Quem é o empresário chinês que está no centro do escândalo que ameaça o presidente do Peru?
Escândalo apelidado de “Chifagate” gerou investigações e moções de censura contra José Jerí
Internacional|Jimena De La Quintana, da CNN Internacional
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O futuro do presidente do Peru, José Jerí, será determinado por um jantar ocorrido em 26 de dezembro passado, que passou de um encontro fora do radar para o foco do principal debate no Peru hoje e de manchetes em veículos de comunicação de todo o país e do mundo.
Nesse dia, Jerí encontrou-se em um restaurante chinês em Lima com Zhihua Yang, um empresário de origem chinesa.
As imagens que desencadearam a crise política no Peru e que ameaçam a continuidade do mandatário mostram-no com um capuz entrando no estabelecimento.
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O presidente teve outro encontro com Yang, em 6 de janeiro, em um local de venda de produtos chineses, ao qual chegou com óculos escuros. Nenhuma dessas reuniões estava nos registros da presidência.
Em um vídeo gravado na madrugada de 18 de janeiro que foi divulgado pela presidência, e perante o Congresso que investiga as reuniões para determinar por que ocorreram, o mandatário reconheceu que se encontrou ali com Zhihua Yang, proprietário de ambos os negócios, e pediu desculpas pela forma como entrou.
O “Chifagate” tornou-se o centro das atenções.
No entanto, ele negou qualquer ato irregular e disse que foram encontros “circunstanciais”.
Jerí disse perante a Comissão de Fiscalização do Congresso que conhece o empresário desde 2024 e reconheceu que Yang tem uma concessão outorgada pelo Estado a uma de suas empresas.
A concessão à Hidroelétrica América consta em uma resolução do MEM (Ministério de Energia e Minas) publicada em fevereiro de 2023, embora o mandatário tenha descartado que essas reuniões estivessem vinculadas a este negócio.
Agora o “Chifagate”, assim chamado pela forma como se denomina a comida peruana de raízes chinesas no Peru, coloca em risco a presidência de Jerí.
E, como se não bastasse, ao caso somaram-se comentários de Bernie Navarro, o novo embaixador dos EUA em Lima, que em 29 de janeiro e após aterrissar na capital parece ter feito alusão à crise política quando disse que comeria “chifa”.
A crise no Peru, que desde 2016 teve sete presidentes, levou o Ministério Público a abrir uma investigação contra Jerí e o empresário chinês.
Além disso, no Congresso foram apresentadas várias moções de censura para afastá-lo da presidência, que serão votadas nesta terça-feira (17).
A CNN Internacional contatou o Ministério Público, que confirmou a investigação, mas não detalhou os crimes imputados a Jerí.
Várias perguntas são centrais na investigação: Quem é o empresário chinês que se reuniu com o presidente? Teve influência em algum dos contratos que empresas chinesas assinaram nos últimos anos com o Estado peruano?
Essas interrogações, por sua vez, alimentam a tensão por um dos maiores desafios do Peru hoje: equilibrar-se entre a China, um dos maiores parceiros financeiros e comerciais do país, e os EUA, que lançam cada vez mais advertências pelas relações sino-peruanas.
A CNN Internacional tentou em várias ocasiões contatar o empresário chinês por telefone e através de seu e-mail, mas não recebeu resposta.
Zhihua Yang também não compareceu à comissão do Congresso para a qual foi convidado e na qual Jerí se apresentou, conforme disse em uma carta enviada a este grupo de trabalho, devido ao fato de seu caso já estar sendo investigado pelo Ministério Público.
Jerí disse perante o Congresso que conhece o empresário chinês desde 2024 por motivos sociais. Mas um dado relevante para a pesquisa é que dois anos antes, em 2022, como congressista, o agora mandatário fez parte de uma comissão investigadora, em cujo relatório final aparece o nome de Zhihua Yang.
A CNN Internacional tentou também contatar o escritório presidencial, mas não recebeu resposta.
Na página 4 do relatório final da comissão, assinala-se que o grupo de trabalho foi criado para investigar “as irregularidades nas licitações e obras realizadas pelas empresas chinesas” convocadas por várias entidades do Estado peruano, de 2018 até 2022. Esse grupo de empresas investigadas é conhecido como o “Clube da construção chinês” ou “Clube do Dragão”.
