Xi Jinping tem controle absoluto sobre as Forças Armadas da China e, agora, quer mais
Desde 2023, mais de 20 autoridades militares foram colocadas sob investigação ou afastadas
Internacional|Simone McCarthy, da CNN Internacional
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A decisão do líder chinês Xi Jinping de colocar sob investigação o general de mais alta patente do país é um movimento surpreendente que deixa Xi praticamente sozinho no topo da hierarquia militar — levantando questões profundas sobre as implicações para as maiores forças armadas do mundo, assim como para as ambições de Pequim de assumir o controle de Taiwan.
Mas a expurgação também deixa uma coisa clara: Xi não vê nenhum alvo grande demais para ser derrubado enquanto remodela o Exército segundo sua visão — e prioriza a lealdade acima de tudo.
As investigações contra Zhang Youxia, um comandante militar experiente, veterano de combate e aliado de longa data de Xi, e contra Liu Zhenli, que chefia as operações conjuntas do PLA (Exército de Libertação Popular), foram anunciadas nesse sábado (24) em um vídeo sucinto de 30 segundos divulgado pelo Ministério da Defesa.
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Um editorial publicado posteriormente no People’s Liberation Army Daily acusou Zhang e Liu de “pisotear gravemente e minar o sistema de responsabilidade máxima que recai sobre o presidente da Comissão Militar Central” — um jargão que sugere que eles representavam uma ameaça ao que mais importa aos olhos de Xi: sua autoridade.
As acusações parecem marcar o ápice de um esforço implacável, que já dura mais de uma década, conduzido por Xi para eliminar opositores e combater suposta corrupção.
Nos últimos anos, essa campanha esvaziou o alto escalão militar, com mais de 20 autoridades militares de alto nível colocadas sob investigação ou afastadas desde 2023.
O quão profundo esse esforço se estende fica agora ainda mais claro com a investigação contra Zhang.
O general era visto há muito tempo como um aliado próximo e intocável de Xi — outro “príncipe vermelho”, filho de revolucionários, cujos laços com o líder chinês remontam à geração de seus pais, que lutaram juntos na Guerra Civil Chinesa.
“Isso é potencialmente uma mudança sísmica na política chinesa sob Xi e na forma como ele governa — demonstra de fato que ninguém nesse sistema está realmente seguro”, disse Jonathan Czin, pesquisador do Centro de Estudos da China da Brookings Institution.
A expurgação “atingiu agora um crescendo (aumento de intensidade) ao alcançar os escalões mais altos do partido”, afirmou Czin, que também é ex-analista da CIA (Agência Central de Inteligência) especializado em China.
Isso sugere que Xi concluiu que “a podridão é tão profunda no PLA e a má gestão é tão grave no topo que ele precisa fazer uma limpeza geral em toda uma geração de líderes”.
E, no caso de Zhang, essa queda é “quase shakespeariana”, disse Czin, dentro do arco mais amplo de como Xi começou perseguindo inimigos que lucravam com seus cargos, depois passou a mirar até mesmo pessoas que ele próprio havia nomeado e agora derruba até aqueles com quem mantém relações de longa data.
“Para Xi se livrar de alguém assim é realmente notável… Porque há tão pouca confiança e porque a política é tão cruel (nesse sistema), esses tipos de relacionamento são ainda mais preciosos… não levam anos para serem construídos, levam décadas ou, neste caso, potencialmente uma vida inteira.”
A ‘posição inabalável’ de Xi
As circunstâncias em torno da investigação de Zhang permanecem pouco claras — provavelmente não apenas para observadores externos, mas também dentro da caixa-preta que é o Exército chinês, uma entidade gigantesca e opaca até mesmo para os padrões habituais da China.
O Wall Street Journal informou, citando fontes familiarizadas com um briefing de alto nível sobre as acusações, que Zhang teria sido acusado de vazar “dados técnicos centrais sobre as armas nucleares da China para os Estados Unidos”, além de aceitar subornos para atos oficiais, “incluindo a promoção de um oficial ao cargo de ministro da Defesa”.
A CNN não verificou essas alegações e entrou em contato com o Ministério da Defesa da China para comentar.
Rumores se espalham
Alguns especialistas, no entanto, questionam se as acusações de vazamento de segredos não seriam apenas parte do esforço do partido para criar explicações que acalmem inquietações internas, em vez de preocupações legítimas.
E rumores se espalharam no vácuo de informações.
Entre eles, especulações de que Xi estaria perdendo o controle do poder — uma tese amplamente rejeitada por especialistas.
