Thatcher derrotou Argentina e ajudou mundo a superar Guerra Fria
Conhecida como Dama de Ferro, a ex-primeira-ministra britânica morreu hoje após sofrer um AVC
Internacional|Do R7

Margaret Thatcher, a "Dama de Ferro" da política britânica que assumiu o poder depois de 35 anos de socialismo, que ganhou a Guerra das Malvinas e ajudou os EUA e a União Soviética a superarem os últimos anos da Guerra Fria, morreu nesta segunda-feira (8), aos 87 anos.
"É com grande pesar que Mark e Carol Thatcher anunciaram que sua mãe, a Baronesa Thatcher, morreu esta manhã em consequência de um AVC", foi a nota de seu porta-voz, Lorde Tim Bell.
Thatcher foi a primeira mulher a se tornar premiê da Grã-Bretanha e a primeira a governar uma grande potência ocidental em tempos modernos. Enérgica e teimosa, ela venceu três eleições seguidas para os conservadores, ficando no poder de maio de 1979 a novembro de 1990 — mais tempo que qualquer outro político britânico no século 20.
O remédio amargo que administrou à economia de um país enfraquecido pela inflação, pelos déficits orçamentários e pela comoção industrial lhe rendeu uma popularidade extremamente oscilante, culminando com uma revolta dentro de seu próprio gabinete e gritos de "Não! Não! Não!" na Câmara dos Comuns contra uma integração maior com a Europa.
Entretanto, na época em que deixou o governo, o conjunto de princípios conhecido como thatcherismo — tese de que a liberdade econômica e as liberdades individuais são interligadas, que a responsabilidade pessoal e o trabalho árduo são as únicas soluções para a prosperidade nacional e que as democracias de mercado livre devem se defender com firmeza das agressões — tinha feito escola. Até seus críticos mais ferrenhos passaram a respeitá-la, ainda que com má vontade.
Internamente, seus sucessos políticos foram decisivos. Acabou com o poder dos sindicatos e forçou o Partido Trabalhista a abandonar seu compromisso com a indústria estatizada, redefinir o papel do estado do bem-estar social e aceitar a importância do mercado livre.
No exterior, ela recuperou a estima por um país que estava em declínio desde a onerosa vitória na Segunda Guerra Mundial. Depois de deixar o poder, foi homenageada com o título de Baronesa Thatcher de Kesteven, embora durante os primeiros anos de governo até os conservadores temessem que sua eleição tivesse sido um erro terrível.
Veja a trajetória de Margareth Thatcher
Conheça algumas das frases mais famosas de Margaret Thatcher
Leia o perfil da BBC sobre a Dama de Ferro
Em outubro de 1980, um ano e cinco meses após o início do primeiro mandato, Thatcher enfrentou um desastre: havia mais empresas fechando as portas e mais gente desempregada do que em qualquer outra época desde a Crise de 1929.
As tensões sociais e raciais chegaram a um ponto tão alarmante que até seus assessores mais próximos começaram a achar que suas tentativas de estancar a inflação, promover privatizações e desregular a economia seria catastrófica para os pobres, desestabilizaria a classe média e geraria um verdadeiro caos.
Na conferência do Partido Conservador daquele mês, os moderados reclamaram que estavam sendo liderados por uma ideóloga que não conhecia nada da vida real nem das exigências do modelo "realpolitik". Com o perigo iminente de uma derrota eleitoral, os membros do gabinete diziam que a hora era de uma solução de compromisso.
Para Thatcher, eles estavam completamente errados. "Não sou política de consenso", ela costumava dizer. "Sou política de convicção."
Em seu discurso ao partido, ela brincou com o título da famosa peça de Christopher Fry, The Lady's Not for Burning (A Senhora Não Vai Se Queimar), insistindo em levar adiante suas políticas. "Mudem de opinião, se quiserem", ela disse ao público, "mas a senhora não vai mudar".
Sua determinação valeu a pena. A revolta partidária não aconteceu, seus membros se aquietaram e Thatcher conquistou grandes vitórias: conseguiu que os conservadores, há muito associados com o "status quo", se transformassem no partido das reformas. Suas medidas revitalizaram as empresas britânicas e geraram crescimento industrial e da classe média.
