“Todas as pragas caíram sobre a Venezuela”: moradores do país falam sobre fome e crise
País deverá terminar o ano com uma inflação de 700% e 10% de recessão no PIB
Internacional|Do R7*

O colapso econômico da Venezuela tem provocado a escassez de muitos produtos básicos e afetado diretamente a qualidade de vida no país vizinho. Relatos de saques a lojas e supermercados surgem todas as semanas nas redes sociais — assim como imagens de pessoas dormindo em frente as lojas na madrugada, na esperança de comprar produtos básicos.
Apesar de a autenticidade das imagens ser difícil de ser comprovada, o R7 conversou com alguns venezuelanos, que relataram as dificuldades que vêm passando para sobreviver no país.
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“Todas as pragas caíram sobre a Venezuela”, avalia o diagramador e fotógrafo Nestor Velasquez. Morador de Maturin, cidade localizada no norte do país, ele diz que não consegue emprego fixo no país porque “não há papel e muitos jornais têm parado de circular”.
— Vivemos uma crise política, social e econômica nunca vista na Venezuela. Não há comida nem nenhum medicamento de qualquer tipo.
Por conta da crise, o diagramador afirma ter tido que vender diversos pertences — como uma televisão e um caminhão — para comprar produtos básicos e conseguir sobreviver. Ainda assim, Velasquez diz que o salário mínimo na Venezuela não é suficiente para se manter, o que tem feito com que diversos venezuelanos enfrentem horas de viagem até os países da fronteira para comprar alimentos.
—Tive que ir até o Brasil para comprar comida na semana passada. É longe, mas é a única maneira para conseguir comer por aqui. Eu tenho tentado resolver o problema comprando massa para comer com manteiga. Agora no almoço vou preparar um pouco de arroz que comprei no Brasil e comer com manteiga, porque comer carne e frango é um luxo.
A violência é outro ponto destacado pelos venezuelanos entrevistados pelo R7. Morador de Porlamar — cidade localizada na Ilha de Margarita, no norte do país — Jesus Antoine conta que a insegurança nas ruas é grande, e assaltos, crimes e assassinatos “são o nosso pão de cada dia”.
— Você sai para trabalhar e não sabe se vai voltar para casa. Para roubar o seu telefone e até alimentos, as pessoas pegam uma arma e te matam. Aqui onde eu vivo agrediram uma senhora que chegava em casa com suas compras depois de ir ao mercado.
Economia
A Venezuela enfrenta uma grave crise econômica que afeta diretamente a vida de sua população. De acordo com o FMI (Fundo Monetário Internacional), o país deverá terminar o ano com uma inflação de 700% e 10% de recessão no PIB (Produto Interno Bruto).
Analista político e professor da Universidade Bolivariana da Venezuela, Basem Tajeldine avalia que a Venezuela vive uma crise porque sua economia é dependente do petróleo. Segundo ele, o governo “nunca imaginou” que o preço do barril de petróleo iria cair para 24 dólares.
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— A economia da Venezuela estava calculada, para um bom desenvolvimento, em torno de 60 dólares o barril.
Tajeldine explica que a Venezuela tem tentado incentivar os setores mais desfavorecidos com subsídios e segurar a inflação por meio da regulação de preços para os produtos básicos, como a carne e o açúcar. No entanto, o analista diz que alguns empresários venezuelanos estão usando a crise para tentar afetar o governo de Nicolás Maduro.
— Cada vez que o Estado apreende materiais contrabandeados, grandes quantidades de produtos de primeira necessidade são encontrados escondidos. Esses produtos são vendidos no mercado paralelo por 1000%, 2000% a mais do que os preços regulados dos mercados.
Saúde
A área da saúde também tem sido afetada pela crise econômica na Venezuela. O diagramador Nestor Velasquez conta que as maternidades de sua cidade têm registrado mortes de bebês recém-nascidos vítimas de infecções bacterianas causadas pela falta de higiene.
— Na Venezuela, quem fica doente morre. Meu pai morreu há três meses de câncer de pulmão e não conseguia sua medicação nos hospitais. E, como ele, há muitos outros casos. As crianças são as que mais têm sido afetadas pela crise, porque não há comida, e muitas vezes elas acabam desmaiando de fome nas escolas.
Há menos de 3 horas de Maturin, na cidade de Guayana, a situação também é calamitosa. Eletricista técnico, Hector Gutierrez lembra que, há poucos dias, uma criança morreu desnutrida em um hospital da cidade.
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— Com os custos altos dos alimentos, os médicos não conseguiam dar alimentação adequada à ela, e o hospital teve de aplicar apenas soro.
Desempregado, Gutierrez diz que não pode sequer estocar os poucos alimentos que consegue comprar nos mercados, já que sua geladeira quebrou "por conta dos seguidos cortes de energia" e para comprar uma nova "é preciso trabalhar sem gastar por 10 anos ou mais".
Por conta do colapso econômico na Venezuela, ele afirma estar esperando o governo emitir seu passaporte para “buscar um futuro melhor em outro país”. Até o momento, ele considera vir para o Brasil, pela pouca distância.
— O difícil é a língua, mas você aprende.
* Por Luis Jourdain
Imagens chocantes feitas pela fotógrafa Meridith Kohut, do jornal norte-americano New York Times, mostram o impacto da crise econômica e de abastecimento no sistema de saúde da Venezuela. Os centros médicos do país estão sem sabonetes, antibióticos, lu...
Imagens chocantes feitas pela fotógrafa Meridith Kohut, do jornal norte-americano New York Times, mostram o impacto da crise econômica e de abastecimento no sistema de saúde da Venezuela. Os centros médicos do país estão sem sabonetes, antibióticos, luvas e aparelhos de raios-x, entre outras coisas. Em meio ao caos, cirurgiões e médicos lutam para manter os pacientes vivos




