Segundo o documento, Zhihua Yang operava como “suporte operacional e logístico das empresas estatais chinesas sob investigação”.
A comissão, que analisou contratos assinados por 13 empresas chinesas e o Estado peruano, sustenta que se “identificou um padrão de terceirização da execução” através do qual “as grandes estatais chinesas delegam a operatividade” a outras empresas.
“A evidência sugere que as empresas vinculadas ao cidadão Zhihua Yang” operaram “como uma engrenagem facilitadora do modus operandi das 13 empresas chinesas investigadas”.
A informação pública existente indica que Yang é um empresário vinculado a autoridades tanto chinesas quanto peruanas. Emissoras como a CCTV (China Central Television) publicaram reportagens sobre Zhihua Yang, uma delas em 2014, sob o título “De vendedor ambulante a empresário de sucesso”. A CNN Internacional tentou contatar Yang, mas não obteve resposta.
Em 2016, Zhihua Yang deu uma entrevista na qual uma frase chama a atenção. O artigo publicado pela Associação de Chineses no Exterior da província de Fujian, intitulado “Yang Zhihua: A luta e o sonho no exterior”, assinala: “Ele nos diz que, seja no âmbito comercial ou no da comunidade chinesa no exterior, é importante seguir um princípio: aproximar-se do governo e manter-se afastado da política".
O texto acrescenta que “muitos funcionários do governo local são seus amigos”.
Refere-se a um em particular, que seria Felix Murazzo, ministro do Interior do governo de Alejandro Toledo em 2005. “Conheci Félix em 1998, quando ainda não era ministro, era um policial com a patente de tenente-coronel”, diz. E acrescenta que “em 2007, convidou Félix, então ministro do Interior, para visitar a China”.
Diante da consulta da CNN Internacional, Murazzo disse que viajou para Fujian junto com sua esposa “a convite do senhor Johny Yang (também conhecido como Zhihua Yang)”.
No entanto, o ex-ministro acrescentou que a viagem foi financiada por ele mesmo e por sua esposa depois de terem deixado seus cargos oficiais.
“Conhecemos o senhor Johny Yang há muitos anos. Pessoalmente, tenho a percepção de que é um empresário estrangeiro, chinês, com experiência e com raízes no Peru. Tem três filhos que criou aqui no Peru e eu confio que isso se resolva, se esclareça, pelo bem dele e pelo bem do país”, acrescentou Murazzo em sua resposta à CNN Internacional.
Além do que foi dito naquela entrevista, Zhihua Yang teve acesso ao poder em repetidas ocasiões. Não apenas esteve com o presidente Jerí em seu restaurante e em sua loja, mas também compareceu ao Palácio do Governo.
No entanto, segundo disse o secretário-geral do Gabinete Presidencial, Benito Villanueva, perante o Congresso, nas quatro vezes em que compareceu, entre 24 de outubro de 2025 e 5 de janeiro de 2026, não se reuniu com o presidente Jerí.
Zhihua Yang também esteve no Palácio do Governo em 14 de novembro de 2024, dia em que a então presidente, Dina Boluarte, inaugurou junto ao presidente chinês, Xi Jinping, o porto peruano de Chancay, de capitais chineses e peruanos, conforme pôde corroborar a CNN Internacional.
O empresário chinês também conhece funcionários do governo chinês. Zhihua Yang nasceu em uma pequena aldeia da província de Fujian, na China, em 16 de fevereiro de 1972, segundo o artigo publicado pela Associação de Chineses no Exterior da província de Fujian.
O texto indica que o empresário, que cresceu em uma família de comerciantes, chegou a Lima em 14 de junho de 1993 e começou a trabalhar na cozinha de um restaurante de comida chinesa.
Após ensinar chinês e tentar vários negócios, abriu uma barraca de comida, depois da qual vieram vários restaurantes, uma empresa de importação e um supermercado chinês.
Uma das sedes do Market Capón, a loja de produtos chineses de propriedade de Yang, que o presidente Jerí visitou com óculos escuros em janeiro.
Zhihua Yang é membro de uma comunidade extensa no Peru. O país e o Brasil concentram a maior população chinesa na América Latina, tanto cidadãos nascidos na China quanto descendentes de imigrantes, segundo a BCNC (Biblioteca do Congresso Nacional do Chile).
