Último post de nigeriano antes de morrer amplia protestos no país

Na manhã desta quarta, Oke disse que a Nigéria não acabaria com ele; horas depois, ele se tornou mais um dos manifestantes mortos no país

Homens armados cercam corpos de manifestantes em Lagos, na Nigéria

Homens armados cercam corpos de manifestantes em Lagos, na Nigéria

Reprodução via Reuters TV - 21.10.2020

Na manhã desta quarta-feira (21), um designer identificado como Oke publicou em sua conta de Twitter a mensagem "Nigeria will not end me" ("A Nigéria não vai acabar comigo", em tradução livre). Três horas depois, ele foi baleado por agentes de segurança durante um protesto em Lagos, capital financeira do país, e morreu caído na rua.

A morte dele, assim como as de outros manifestantes — cerca de 25, nos últimos 15 dias, segundo a Anistia Internacional, e pelo menos 12 desde terça-feira —, se tornou o mais recente exemplo de uma onda de violência e indignação que tomou conta do país.

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Os jovens nigerianos afirmam que estão sendo alvejados por soldados e policiais e que o acesso de ambulâncias aos locais de confronto e aos hospitais está sendo impedido. O governo nega, mas as evidências estão cada vez mais fortes.

Violência policial

O que levou a essa situação são décadas de abuso policial, cometidas especialmente por uma unidade de elite da polícia nigeriana chamada Special Anti Robbery Squad ("Esquadrão Especial Antiassaltos", em tradução livre).

Criada nos anos 1980 para combater a alta criminalidade nas cidades da Nigéria, a SARS vinha sendo acusada há muitos anos de crimes como sequestro, extorsão, tortura e execuções extrajudiciais.

Violência tomou conta da Nigéria

Violência tomou conta da Nigéria

Reprodução / Twitter

Na primeira semana de outubro, circulou a notícia de que homens da SARS tinham baleado um jovem em uma cidade do interior do país, sem que ele tivesse cometivo nenhum crime, o deixaram sangrando na rua até morrer e foram embora no carro do rapaz.

Quando vídeos mostrando a agonia da vítima circularam na internet, as ruas das grandes cidades do país, como Lagos e a capital Abuja, foram tomadas por manifestantes exigindo reforma policial, o fim da SARS e outras medidas.

No último dia 11, o governo anunciou que iria encerrar a unidade policial e seus membros seriam remanejados para outros postos dentro da corporação. Para quem estava na rua, não foi o suficiente.

Eles pedem agora a revogação de diversas prisões feitas pela SARS, a libertação dos manifestantes presos, uma reforma policial mais profunda e compensação para os familiares de vítimas executadas pelos policiais.

Outro ponto importante para entender os protestos é a situação econômica do país. A maior parte da população nigeriana é de jovens e o desemprego chegou a 27% em agosto deste ano. Por isso, os protestos continuam.

Massacre em Lekki e Alausa

Na terça-feira, depois que o governo do estado de Lagos, onde fica a cidade de mesmo nome, antiga capital e principal centro financeiro do país, decretou um toque de recolher obrigatório e milhares de pessoas permaneciam nas ruas, a violência escalou.

Segundo a Anistia Internacional, testemunhas afirmam que as câmeras de segurança ao redor da praça de pedágios de Lekki e no distrito de Alausa, foram retiradas por homens do governo no fim da tarde. Pouco tempo depois, os tiroteios começaram.

O vídeo acima mostra o momento em que militares chegam ao local dos protestos em Lekki e os tiros são disparados.

Em entrevista à Al Jazeera, o nigeriano Agboola Fabiyi, que estava no local, disse que os manifestantes apenas cantavam o hino do país e sacudiam bandeiras quando os soldados chegaram.

"Nunca imaginamos que eles iriam atirar em nós, porque estávamos em paz e desarmados. No máximo, achamos que os soldados iriam nos disperar com gás", contou ele, abalado. Fabiyi diz que se jogou no chão no meio da confusão e saiu do local se arrastando.

Nas redes sociais, as forças armadas se esforçaram para desmentir todos os relatos de que havia um massacre em Lekki e Alausa, mas os hospitais da região foram tomados por feridos. O governo não confirmou mortos, mas há relatos de pelo menos uma dúzia. Alguns corpos foram levados por militares.