Uruguai vive eleições mais incertas e acirradas dos últimos 15 anos

No poder desde 2005, a Frente Ampla, do presidente Tabaré Vázquez, corre o risco de ver sua hegemonia acabar com uma possível volta da direita

Candidatos fizeram seus últimos comícios nesta quinta-feira

Candidatos fizeram seus últimos comícios nesta quinta-feira

Raúl Martínez / EFE - 24.10.2019

O possível retorno da direita ao poder após 15 anos, a notícia de que o presidente Tabaré Vázquez sofre de um câncer, e o crescimento do Cabildo Abierto — partido de grande apoio militar e inspirações bolsonaristas — foram os eixos da campanha eleitoral mais acirrada dos últimos tempos no Uruguai.

Uma nova polêmica ganhou o país nos últimos dias, praticamente às vésperas do pleito do próximo domingo, com o vazamento de gravações nas quais o governador do departamento de Colonia, Carlos Moreira, pede favores sexuais a uma mulher para dar a ela um emprego de estagiária no governo local.

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Um dos principais nomes do opositor Partido Nacional, Moreira era candidato ao Senado. Após o escândalo, ele desistiu da candidatura e deixou a legenda, mas não o cargo de governador.

A Frente Ampla — coalizão que reúne alas que vão desde a democracia cristã ao socialismo, passando pelos ex-guerrilheiros tupamaros, entre os quais está o ex-presidente e ex-senador José Mujica — chegou ao poder em 2005, com a primeira vitória de Vázquez.

O atual presidente conseguiu acabar com 174 anos de governos dos dois principais partidos do país, o Colorado e o Branco, após triunfar em primeiro turno.

Desde então, a coalizão progressista emplacou três mandatos consecutivos, dois de Vázquez e um de Mujica. Agora, pela primeira vez em 15 anos, balança diante de uma possível aliança entre os principais partidos opositores.

Parece claro que a disputa entre Daniel Martínez, ex-prefeito de Montevidéu e candidato da Frente Ampla, e Luis Lacalle Pou, atual senador pelo Partido Nacional, não será definida no primeiro turno. A dúvida está se o opositor conseguirá o apoio do Partido Colorado, de centro-direita, e do Cabildo Abierto, de direita, numa eventual segunda votação.

A campanha eleitoral no Uruguai começou há mais de seis meses com a realização das primárias internas dos principais partidos, mas sofreu um grande baque em agosto, quando foi divulgada a notícia de que Vázquez sofre de um câncer no pulmão.

A normalidade com a qual o presidente, de 79 anos, enfrentou a doença dissipou rapidamente os rumores de uma possível renúncia antes do fim de seu mandato, que termina em 1º de março de 2020. Por ter uma vida privada discreta, poucos detalhes sobre o tratamento médico ao qual ele está sendo submetido vieram à tona.

A vida política de Vázquez não foi tranquila em 2019. Em abril, as confissões do ex-militar uruguaio José Gavazzo de crimes cometidos durante a ditadura militar (1973-1985), omitidas pelas autoridades, fizeram o governo cambalear.

O caso foi descoberto pelo "El Observador", que revelou que o ex-militar confessou ao Tribunal de Honra do Exército ter jogado, em 1973, o corpo do guerrilheiro tupamaro Roberto Gomensoro em um rio.

O escândalo provocou uma série de demissões que atingiram desde o ministro de Defesa até a cúpula das Forças Armadas.

No entanto, o general Guido Manini Ríos, ex-comandante em chefe do Exército, afastado em março por duras críticas a uma reforma das pensões militares propostas pelo governo, aproveitou a polêmica para anunciar que seria candidato à presidência pelo Cabildo Abierto, uma força política criada para disputar as eleições deste domingo.

O crescimento da legenda é considerado inusitado. Com inspirações no bolsonarismo, o Cabildo Abierto vem subindo nas pesquisas. Alguns institutos, inclusive, já colocam o partido como a terceira força entre a preferência do eleitorado.

O Cabildo Abierto esteve no centro da polêmica por incentivar um movimento de extrema direita inspirado em seu próprio líder, envolvido na investigação judicial do caso Gomensoro.

Manini Ríos não nega a simpatia por Jair Bolsonaro e, inclusive, foi recebido pelo vice-presidente do Brasil, Hamilton Mourão, em setembro.

A campanha eleitoral também foi marcada pelo primeiro debate entre os dois principais candidatos desde 1994.

A ausência do representante do Partido Colorado, Ernesto Talvi, terceiro colocado na maioria das pesquisas, fez Martínez e Lacalle Pou subirem o tom nas discussões, algo pouco comum no tranquilo cenário político do Uruguai.