‘Tinha medo que me matassem’, diz ex-preso político que deixou a Venezuela
Governo ainda não divulgou as identidades dos detidos liberados nos últimos dias
Internacional|Gonzalo Zegarra, da CNN Internacional
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O governo venezuelano, que alega ter libertado mais de 100 pessoas nos últimos dias, ainda não divulgou suas identidades nem os centros de detenção onde estavam presas. Essas informações só foram reveladas por diversas ONGs.
O governo também não forneceu detalhes sobre um aspecto fundamental do processo: a situação jurídica dos libertados. Isso pode explicar por que a grande maioria dos libertados não falou com a imprensa sobre seus casos, com algumas exceções no exterior, longe do alcance do aparato de segurança chavista.
Diversas organizações da sociedade civil, como a ONG Foro Penal, alertaram que essas libertações são condicionais, sem o encerramento dos processos judiciais e com risco de nova prisão, segundo Alfredo Romero, presidente da organização. Alguns chegaram a pedir anonimato, de acordo com Gonzalo Himiob, vice-presidente do Foro Penal, que está verificando se são de fato presos políticos.
A respeito disso, a família da ativista venezuelana-espanhola Rocío San Miguel afirmou que ela não recebeu liberdade plena, mas sim “uma medida cautelar em substituição à prisão, concedida no âmbito de seu processo judicial”, conforme explicou em um comunicado. Acrescentaram que ela “permanece sujeita à proibição de fazer declarações públicas”.
O Ministério dos Serviços Penitenciários anunciou na segunda-feira que as últimas liberações são de indivíduos ligados a “atos associados à perturbação da ordem constitucional e à ameaça à estabilidade da nação”, mas não comentou especificamente sobre quaisquer exigências ou condições. A CNN enviou uma solicitação de esclarecimentos ao governo venezuelano sobre o assunto.
No final de dezembro, quando o governo de Nicolás Maduro libertou dezenas de pessoas, impôs medidas cautelares a elas, como a proibição de deixar o país, conceder entrevistas ou fazer declarações nas redes sociais, segundo familiares de cinco delas que falaram à CNN. Elas também são obrigadas a comparecer ao tribunal a cada 30 dias e estão proibidas de se comunicar entre si, acrescentaram. A CNN solicitou um posicionamento do Serviço Penitenciário, mas não obteve resposta.
O Foro Penal confirmou 56 libertações até a noite de segunda-feira (12), menos da metade das 116 anunciadas pelo governo desde quinta-feira (8) e menos de 10% dos presos políticos contabilizados pela ONG no país.
Apesar do silêncio imposto aos libertados na Venezuela, alguns presos políticos estrangeiros que conseguiram deixar a prisão e viajar para seus países relataram como era a vida na cadeia.
“Eu tinha medo que me matassem”, disse o empresário italiano Mario Burlò, de 52 anos, preso no final de 2024 e que chegou a Roma nesta terça-feira.
“Minha família na Itália achou que eu estava morto, foi um verdadeiro sequestro”, disse ele, segundo o jornal Corriere della Sera. “Hoje fiquei sabendo que fui absolvido em um processo pendente. Eu era acusado de terrorismo e conspiração em Caracas”, explicou sobre seu caso.
Sobre as condições de reclusão, ele relatou: “Eu disse aos guardas da prisão: até os cachorros têm necessidades diárias, nós somos menos que cachorros. Eles nos levavam para o pátio, uma hora por dia, cinco dias por semana. Nos faziam dormir no chão, no meio das baratas.” Em declarações citadas pelo jornal La Stampa, ele descreveu a prisão como “pior que Alcatraz”.
O empresário esclareceu que não sofreu abusos físicos, “mas sim psicológicos”, como ficar incomunicável com sua família por quase um ano.
Enquanto isso, Alberto Trentini, um trabalhador humanitário que também foi preso em novembro de 2024, disse ao chegar à Itália que está feliz, mas que sua felicidade “tem um preço muito alto”, segundo uma declaração lida por seu advogado. “O sofrimento desses intermináveis 423 dias é indelével. De agora em diante, precisamos viver dias de paz e consciência para tentar apagar as más lembranças e superar o sofrimento desses 14 meses”, afirmou.
“Nossos pensamentos estão com todos os que permanecem detidos e com suas famílias, para que em breve possam experimentar a alegria da libertação”, acrescentou.
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