Já o terceiro mandato, porém, foi marcado por problemas: divergências em relação à política monetária, aos impostos e à posição da Grã-Bretanha na Comunidade Europeia (que mais tarde se transformaria na União Europeia) fizeram com que abrisse mão de conquistas importantes em relação à inflação e ao desemprego. Na época em que foi deposta por outra revolta interna — dessa vez devido à sua teimosia em expandir o papel do país na União Europeia — a economia estava em recessão e sua reputação, manchada.
Para seus inimigos, ela era — como Denis Healey, Ministro das Finanças do governo de Harold Wilson a chamava — "A Defensora do Privilégio", uma mulher que criticava os males da pobreza, mas era dura e insensível em relação às agruras dos que nada tinham. Suas políticas, diziam seus oponentes, eram cruéis e míopes, servindo para aumentar o abismo entre pobres e ricos e tornando a vida dos miseráveis ainda pior.
Meryl Streep diz que Thatcher foi uma pioneira
Sua hostilidade irremediável em relação à União Soviética e insistência em pedir a modernização das forças nucleares britânicas geraram temores de uma guerra nuclear e preocuparam até os mais moderados. Como era de se esperar, também chamou a atenção do Kremlin. E depois de um discurso linha-dura, em 1976, a agência de notícias estatal Tass lhe deu o apelido de que se orgulhava muito: Dama de Ferro.
Apesar disso, quando viu uma oportunidade, mostrou-se disposta a ceder: foi uma das primeiras líderes ocidentais a reconhecer que os soviéticos logo seriam liderados por Mikhail S. Gorbachev e o convidou a visitar a Grã-Bretanha. Ele visitou Chequers, a casa de campo e residência oficial da primeira-ministra, em dezembro de 1984, três meses antes de assumir o poder. "Eu gosto do Sr. Gorbachev", ela declarou. "Podemos fazer muitos negócios."
Graças à boa relação com o novo líder soviético e à amizade que mantinha com o presidente norte-americano Ronald Reagan, foi elo essencial entre a Casa Branca e o Kremlin nas negociações tensas para suspensão da corrida armamentista dos anos 80.
Brusca e contestadora, raramente fazia concessões e odiava se comprometer. Colegas que discordavam dela geralmente acabam afogados num mar de fatos, ou como muitos diziam, "tomavam uma bolsada".
"Ela tinha padrões muito altos e esperava que todo mundo trabalhasse direito", John O'Sullivan, assessor especial da primeira-ministra, disse em 1999.
— Havia, porém, uma diferença: era mais dura com os ministros que com os empregados. Quanto mais humilde a posição, mas gentil era com a pessoa.
Apesar de ser a primeira mulher a liderar um grande partido político no Ocidente, provocou a ira de muitas feministas. "A batalha pela conquista dos direitos das mulheres já está praticamente ganha", ela declarou. "Odeio o tom estridente vindo de algumas ativistas mais radicais."
E se gabava de ser independente. "Você não segue a maioria", ela dizia, "simplesmente toma suas próprias decisões".
Os setores de artes e ciências a odiavam pelos cortes nos financiamentos, além de considerar seus gostos provincianos e seus valores, tacanhos. Em 1985, dois anos depois do início do segundo mandato, foi sugerido que ela recebesse o título de doutora honorária de Oxford, honraria tradicionalmente oferecida a primeiros-ministros que cursaram universidade, como ela. A proposta, depois de muito discutida, foi rejeitada.
Entretanto, sua popularidade se manteve em alta.
"Margaret Thatcher evoca sentimentos extremos", escreveu Ronald Millar, dramaturgo e autor de discursos da primeira-ministra. "Para alguns, não fazia nada certo; para outros, nada errado. Ninguém lhe era indiferente. Ela conseguia instilar uma hostilidade quase física em pessoas normalmente racionais ao mesmo tempo em que inspirava uma devoção cega em outras."
O que acontece no mundo passa por aqui
Moda, esportes, política, TV: as notícias mais quentes do dia











