Internacional ‘Você não deixa só o país, deixa sua história’, diz refugiado venezuelano no Brasil

‘Você não deixa só o país, deixa sua história’, diz refugiado venezuelano no Brasil

Juan José Kirpa se mudou para Boa Vista, em Roraima, após perceber que sua família estava sem comida e emagrecendo 

Resumindo a Notícia

  • Juan José Kirpa fugiu da Venezuela em 2017 para buscar condições melhores de vida no Brasil
  • Refugiado conta que emagreceu na Venezuela por conta das restrições na compra de alimentos
  • Venezuelano chegou a morar na rua no Brasil, mas conseguiu um trabalho e trouxe a família
  • Hoje Juan trabalha como motorista de aplicativo e teve um filho brasileiro
Juan José Kirpa trabalha como motorista de app no Brasil

Juan José Kirpa trabalha como motorista de app no Brasil

Arquivo Pessoal

O venezuelano Juan José Kirpa, de 43 anos, chegou ao Brasil em novembro de 2017. Ele é uma das 700 mil pessoas que deixaram o país sul-americano para tentar a sorte em território brasileiro, de acordo com informações do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Juan, que era motorista em Valle de la Pascua, no norte da Venezuela, largou família, casa própria e outros bens para fugir da terrível crise econômica que o país governado por Nicolás Maduro vive nos últimos anos. Em entrevista ao R7, o refugiado lamentou precisar deixar sua terra natal.

“Você não deixa só o país, você deixa sua história. Na época, eu saí sozinho, foi um chute para ver se dava certo. Qualquer coisa, eu voltava. Não tinha onde buscar. Acordei um dia e decidi ir.”

Infelizmente tive que deixar muita coisa para trás. Família, história, amigos... Nossa, quantas coisas deixei para trás

O venezuelano se orgulha de Valle de la Pascua, conta como a região é importante para a produção de milho, arroz, cebola, melancia, melão e até exportação de carne bovina. Juan conta como sua vida era confortável, mas que aos poucos foi sendo estrangulada pelas questões econômicas internas.

O refugiado explica que era permitido apenas uma ida ao mercado por pessoa na semana. O governo mantinha o controle a partir do número final da identidade de cada cidadão. A quantidade de mantimentos também era limitada, independentemente do tamanho da família.

“Você não podia comprar o que você quisesse, você tinha que comprar sempre o mínimo. Era permitido, por exemplo, comprar um saco de arroz por semana. Se a sua família tinha seis, sete pessoas, um arroz não daria para todos. Você não podia ir hoje e amanhã no mercado”, diz Juan. “Passei a emagrecer muito, assim como minha família toda”.

Com o racionamento de mantimentos, itens básicos como leite, manteiga, pasta de dente e farinha passaram a ser controlados pelo governo. Ir à padaria, por exemplo, exigia um enorme esforço dos venezuelanos. Era preciso acordar até cinco horas antes do local abrir para tentar garantir um ou dois pães.

Para comprar pão, você tinha que acordar cedo, às 3h da manhã, para fazer uma fila quando a padaria abria às 8h. Não estou exagerando, estou falando a verdade

Contraste de realidade no Brasil emocionou Juan

Juan morou durante meses em abrigo no Brasil

Juan morou durante meses em abrigo no Brasil

Arquivo Pessoal

Para fugir da Venezuela, Juan vendeu o carro e usou parte do valor na viagem ao Brasil. Nos cálculos do refugiado, ele teria dois meses de economias para viver no país, entretanto, um contratempo no caminho, fez com que ele chegasse no território brasileiro com apenas R$ 2.

Nos primeiros dias, o refugiado venezuelano precisou dormir nas ruas. Ele afirma que a parte mais difícil de toda jornada no Brasil foi precisar coletar papelão no lixo para ter onde deitar quando a noite chegou.

“Fiquei na rua, depois fui para um abrigo e morei lá quase três meses. Só após uns quatro meses comecei a trazer a minha família”, conta o refugiado. “No abrigo recebi ajuda do governo do Brasil. Algumas ONGs chegaram lá para nos ajudar. Um jornalista nos deu aula de português. Até hoje eu guardo o caderno onde anotava as dicas.”

Não tinha outra opção sem ser a rua. Chega o momento que você fala: o que fiz?

Um dos momentos mais emocionantes dos primeiros dias no Brasil foi quando Juan chegou ao supermercado e percebeu que não existia o racionamento de mantimentos que existia na Venezuela.

“Quando cheguei no Brasil, eu chorei. Tinha de tudo. Disse para o estoquista [do mercado]: ‘Quanto que pode levar por pessoa?’. Ele respondeu: ‘Moço, a quantidade que você quiser’.

Surpreso, perguntei novamente: ‘Sério? Se quiser levar três, eu posso?’. Aí o estoquista falou: ‘Se você quiser levar o fardo todo, pode levar’. Então eu chorei. Vi a diferença.”

Fiquei feliz, mas triste porque meu país estava restringindo alimentos e aqui você podia comprar o que quisesse

“No final da história, valeu a pena”

Há cinco anos no país, Juan e esposa tiveram um filho brasileiro

Há cinco anos no país, Juan e esposa tiveram um filho brasileiro

Arquivo Pessoal

Os primeiros meses no Brasil não foram fáceis, mas Juan conseguiu trazer a Boa Vista (RR) os seus três filhos, pai e mãe. Em território brasileiro, o casal ainda teve seu quarto filho.

“Estou há quase cinco anos no Brasil, hoje já tenho um carro, trabalho como motorista de aplicativo. Ainda estou pagando, mas tenho meu carro. Já comprei um terreno e quando terminar de pagar o carro, terei minha casa”, conta otimista Juan.

Um dos grandes orgulhos do venezuelano é ver sua filha mais nova estudando em uma das escolas militares de Boa Vista. Segundo o refugiado, quando chegou ao Brasil, este foi um dos objetivos que ele traçou.

A minha filha caçula conseguiu e está estudando em um colégio militar, sinto muito orgulho dela. As notas dela são muito boas, graças a Deus

Juan não pensa em voltar à Venezuela, já que parte de sua família está no Brasil ou saiu do país. Amigos e colegas do refugiado seguiram o mesmo caminho e procuraram uma nova nação para chamar de casa.

“Estou trabalhando direitinho, dá para pagar contas e não falta nada. Tudo graças ao meu trabalho, da minha mulher e nós dois juntos vamos empurrando o barco na mesma direção. Aí está o segredo. Se todos remarmos no mesmo sentido, o barco vai para onde nós quisermos que ele vá”, afirma Juan. “No final dessa história, posso dizer que valeu muito a pena”.

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