Saída apressada de Trump da guerra do Irã pode não encerrar o conflito
Sair sem um acordo deixaria os Estados do golfo vulneráveis a ataques iranianos
Internacional|Abbas Al Lawati, da CNN Internacional
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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está sinalizando que pode se afastar da guerra com o Irã, saindo unilateralmente sem derrubar a República Islâmica, abrir o estreito de Ormuz ou garantir um acordo com Teerã para interromper os ataques contra os EUA e seus aliados.
O presidente vangloriou-se de que a “parte difícil já foi feita” e está otimista de que tal medida aliviaria a dor econômica que os ataques do Irã ao transporte marítimo e à infraestrutura de energia do golfo Pérsico causaram aos consumidores nos EUA e em todo o mundo.
Mas o Irã insistiu que escolherá quando a guerra termina e não mostra sinais de desistir até que os EUA concordem com suas exigências.
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Teerã rejeita “deadlines (prazo final)” e está preparada para lutar por “pelo menos seis meses”, disse o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, na terça-feira (31).
Eis por que a parte difícil da guerra pode estar longe de terminar:
Um regime iraniano fortalecido em posse de material nuclear
Trump declarou na terça-feira que seu “one goal (único objetivo)” de impedir o Irã de desenvolver uma arma nuclear “foi alcançado”. Os EUA bombardearam várias instalações nucleares iranianas, mas mais de 400 quilogramas de urânio altamente enriquecido que poderiam ser usados para fabricar uma bomba estão desaparecidos.
Apesar da afirmação de Trump de que as “pessoas muito diferentes” que agora governam o Irã são “muito mais razoáveis”, especialistas têm motivos para acreditar que o Irã agora tem mais probabilidade de buscar uma bomba do que antes da guerra.
O líder supremo anterior, Ali Khamenei, que havia emitido uma fatwa proibindo seu desenvolvimento, foi morto pelos EUA e por Israel.
Agora, os linha-dura no país exigem a militarização do programa nuclear, argumentando que o status do Irã como um estado de limiar nuclear não foi um impedimento eficaz para evitar ataques.
Tendo falhado em derrubar a República Islâmica, os EUA estariam deixando no lugar um regime significativamente mais linha-dura, onde os líderes civis estão sendo minados pelo IRGC (Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica).
Os Guardas provavelmente tornarão o Irã ainda mais recluso e aumentarão significativamente a repressão às liberdades e à dissidência.
Caos econômico global continua e Ormuz é transformado em arma
Uma saída antecipada da guerra com o Irã equivaleria efetivamente a um reconhecimento do fracasso de Washington em abrir o estreito de Ormuz por meio de pressão diplomática ou militar.
Trump disse que os preços da gasolina vão cair após uma saída dos EUA, argumentando que, como os EUA importam relativamente pouca energia do Oriente Médio, a segurança da via navegável deve recair sobre aqueles que o fazem.
Mas os mercados não funcionam dessa forma. O preço que os americanos pagam na bomba é definido no mercado global, independentemente de onde o combustível é originado, e um choque de oferta – se não for resolvido – ainda empurraria os preços para cima nos EUA.
Sair sem um acordo para reabrir o estreito entregaria efetivamente ao Irã uma vitória na imposição de sua soberania sobre a via navegável, dando-lhe uma alavancagem imensa sobre a economia mundial e muito mais poder do que exercia anteriormente.
A triagem de navios feita pelo Irã que passam pelo estreito e sua relatada imposição de pedágios de até US$ 2 milhões (cerca de R$ 10,3 milhões, cotação atual) por navio corre o risco de se tornar a nova norma – criando um novo fluxo de receita enquanto Teerã trava uma guerra que mostrou pouca intenção de encerrar.
A consolidação do controle do Irã poderia, paradoxalmente, permitir que mais petróleo fluísse se mais estados optassem por buscar permissão de Teerã para transitar pelo estreito, oferecendo algum alívio aos preços crescentes.
Mas isso abriria um precedente com pouca base no direito internacional e levantaria sérias questões sobre a eficácia da ordem marítima baseada em regras.
E especialistas dizem que, mesmo que a oferta de petróleo retorne, pode levar semanas — até meses — para que os preços mais baixos cheguem às bombas.
Segurança do Golfo deixada sem solução
O Irã quebrou dois tabus com seus vizinhos árabes do Golfo durante a guerra: lançou ataques diretos contra seus territórios pela primeira vez, punindo-os pelas ações de seu aliado americano, e efetivamente fechou Ormuz para seus carregamentos de petróleo, privando-os de uma tábua de salvação econômica.
Ambos são vistos pelos estados do Golfo como existenciais, e uma saída rápida da guerra sem um acordo poderia deixá-los expostos a ataques repetidos por anos.
Também daria ao Irã uma alavancagem significativa sobre eles, permitindo-lhe ditar os termos sob os quais eles podem exportar petróleo, mantendo a ameaça de novos ataques de mísseis em suas cidades se eles se recusarem a cumprir com uma República Islâmica cada vez mais beligerante.
Também é provável que levante questões sobre a barganha implícita que vincula o investimento do golfo e o alinhamento estratégico à proteção contínua dos EUA.
Quando Trump visitou o Catar como parte de sua primeira viagem programada em seu segundo mandato, ele declarou que “nós vamos proteger você”, enquanto os estados do golfo prometiam trilhões de dólares em investimentos nos EUA.
Uma saída apressada que deixe os estados do Golfo por conta própria seria provavelmente vista como uma traição a essa promessa.
Israel pode continuar a atacar o Irã e o Líbano
Onde uma saída apressada dos EUA da guerra deixa Israel pode moldar a trajetória da guerra. Tanto no Líbano quanto em Gaza, Israel continuou a atacar adversários após concordar com cessar-fogos, citando violações do outro lado.
Sinalizou no início do último conflito com o Irã que estava tentando enfraquecer fundamentalmente – se não derrubar – o regime iraniano, e uma saída americana com a República Islâmica intacta poderia deixá-la com o que vê como negócios inacabados.
Mas Washington mostrou anteriormente que pode conter Israel quando decide fazê-lo.
Durante a última guerra Israel-Irã em junho de 2025, quando Trump agiu para encerrar o conflito, ele disse ter forçado Israel a chamar de volta caças que já estavam a caminho para atacar o Irã.
E mesmo que Israel interrompa seus ataques ao Irã, não há garantia de que Teerã retribuirá.
Tendo sido alvo de Israel duas vezes no espaço de um ano, o Irã provavelmente buscará garantias de que não será atacado novamente, algo que dificilmente se concretizará sem um fim formal e negociado para a guerra.
O Irã também insistiu repetidamente em um acordo abrangente que poria fim aos combates no Líbano. É improvável que uma saída dos EUA resolva essa frente.
Israel intensificou sua campanha lá após ataques do Hezbollah em apoio ao Irã, e planeja achatar e manter áreas do sul do país até julgar que a ameaça do Hezbollah foi eliminada.
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