidade Radboud, nos Países Baixos.

Em 1967, a DEA classificou a ibogaína como uma substância controlada da Lista 1, tornando seu uso ilegal.

Nos últimos anos, a substância reuniu vários apoiadores notórios, incluindo o ex-governador do Texas Rick Perry, a ex-senadora pelo Arizona Kyrsten Sinema e o apresentador de podcast Joe Rogan.

Quando Trump assinou a ordem executiva este ano, ele convidou Rogan para falar sobre a iniciativa.

“Quero contar a todos como isso aconteceu”, disse Rogan do Salão Oval. “Enviei algumas informações ao presidente Trump”.

“A mensagem de texto que veio em resposta”, declarou Rogan, “dizia: ‘parece ótimo, você quer a aprovação da FDA? Vamos em frente’”. Ele acrescentou que foi “literalmente rápido assim”.

Como funciona

As pesquisas iniciais sugerem que a ibogaína pode modificar certas vias neurais, potencialmente levando a melhorias em algumas condições de saúde mental, incluindo TEPT, ansiedade ou depressão.

Pessoas submetidas ao tratamento com ibogaína normalmente relatam uma fase “visual” inicial que dura de uma a quatro horas, seguida por uma etapa “introspectiva” que pode se estender por várias horas até dias.

Durante esse período, o cérebro torna-se mais maleável e capaz de formar novas conexões, segundo Cherian.

“Ela atua em múltiplos sistemas de neurotransmissores”, explicou Cherian, ressaltando que seus efeitos são mais intensos do que os de outros psicodélicos, como a psilocibina e o LSD.

“Isso contribui para reorganizar, de certa forma, as redes cerebrais”.

Acredita-se que esses mecanismos estejam por trás de alguns dos benefícios decorrentes do tratamento. Contudo, Schellekens alerta que ainda há muito o que descobrir sobre a substância e que as evidências para sua utilização continuam “modestas”.

“Ainda não chegamos lá”, complementou ele, enfatizando que os tratamentos convencionais de saúde mental, como psicoterapia e medicamentos sob prescrição médica, continuam sendo a opção recomendada.

Riscos da ibogaína

Sabe-se que o alucinógeno eleva o risco de arritmias cardíacas e alterações no ritmo do coração, além de poder provocar vômitos.

Diversas mortes foram associadas à ingestão de ibogaína, embora nem sempre esteja evidente se a substância em si, condições prévias de saúde ou outros fatores tenham sido a causa direta.

“Ela é um pouco romantizada”, observou Schellekens. “Mas buscar o tratamento com ibogaína pode ser extremamente arriscado. Como cientista e médico, permaneço sempre muito cauteloso diante desse tipo de substância”.

É por essa razão que ele destaca a urgência de mais estudos para elucidar seu perfil de segurança.

Para pacientes, familiares e profissionais que enfrentam os dilemas da saúde mental, restam dúvidas se os potenciais ganhos da ibogaína superam seus perigos — e para quais perfis específicos.

Quem está usando

Um número crescente de veteranos de guerra tem recorrido à ibogaína, com muitos buscando tratamento para lesões cerebrais traumáticas.

A intervenção frequentemente é realizada no México — onde não existe regulamentação sobre o composto — e se apresenta como a última esperança para diversos indivíduos que não obtiveram sucesso com abordagens tradicionais.

“Informalmente, tomamos conhecimento de veteranos viajando para clínicas de ibogaína no exterior quando sentem que as abordagens convencionais não surtiram efeito em suas condições”, relatou o Dr. Fayzan Rab, médico residente da Faculdade de Medicina da Universidade Emory, em um e-mail no início deste ano.

Charles Graham Jr., veterano que foi diagnosticado com transtorno depressivo não especificado, realizou o tratamento com ibogaína no México.

“Nunca senti uma paz semelhante em toda a minha vida”, disse Graham à CNN Internacional dois dias depois.

“Não afirmo que tudo se resolveu do dia para a noite, mas isso me deu a capacidade de romper os ciclos que me mantinham refém”.

A adesão ao método entre ex-militares impulsionou entidades de apoio, como a VETS, cofundada por Amber Capone há sete anos.

Ela afirma que sua entidade já financiou e apoiou o tratamento com a substância — que pode ultrapassar o custo de US$ 5 mil (cerca de R$ 25,5 mil, na cotação atual) — para mais de 1.300 veteranos.