Outros focaram na possibilidade de Xi estar reprimindo facções rivais dentro do Exército, algo que alguns observadores consideram plausível, caso o líder acreditasse que disputas internas estivessem distraindo altos oficiais — ou se Zhang estivesse se tornando um desafio à sua autoridade.
A linguagem oficial usada no editorial do PLA Daily “pode sugerir que Zhang estava se tornando poderoso demais para o gosto de Xi”, segundo Neil Thomas, pesquisador do Centro de Análise da China do Asia Society Policy Institute.
Também pode significar “simplesmente que ele traiu a confiança [de Xi] ao ajudar a corromper a burocracia de compras e/ou ao não fazer o máximo para criar uma força de combate mais limpa”, afirmou.
Esforço para remodelar o exército chinês
Desde que chegou ao poder em 2012, Xi tem conduzido um esforço abrangente para remodelar o Exército — não apenas para transformá-lo em uma força moderna capaz de enfrentar rivais como os Estados Unidos e sustentar as reivindicações territoriais da China, mas, sobretudo, para defender o partido — e seu líder — custe o que custar.
Esse objetivo é amplamente visto como resultado da leitura astuta de Xi da história, ao observar regimes autocráticos que ruíram quando seus líderes perderam o controle sobre os militares. Ele também está intimamente ligado à organização das Forças Armadas chinesas, que são controladas pelo partido, e não pelo Estado.
Uma reorganização massiva e a modernização tecnológica caminharam lado a lado com uma campanha anticorrupção. Dezenas de oficiais militares de alto escalão e executivos do setor de defesa foram derrubados na onda mais recente dessas ações desde 2023.
Mas o impulso de Xi para expurgar até mesmo seus principais generais provavelmente é mais um testemunho de sua força do que de fraqueza, dizem especialistas.
“O fato de Xi Jinping ter conseguido afastar tantos membros da elite do PLA desde que assumiu o poder… É um sinal claro de que sua posição no regime é inabalável”, afirmou James Char, professor assistente do Instituto de Estudos de Defesa e Estratégicos da Escola S. Rajaratnam de Estudos Internacionais, em Cingapura.
‘Estado de desordem’
O movimento mais recente deixa Xi praticamente sozinho no topo da hierarquia militar chinesa.
A poderosa Comissão Militar Central, que ele preside, tinha seis membros fardados após a reestruturação regular da liderança em 2022. A investigação mais recente (ainda sem expulsões formais) deixa apenas um desses membros em pé: Zhang Shengmin, o chefe da campanha anticorrupção militar.
As sucessivas quedas de altos dirigentes deixaram a liderança do PLA “em um estado de desordem neste momento”, disse Thomas, da Asia Society.
“Restam pouquíssimos oficiais com a patente de general. Tenho certeza de que há pessoas competentes esperando nos bastidores, mas todas seriam novas em cargos de liderança sênior”, afirmou, observando que Xi pode usar os mais de 18 meses até a próxima reestruturação da liderança para avaliar novos candidatos e “eliminar a influência de relações de apadrinhamento existentes”.
Enquanto isso, Xi já vem recorrendo a oficiais de segunda linha do PLA para, de forma amplamente informal, preencher cargos deixados por seus antecessores desonrados tanto nos departamentos da Comissão Militar Central quanto nos ramos das Forças Armadas, segundo Char, em Cingapura.
“As operações diárias do PLA continuaram normalmente, apesar dessas expurgações, já que um corpo de oficiais mais jovem — e talvez mais profissional — está disponível para assumir essas responsabilidades”, disse.
Mas o que isso significa para as ambições mais amplas de Pequim — incluindo o objetivo de assumir o controle de Taiwan, que se autogoverna — é menos claro. O Partido Comunista Chinês no poder reivindica a ilha como seu território, apesar de nunca a ter controlado.
No centro dessa questão estão dúvidas sobre possíveis impactos na operabilidade imediata das Forças Armadas, no moral da tropa ou em eventuais cronogramas que Pequim possa ter para se preparar para alcançar esse objetivo, inclusive por meio do uso da força militar.
A investigação contra Liu, em particular, ressalta essas preocupações, dizem analistas, dado seu papel na coordenação do principal comando de combate do PLA.
Mas isso talvez não seja uma grande preocupação para Xi neste momento, segundo Czin, da Brookings.
Em vez disso, afirmou, o líder chinês provavelmente observa um governo dos Estados Unidos que não parece “particularmente interessado” na questão de Taiwan e a possibilidade de uma mudança de poder nas eleições taiwanesas de 2028 — e conclui que agora é um “momento seguro para fazer uma limpeza geral”.
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