Rússia x Ucrânia

Internacional 'Vou descansar quando tudo isso acabar', diz soldado nas trincheiras ucranianas

'Vou descansar quando tudo isso acabar', diz soldado nas trincheiras ucranianas

Militares ucranianos na linha de frente da guerra com a Rússia acreditam na vitória e rejeitam a possibilidade de rendição

AFP

Resumindo a Notícia

  • Militares ucranianos contam como é a rotina de combate contra o Exército russo
  • Jovem soldado diz ter demorado para se acostumar com os sons da guerra
  • Apesar da difícil situação, ucranianos na linha de frente acreditam na vitória
O ucraniano Dima, 25 anos, conta que demorou para se acostumar aos sons da guerra

O ucraniano Dima, 25 anos, conta que demorou para se acostumar aos sons da guerra

MIGUEL MEDINA / AFP

Em uma trincheira na região ucraniana do Donbass, Dima admite que demorou a se acostumar aos sons da guerra e ao convívio com seus colegas soldados, além das moscas por toda parte.

Agora, o soldado de 25 anos, de sorriso fácil, afirma confiante que está tudo bem, apesar do constante estrondo da artilharia.

Seu apelido, "Moriak" (marinheiro), está escrito no uniforme junto com os slogans usados pelos soldados: "Born to hunt" (nascido para caçar) e "Si vis pacum para bellum" (Se você quer paz, prepare-se para a guerra).

Depois de servir na linha de frente nas regiões de Sumy e Kharkiv, no norte, Dima foi enviado à região de Izium. 

Essa região se situa ao noroeste de Kramatorsk, centro administrativo do Donbass, uma área industrial que as tropas russas tentam conquistar.

Desde sua chegada, Dima cavou uma trincheira na terra escura, como todos em sua unidade. Ela mede dezenas de metros, um labirinto cheio de pás, picaretas e abrigos subterrâneos onde os homens dormem. 

"Nós cavamos quando está quieto, nos escondemos quando eles bombardeiam", diz um soldado.

As forças russas estão a poucos quilômetros. "Não passarão!", exclama em espanhol o chefe da unidade, Ahil, um soldado com muita experiência e de poucas palavras.

Quando perguntado quantos homens há na unidade, ele responde: "O número de que precisamos". A situação? "Poderia ser pior". Armas? "Nós nunca temos o suficiente." Moral? "Boa."

Ahil é chefe de uma unidade que está na linha de frente na guerra com a Rússia

Ahil é chefe de uma unidade que está na linha de frente na guerra com a Rússia

MIGUEL MEDINA / AFP

Ahil diz que combate no Donbass desde 2014, quando separatistas apoiados pela Rússia tomaram o controle de parte do território.

Ele acredita que a situação agora é completamente diferente. "Hoje há uma guerra total", afirma o soldado, que espera "descansar quando tudo isso acabar". "Se é que consigo chegar a esse ponto", acrescenta.

Essa parte da linha de frente tem sido uma das mais ativas desde que começou a invasão russa, em 24 de fevereiro, mas se acalmou nas últimas semanas, depois que os russos tentaram avançar em outros lugares.

"Este local foi um dos mais sangrentos", admite "Grizzly", outro comandante.

Quando questionado sobre pensar na morte, respondeu: "É óbvio, penso o tempo todo que essa poderia ser minha última xícara de chá ou a última vez que vou dormir".

Fora da trincheira, o campo se estende por uma paisagem que seria magnífica, não fosse o extenso terreno destruído. 

Soldado ucraniano chamado pelo apelido Grizzly diz pensar a todo momento que pode morrer

Soldado ucraniano chamado pelo apelido Grizzly diz pensar a todo momento que pode morrer

MIGUEL MEDINA / AFP

As munições não detonadas estão espalhadas pelas estradas, marcadas por crateras e veículos queimados. Alguns veículos militares são vistos. Um tanque T-72 levanta uma nuvem de pedras e poeira enquanto gira. 

Alguns quilômetros atrás fica o quartel-general da brigada, em uma fazenda abandonada. Galinhas vagam entre as ruínas, um gato dorme em uma cadeira abandonada. Um míssil Tochka-U é visto no pátio.

Ao pé de uma pequena escada, o oficial encarregado trabalha em uma sala de 15 m² repleta de mapas e rádios para se comunicar com seus postos. Três homens estão deitados no escuro da sala, olhando para seus telefones.

Oleksandr, o oficial de 34 anos, diz que a situação está "sob controle". "Estamos aqui desde o final de abril e, após várias tentativas do inimigo de avançar, somos nós que avançamos, quilômetro a quilômetro", afirma. 

A meta? "Vitória total." É possível um cessar-fogo? "Não, não, não."

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