O “chifa” é muito popular no Peru, enquanto o Bairro Chinês de Lima é um dos seus locais mais visitados.
Peru e Brasil são também os dois países que recebem a maior quantidade de IED (Investimento Estrangeiro Direto) da China.
Segundo o CECHIP (Centro de Estudos sobre China e Ásia-Pacífico) da Universidade do Pacífico, entre 2000 e 2022 o investimento chinês acumulado no Peru superou os US$ 38 bilhões (R$ 190 bilhões de reais, cotação atual).
Além disso, a China é hoje o principal parceiro comercial do país, após deixar para trás os EUA, que detinham esse título até antes de 2011.
A influência chinesa não passa despercebida em Washington. O crescente investimento da China no Peru e as reuniões do presidente Jerí com Zhihua Yang motivaram algumas intervenções do novo embaixador dos EUA em Lima, Bernie Navarro.
O diplomata falou em comer “chifa” e em uma “mudança de menu”, frase que acompanhou com uma foto sua comendo um hambúrguer com o presidente Jerí.
A declaração de maior impacto chegou na quarta-feira (4), através da conta no X (antigo Twitter) do Departamento de Estado dos EUA, sobre o porto de Chancay.
“O Peru poderia ficar sem o poder de supervisionar Chancay”, diz o comunicado, que apoia “o direito soberano do Peru de supervisionar a infraestrutura crítica em seu próprio território” e adverte que “o dinheiro chinês barato custa soberania”.
O Departamento referia-se à recusa dos proprietários do porto de que este seja supervisionado por um órgão local.
Na quinta-feira (5), o governo chinês respondeu: “A China opõe-se firmemente e deplora a falsa acusação e a desinformação dos Estados Unidos contra o porto de Chancay”.
Segundo o CECHIP (Centro de Estudos sobre China e Ásia-Pacífico) da Universidade do Pacífico, existiam 210 empresas chinesas no Peru entre 1992 e 2022.
Cerca de 49% “das empresas chinesas matrizes identificadas no Peru são estatais ou pertencem a uma empresa matriz estatal na China”.
O porto de Chancay não é o único investimento importante no país. Segundo o livro “De Marcona a Chancay”, na “América Latina, o Peru tem sido o país mais atrativo para os investimentos chineses em mineração metálica e recebeu 54% do total investido pela China neste setor; as empresas chinesas geram cerca de 25% da produção de cobre do país, quase 100% do ferro e uma porção significativa dos hidrocarbonetos”.
O setor elétrico também tem sido atrativo para os chineses. A distribuição de eletricidade na Região Metropolitana de Lima é controlada por duas empresas de capitais chineses.
Uma delas é a Pluz Energía (CSGI (China Southern Power Grid International), uma subsidiária da CSGP (China Southern Power Grid)); a outra é a Luz del Sur (CYPI (China Yangtze Power International)).
As empresas chinesas também têm presença no setor de construção. As denúncias da CAPECO (Câmara Peruana da Construção) e de veículos de comunicação peruanos sobre supostas irregularidades forçaram a formação da comissão investigadora do Congresso, da qual o presidente Jerí fez parte quando era congressista.
A presença dessas construtoras aumentou, segundo o livro, após o escândalo da Odebrecht e do Clube da Construção (empresas nacionais denunciadas por suposto conluio na distribuição de obras públicas junto a empresas brasileiras) e depois que várias companhias se retiraram do mercado.
Isso não é tudo. O Palácio do Governo confirmou que, desde 2024, utiliza equipamentos de “sistema de inspeção” doados pela Nuctech, uma empresa chinesa questionada pelos EUA que, em 2020, a incluiu em uma lista de entidades sujeitas a requisitos de licença mais rigorosos “por sua participação em atividades contrárias aos interesses de segurança nacional dos Estados Unidos”.
Esta terça-feira é um dia crítico para o presidente Jerí, cujo futuro será decidido no Congresso, que tem em suas mãos a possibilidade de destituí-lo do cargo em decorrência da crise desencadeada por seus encontros com o empresário Zhihua Yang.
O último prato ainda não foi servido.
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