“Os veteranos recebem intervenções defasadas para suas feridas invisíveis”, pontuou Capone.

Seu marido, também veterano que sofria com TEPT e ideação suicida, submeteu-se ao tratamento em 2017. “Parecia verdadeiramente uma última cartada e, de um dia para o outro, nossa rotina foi completamente modificada”.

De forma geral, os especialistas esperam avançar no conhecimento por meio de novos estudos para definir com exatidão os pontos positivos e os perigos da ibogaína.

“Vemos com entusiasmo qualquer foco em nível federal para formular novas alternativas terapêuticas destinadas a quem enfrenta TEPT e dependência de opioides. São grupos que com frequência ficam desassistidos pelo que temos atualmente disponível”, observou Rab.

“Terapias inéditas merecem avaliação criteriosa e prazo suficiente para demonstrar sua eficiência”.

O que o futuro reserva

A reação ampla à ordem assinada por Trump gerou “opiniões divididas”, pois, enquanto certos especialistas expressaram otimismo, outros manifestaram ressalvas sobre a urgência de conduzir pesquisas adicionais sobre os impactos e benefícios dos psicodélicos, além do temor de que os US$ 50 milhões (cerca de R$ 255 milhões, na cotação atual) repassados pela determinação aos governos estaduais não sejam o bastante para sustentar as apurações, explicou Melissa Lavasani, fundadora e presidente-executiva da PMC, grupo de conscientização voltado a estruturar a entrada segura e regular de medicamentos psicodélicos na medicina tradicional.

“Os US$ 50 milhões representam uma excelente base inicial. Contudo, temos clareza de que levantamentos científicos sobre psicodélicos são expressivamente caros para executar, até porque a vivência psicodélica consome muito tempo. É preciso estar em um ambiente clínico”, pontuou ela, ressaltando que boa parte dos estados habitualmente não dispõe de capacidade operacional ou verba para gerir pesquisas em escala comparável à do governo central.

“Muitas administrações estaduais não têm o porte exigido para tocar estudos abrangentes que esses compostos demandam e, a rigor, os aportes deveriam se originar na esfera federal, unicamente pelo custo expressivo que carregam”, acrescentou Lavasani.

“Com sorte, esses US$ 50 milhões funcionarão como incentivo para que outras entidades provedoras de subsídios comecem a custear apurações mais amplas”.

A determinação executiva também orientou a FDA a emitir vouchers de prioridade nacional para determinados psicodélicos. O programa-piloto de Vouchers de Prioridade Nacional do Comissário da FDA, apresentado no ano passado, foi formulado como um atalho para dar celeridade às avaliações de substâncias e compostos biológicos candidatos à regulamentação.

“Trata-se de desatar nós internos na burocracia governamental para garantir que os processos caminhem com agilidade e que algumas análises fiquem prontas muito mais rápido, pavimentando o rumo para a chancela da FDA”, disse Lavasani, frisando que, anteriormente à diretriz presidencial, companhias do segmento psicodélico tentaram obter trâmite acelerado e tiveram os pedidos rejeitados.

Dias após a promulgação da ordem, a FDA concedeu títulos de prioridade nacional para laboratórios que pesquisam o uso da psilocibina voltada à depressão resistente e ao transtorno depressivo maior, além da metilona voltada ao tratamento de estresse pós-traumático.

“Isso é expressivo porque acelera o alcance. Agiliza a chegada das substâncias ao mercado e pode abrir discussões cruciais sobre formato de cobertura por planos de saúde e preparo da rede médica”, completou Lavasani.

“A discussão não é se a equipe de Trump vai chancelar psicodélicos via FDA, mas sim ‘quando acontecer, qual a nossa preparação para isso?’. O objetivo é viabilizar uma adoção adequada, assegurar o acesso, oportunizar a inclusão em convênios e desenvolver diretrizes, capacitações e certificações”.

Ela resumiu que “o trajeto demandará tentativas e ajustes, não sendo algo imediato. Mesmo amparado por uma decisão executiva, o processo todo exige tempo considerável”.

Search Box

Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da RECORD, no WhatsApp

Siga R7 no Google e fique por dentro de tudo que acontece

Seguir no Google

Últimas

‌

Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.