Internacional UE em alerta: Merkel dá passo arriscado ao sugerir novas eleições

UE em alerta: Merkel dá passo arriscado ao sugerir novas eleições

Chanceler alemã quer evitar governo de minoria, mas pode até perder o cargo

Merkel dá passo arriscado ao sugerir novas eleições na Alemanha

Merkel arrisca o cargo para evitar governo de minoria

Merkel arrisca o cargo para evitar governo de minoria

Axel Schmidt/REUTERS - 22.11.2017

A chanceler alemã, Angela Merkel, declarou nesta semana que prefere convocar novas eleições a ter um governo instável de minoria, após o fracasso das negociações com outros partidos políticos.

Um movimento arriscado da parte de Merkel, explica Demétrius Pereira, professor de política europeia das Faculdades Integradas Rio Branco.

— Novas eleições podem ser uma opção melhor caso ela venha a assegurar a maioria no Parlamento. No entanto, caso venha a sofrer um revés, isso pode ser pior [do que a situação atual], porque ela poderia inclusive perder a possibilidade de formar um novo governo, como chanceler do país.

O impasse político começou logo após as eleições de setembro deste ano, quando o partido da chanceler, a CDU (União Democrata-Cristã), obteve 33% dos votos, não alcançando a maioria absoluta das cadeiras do Parlamento.

— Um governo de minoria significa, na prática, que as propostas que ela tem para administrar a Alemanha teriam que ser negociadas uma a uma, então o Poder Executivo ficaria um pouco refém do Legislativo. Se ela tiver maioria, ela praticamente que as suas propostas de governo serão aprovadas e transformadas em lei pelo Parlamento, e com isso ela vai ser autorizada a executar suas propostas.

Pouco antes das eleições de setembro, o SPD (Partido Social Democrata), que teve 20,5% dos votos e com o qual Merkel governou em aliança durante dois mandatos, descartou uma nova coalisão.

A chanceler tentou, então, formar um governo ao lado do o FDP (Partido Liberal Democrático) e do Partido Verde, que tiveram 10,7% e 8,9% dos votos, respectivamente. Essa coalisão inédita ficou empacada, principalmente, devido a dois fatores: refugiados e carvão, diz Yann Duzert, professor de negociação e resolução de conflitos da FGV (Fundação Getúlio Vargas).

Muitos conservadores querem adotar uma linha mais dura sobre a imigração, culpando a decisão de Merkel de permitir a entrada de mais de um milhão de imigrantes em 2015 e 2016 pelo fracasso nas eleições. Então, a CDU e a CSU (União Social Cristã), que já trabalham em coligação, defendem a cota máxima de acolhimento de 200 mil refugiados por ano, medida que não agrada o Partido Verde.

— Os ecologistas estão dispostos a fazer concessões, mas defendem, sobretudo, o reagrupamento familiar, que aumentaria de forma significativa o volume de imigrantes na Alemanha. A CSU tem outro problema que é na Bavária, onde há influência da AfD, que está com fôlego e claramente contra os imigrantes, então a CSU precisa mostrar uma linha dura contra a imigração nesta região.

Os Verdes insistiam também em datas fixas para proibir carros com motores a combustão na Alemanha e para o desligamento de estações de energia a carvão.

— O problema é que o CDU tem muito poder na região da Renânia do Norte-Vestfália, que é uma região altamente industrial. Por isso, é muito complicado para eles fazerem essa concessão do carvão, então tem um jogo político de postergar o uso de carvão e os ecologistas são claramente contra. E, para completar, os Verdes defendem reduzir as emissões alemãs em 40% até 2020, em relação ao nível de 1990, o que representaria 90 toneladas de CO2, no mínimo. Os conservadores e liberais pensam que 32 toneladas seria o suficiente.

Até que um novo governo seja formado, Merkel continua atuando como chanceler interina e os ministros também permanecem em seus postos. Todo o impasse alemão é acompanhado com apreensão pela UE (União Europeia), diz Pereira.

— Essa instabilidade do governo alemão pode ter reflexos internacionais. A Alemanha é um dos principais países e um dos motores da integração europeia, juntamente com a França. A vitória de Emmanuel Macron, na França, assegurou que um dos eixos já está estável. Além disso, existe um alinhamento muito forte entre Macron e Merkel, então a vitória dela representa também uma vitória dos governos a favor da UE.

Duzert completa dizendo que Macron e Merkel são negociadores com visão de futuro e serão fundamentais para fazer as reformas necessárias para a sobrevivência da UE.

— Ela é uma negociadora moderna, que sabe alinhar interesses, ser firme e solidária ao mesmo tempo. Ela tem uma elegância moral e mostra estabilidade em momentos em que o mundo tem muito caos. O Macron tem também essa cultura tentar procurar decisões multilaterais e não ficar só na dominância.